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O outro Lula

Charmoso, culto, Luiz Carlos Maciel fez TV, teatro, ajudou a fundar o ‘Pasquim’ e, não bastasse, era um gato

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2022 | 03h00

O que dizer de um gaúcho nascido no mesmo ano em que o químico Albert Hofmann “sintetizou” o ácido lisérgico e ganhou o nome de Luiz Carlos em homenagem a Prestes? 

“Você é um predestinado, Maciel”, disse-lhe uma vez, ao sabor de uma conversa sobre a caretice dos comunistas da velha-guarda. Criado num lar comuna, sem jamais deixar de remar pela esquerda, diversas vezes chamou-a às falas, entre outros motivos por sua preconceituosa visão sobre o consumo de drogas. 

Era um libertário no sentido mais puro da palavra, não na acepção deletéria, individualoide, que lhe sobrepôs a direita americana. Justamente por seu olhar crítico sobre a esquerda, seus argumentos se tornaram mais complexos e fortes, salienta Caetano Veloso na apresentação de Underground, coletânea organizada por Claudio Leal, jovem jornalista cultural de primeira linha, ativo na imprensa paulistana e baiano de nascença.

Por algum tempo, desde nossa aproximação, via Glauber Rocha, pensei que “Lula” (era assim que Glauber chamava Maciel) fosse baiano. Passara quatro anos em Salvador, estudando e praticando teatro com Martim Gonçalves e uma privilegiada trupe de atores e futuros diretores, experiência que, somada ao que aprendera graças a uma bolsa em Nova York, o levou a uma fecunda associação com Zé Celso Martinez Corrêa, no Oficina. Foi Maciel quem sugeriu a Zé Celso encenar O Rei da Vela, montagem a cuja exuberância criativa só o Glauber de Terra em Transe fez sombra na época. 

Charmoso, culto e antenadíssimo, ao contrário de outros meros professores de filosofia, vivos e mortos, Maciel (1938-2017) jamais se identificou como “filósofo”, embora não faltasse quem assim o considerasse. Glauber, por exemplo, e a legião de discípulos que avidamente consumia suas reflexões no semanário Pasquim, que ajudou a fundar e no qual manteve, por mais de três anos, a mais influente página sobre a contracultura da imprensa brasileira, origem de sua fama como guru de nossa marginália cultural. 

Foi Caetano quem melhor o definiu: “Um autor docemente desaforado”, que defendia teses irracionalistas num estilo “calmamente lógico” – e por isso, acrescento eu, desconcertante. Até Paulo Francis, que o respeitava à beça, se deixou desconcertar por ele. 

Discorria e escrevia sobre filosofia como quem descasca uma banana. De formação existencialista, traçou e nos ajudou a digerir Sartre e Heidegger (tema de seu primeiro livro) e a muita gente introduziu e explicou Reich, Marcuse, Norman O. Brown, Allan Watts e outros faróis contraculturais. 

Fez teatro, TV, viveu intensamente os bastidores da Tropicália e do Cinema Novo, deu aula de dramaturgia, lançou publicações mais e menos alternativas (entre as quais a edição brasileira da revista Rolling Stone, em 1972). 

Não bastasse, era um gato.

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