O Ovo da Serpente no caos

Trilogia absorve os relatos da decadência expressos, por exemplo, em Nietzsche

O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h09

KATHRIN ROSENFIELD

É empreitada de fôlego e uma dádiva para o público o lançamento de Os Sonâmbulos, de Hermann Broch (1931), com a fluida e ágil tradução de Marcelo Backes, que enfrentou com sucesso os desafios estilísticos dos três volumes. A trilogia deveria despertar o interesse do público da era da globalização. Um século após o período no qual Broch ambienta seu romance, ainda é oportuno refletir sobre o ovo de serpente que envenenou a pacata cultura alemã. Cada volume oferece um glossário e posfácio esclarecendo como Broch absorveu e transformou a seu modo os relatos da decadência de Nietzsche, Oswald Spengler e Karl Kraus, de Kafka e Musil. Como em Manhattan Transfer, de John Dos Passos (1925), os destinos de um aristocrata e de um proletário, de um industrial e de um crápula bom burguês se cruzam e se entrelaçam no ritmo dos acasos que se precipitam para o caos do último volume, ambientado no fim da 1.ª Guerra Mundial: eis o desajeitado despertar da velha Europa para a complexidade da vida moderna que iria desafiar e derrotar as gerações seguintes. Seria exagerado dizer que ainda sentimos a crise de valores que assolava, como um pesadelo, as existências dos personagens da trilogia de Broch no período crucial entre 1888 e 1918?

A 1.ª Guerra não solucionou, apenas acirrou e relançou as antigas crises de identidade religiosas, étnicas e nacionais da Europa. Isso preparou o terreno para o uso mefistofélico dos antigos valores culturais, das hierarquias sociais e dos símbolos religiosos. Broch analisou como a banalização de costumes, rituais e símbolos preparou o terreno para as armadilhas ideológicas, engodos e simulacros do entre guerras. Retratou a face fraudulenta e cotidiana do fim do humanismo, a deriva sonâmbula da razão e do esclarecimento instrumentalizados por forças irracionais. No primeiro volume, Pasenow ou o Romantismo /1888, prevalece ainda o tom melancólico e a ambiguidade onírica do romantismo exposto à prosa do mundo. Pasenow, descendente da aristocracia rural prussiana, procura manter a postura e salvar seus ideais de pureza ética, estética e erótica. Seu refúgio é a farda militar, cuja correção e decência o salvam temporariamente dos fantasmas labirínticos, atraído pelas sombras da amante sensual e da esposa virginal, oscilando entre o rígido mundo paterno e o de Bertrand, o industrial esteta e homossexual. Este último é o emblema temido do mundo moderno e liberal, que ameaça os ideais envelhecidos. Mas ele é também o objeto do desejo reprimido de Pasenow e de sua noiva.

A mesma errância repete-se, em estilo pequeno-burguês, no segundo volume, Esch ou a Anarquia 1903, ambientado no centro industrial do Reno. Agora, uma artista de circo faz o papel de Dulcineia, mas o sonho de pureza não impede Esch de satisfazer suas fantasias sexuais com Erna e sua nostalgia de decência e estabilidade com uma sóbria viúva. Impulsos repentinos irrompem, dilapidando novamente a breve estabilidade financeira do contador demitido, que dissipa as posses da esposa com a mesma aleatoriedade com que dá vazão aos seus pendores eróticos e religiosos. Inconsciente de si e do mundo, ele passa do conservadorismo à luta sindical, da compenetração religiosa ao voyeurismo (quando promove lutas de boxe feminino). A cultura resume-se para ele num bibelô da estátua de Schiller e ele sonha em alinhá-la com a Torre Eiffel e a Estátua de Liberdade - em forma de souvenires, já que sua perspectiva diminuta o impede de captar as dimensões da tecnologia moderna e da convivência emancipada nas metrópoles democráticas. Esch seria um personagem burlesco, não houvesse no fundo de sua flexibilidade a rigidez pétrea que o levam, por exemplo, a denunciar a homossexualidade de Bertrand, que será empurrado para o suicídio.

Huguenau ou a Objetividade 1918 é bem mais que a história do oportunista inescrupuloso, desertor, assassino, fraudador e chantagista, crápula bem-sucedido que se instala no conforto do bom burguês respeitado e próspero de sua cidade na Alsácia. É um retrato da cultura europeia transformada em "pilha de imagens rotas", terra devastada pela 1.ª Guerra Mundial. A ruína é tangível na cacofonia de estilos (da carta comercial à elevação mística e de volta aos lugares comuns do Exército de Salvação). O cinismo indiferente e tranquilo é a flor que brota dos escombros éticos, estéticos e humanos da cultura humanística. Sua dureza tem uma única falha: as saudades de um Führer, que Broch imagina como um "portador da salvação que perambula na roupa mais modesta e talvez seja o passante que exatamente agora atravessa a rua". Uma antecipação do nazismo e do mal radical dos Gulags e campos de concentração. Os meses que Broch ficou preso após o Anschluss vão fortalecer a ideia da inevitável "traição" da vida pela cultura. Ela toma forma no livro A Morte de Virgílio, espécie de elegia do poeta (Virgílio-Broch), cujo último desejo é destruir a própria obra: sinal do dilema da assimilação que se manifesta também na aura internacional - mais berlinense que vienense de Broch. Quem não soubesse que Broch é um judeu vienense convertido ao catolicismo talvez não o associasse a Hofmannsthal, Schnitzler e Musil.

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