O ovo de Coltrane

M eu primeiro jazz ao vivo foi a orquestra de Woody Herman em Curitiba, nos idos de 1958. Nestes 53 anos, ouvi de tudo, em Nova York, Paris, Londres, Montreux, Copenhague, Estocolmo e também nos lendários Free Jazz e outros eventos no eixo Rio - São Paulo. Alguns destes encontros privilegiados aconteceram ao largo da música: vi Chet Baker pela primeira vez não num palco, mas no Tribunal de Florença, em 1961, de terno e gravata, condenado por juízes togados à prisão num calabouço gélido em Lucca, cidade natal de Puccini.

O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h10

Nada se compara, porém, ao insólito episódio que presenciei na noite de 18 de novembro de 1961, um sábado, numa épicerie da Rue de Caumartin, em Paris. Era um estabelecimento acanhado, uma simples porta, ao lado do Teatro Olympia. Dentro da minúscula delicatessen, num elegante smoking, o saxofonista John Coltrane exercitava os dedos e os dentes num ovo duro de casca rosada. Do lado de fora, uma multidão de fãs - remelentos moleques dickensianos, - narizes colados na vidraça, se comprimia para assistir ao espetáculo extra-musical. Era o intervalo da apresentação parisiense do quinteto de John Coltrane em sua primeira turnê europeia. Revigorado pelo ovo, Coltrane voltou ao palco e atacou My Favorite Things com o companheiro de sopros Eric Dolphy à flauta, McCoy Tyner ao piano, Reggie Workman no contrabaixo e a locomotiva rítmica do baterista Elvin Jones.

Paris em novembro de 1961 vivia à beira do abismo. A libertação da Argélia era iminente (ocorreria dali a sete meses) e o terror de direita reagia com uma série de atentados, as bombas explodiam na capital por toda parte e a toda hora. Não faltaram intelectuais que interpelassem Coltrane: tocar um hit da Broadway numa hora daquelas? Mas as tensões da crise - política e humana - ressoavam em cada nota que o saxofonista soprava, com uma urgência vital. Ele fez uma autêntica revolução estética a partir de uma inocente canção do musical The Sound of Music, que fazia sucesso em 1960. (A versão cinematográfica com Julie Andrews, A Noviça Rebelde, só sairia em 1965.) Em My Favorite Things Coltrane seguiu a regra de ouro de Lester Young: ao improvisar, o instrumentista deveria ter sempre na cabeça o tema da canção.

A letra de Oscar Hammerstein II é cinematográfica, poesia pura: "Girls in white dresses in blue satin sashes/snowflakes that stay in my nose and eyelashes/silver white winters that melt into spring/these are a few of my favorite things..." (Na versão livre de Cláudio Botelho: "Lona de circo, tapete de grama/Bola de neve e botão de pijama/Doces invernos chegando ao fim/Coisas que eu amo e são tudo pra mim.") Coltrane traduz todo o lirismo do tema e cria ainda um arranjo modal para a melodia de Richard Rodgers no clássico ¾, em tempo de valsa.

Depois de mais de dez anos exclusivamente com o sax tenor, em fevereiro de 1960 Coltrane comprou um sax soprano. E em maio já o tocava ao estrear como líder de um quarteto numa casa do Village, em Nova York, depois de se "emancipar" da banda de Miles Davis. Da família dos saxofones, o soprano era um novilho xucro domado apenas pelo veterano de Nova Orleans Sidney Bechet e por Steve Lacy, um modernista que nunca tocou outro sax além do soprano. Mas o soprano de Coltrane, seco, sem nenhum vibrato, tinha quase o timbre do oboé e se prestou admiravelmente a suas incursões pela música oriental, particularmente a indiana. (Coltrane e seu pianista McCoy Tyner pretendiam gravar um álbum com o citarista Ravi Shankar. O disco não saiu, mas ficaram amigos e o filho de Coltrane, também saxofonista, levou o nome de Ravi.)

O álbum My Favorite Things, lançado em março de 1961, trazia Coltrane na capa empunhando o sax soprano, indício de um novo caminho. Essa obra-prima já nasceu pronta. Várias gravações da mesma sessão possuem alternate takes, mas só existe uma versão de My Favorite Things, a primeira e definitiva, com a duração de 13'41''. Nas interpretações ao vivo, como naquelas de Paris, o tema geralmente se estendia, ultrapassando muitas vezes a marca dos 30 minutos, particularmente quando o quarteto era acrescido de Eric Dolphy, o genial saxofonista, flautista e clarinetista, com seu perfil de príncipe etíope, alma irmã de Coltrane, com quem tinha uma profunda identidade musical.

Em 1961, o Olympia - o templo da chanson em Paris - se transformara na Casa do Jazz (ouvi ali naquele ano Gerry Mulligan, MJQ, Monk, Cannonball Adderley, Art Blakey e os Jazz Messengers, Ella e Oscar Peterson). As apresentações de Coltrane e Dolphy entraram para a história. No jazz o gênio costuma ser breve: Dolphy morreria três anos depois, em Berlim, aos 36; Coltrane, em 1967, aos 40 anos. Mais do que um revolucionário do jazz, ele atingiu a santidade: se você for a San Francisco, não deixe de visitar a Igreja Ortodoxa Africana de Saint John Coltrane. Na recente mostra Queremos Miles, não foram poucos os músicos que se ajoelhavam e rezavam diariamente diante do surrado saxofone tenor de Coltrane, exposto sob os refletores como uma verdadeira joia.

Tive a felicidade de ouvir Coltrane e Dolphy ao vivo. Mais ainda, num lance digno de Forrest Gump - ou de uma versão anos 60 do Meia Noite em Paris - a ocasião de ver o gênio num raro momento de intimidade, comendo serenamente um ovo cozido, na maciez terrível daquela noite absoluta, enquanto o mundo parecia às vésperas do fim.

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