O palácio de Carlito

A 'invasão' de um suntuoso templo pela arte conceitual confirma: a Bahia está de olho na produção contemporânea

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2010 | 00h00

 

Árvore. Uma aroeira no alto do hall de entrada do Palácio da Aclamação: viva e brotando, faz parte da mostra do artista. Foto: Carlito Carvalhosa e Carolina Veiga / Divulgação

   

A arte contemporânea invadiu o palácio. Já no suntuoso hall de entrada, uma árvore aroeira brota no ar e se mantém suspensa e frondosa. É só o começo. Quando o visitante chegar ao salão de banquete, vai encontrar cinco postes gigantescos de madeira cruzando a sala de ponta a ponta. E a aventura palaciana não para por aí. A partir de hoje, o Palácio da Aclamação, em Salvador, construção do século 19, abriga uma série de ações escultóricas do artista Carlito Carvalhosa. Monumentalidade e poética a serviço de dar um "giro na percepção" das pessoas.

Com afrescos, lustres de cristal e decoração que remetem ao "sonho da burguesia", o Palácio da Aclamação foi durante 55 anos a residência oficial dos governadores da Bahia, transferida em 1967 para o imóvel Alto de Ondina. Desde então, o edifício de luxo foi usado para hospedar personalidades - entre elas, em 1968, a Rainha Elizabeth II da Inglaterra. Como espaço museológico e histórico, pode ser visitado pelo público.

Seguindo o Roteiro para Visitação - título da exposição que Carvalhosa inaugura às 19 horas - o público vai poder conhecer ainda um inusitado salão de baile sem espaço para bailar: o artista encheu a área com 220 toras, transformando-a num labirinto de peças encravadas. "O edifício já é uma invasão - uma verdade europeia trazida para um lugar tropical. Pensei que se eu colocasse coisas dentro do prédio entraria no espírito dessa invasão", diz o artista. "Mas tenho a impressão de que, se esses elementos ficassem aqui por mais tempo, poderiam se transformar em habitantes naturais do prédio. É uma experiência que lida com a memória de outra forma", continua Carlito.    

  

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Transformação. A mostra faz parte do Programa Ocupas do Departamento de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (Ipac), que ainda vai contemplar este ano ações dos artistas Eder Santos e Caetano Dias (antes deles, ocorreram mostras de Cildo Meireles e de José Rufino). "Há um desejo de transformação aqui na Bahia com essas exposições de arte contemporânea", diz Carlito.

Lidando com o peso e a monumentalidade do palácio, o artista paulistano diz fazer mais que uma instalação site specific. "As pessoas confundem essa questão, porque há sempre uma ideia de que você vai usar um espaço neutro ou fazer um comentário sobre o lugar. Mas não: o artista traz algo para aquele espaço e o aumenta com uma posição de conflito ou de confronto."

Carlito considera sua ação um trabalho escultórico. "Ele não nasce apenas do lugar em que está, ele tem uma verdade interna. Levo-o ao ponto de atrapalhar o espaço, de se debater com o local como uma espécie de bicho mesmo. Para mim é uma ideia de escultura, porque o trabalho guarda sua autonomia e pode se transportar", afirma o artista. Tanto que ele usou postes de madeira em obra realizada no ano passado no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. A árvore, no hall de entrada, aparece também como um elemento vivo e rico de simbologia. Carlito, afinal, com essas ações de "desvio" quer promover uma ação de reencontro e reconhecimento das coisas. "A potência é condicionar ao máximo essas relações", conclui.

Pinacoteca. Se por um lado a ação de Carlito até 27 de junho no Palácio da Aclamação tem um caráter até violento, sua próxima mostra em São Paulo, a partir de 31 de julho na Pinacoteca, vai lidar com a percepção pela leveza, por meio de tecidos e música - e com a colaboração do compositor americano Philip Glass, que conheceu no Rio na década de 1990. Será um labirinto duplo em espirais com panos TNT (opacos) e alto-falantes no octógono do museu. "As pessoas vão ouvir sem ver e terão de chegar cada vez mais perto para escutar realmente os sons", conta Carlito. Nos dias 2 e 3 de agosto, Glass estará na Pinacoteca para executar ao vivo suas composições.  

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