O outro lado dos grandes autores

Com 3 mil capas diferentes, chega às livrarias nova edição das entrevistas antológicas feitas pela Paris Review

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2011 | 00h00

Criada em 1953, a revista literária norte-americana Paris Review logo virou uma publicação respeitada, revelando naquela época os primeiros autores da geração beat, entre eles Jack Kerouac. Em 1988, dois anos depois de sua fundação, a editora Companhia das Letras lançou o primeiro volume das antológicas entrevistas feitas pela revista com grandes escritores, pedindo a dois artistas, Clóvis França e Marco Mariutti, que criassem diferentes capas para o livro em cima do projeto gráfico de João Baptista Costa Aguiar - e eles desenharam 3 mil delas. Com nova tradução (de Christian Schwartz e Sérgio Alcides), o volume, trazendo 14 entrevistados, já está nas livrarias, também com capas personalizadas - 3 mil trabalhos diferentes, programados pela jovem designer mineira Flávia Castanheira, homenagem em cores vivas às tramas geométricas do pintor irlandês Sean Scully.

A primeira das entrevistas do livro traz o cético William Faulkner (1897-1962) um ano antes de publicar o segundo volume da trilogia sobre os Snopes, A Cidade (1957). Avesso a conversas com a imprensa, ele chega a ser ríspido com sua entrevistadora, respondendo sem entusiasmo às perguntas pessoais - como a sua relação familiar com os textos bíblicos. É certo que as perguntas dos jornalistas, nos anos 1950, não chegavam à indiscrição da era Big Brother. Quais são as idiossincrasias de Truman Capote (1924-1984) é o máximo a que se atreve a perguntar sua entrevistadora, em 1957, ano em que o futuro autor de A Sangue Frio escreveu o histórico perfil de Marlon Brando (1924-2004) para a revista New Yorker. A propósito: ele responde que não tolera rosas amarelas e não viajaria num avião com duas freiras.

Hemingway (1899-1961) consegue ser ainda mais agressivo que Faulkner com seu entrevistador. Em sua entrevista, de 1958, justifica suas respostas "velhas e batidas" em função das perguntas feitas a ele, que conduzem a clichês surrados. A conversa só toma outro rumo quando se discute a influência política de seu amigo e poeta Ezra Pound, simpatizante do fascismo, sobre o segregacionista John Kasper (1929-1998), militante de extrema direita que se opôs aos direitos dos negros. Bem editado, o livro traz a seguir uma entrevista com o francês Louis-Ferdinand Céline (1894- 1961), publicada três anos após sua morte. Como se sabe, Céline também defendia ideias fascistas e antissemitas, sendo obrigado a fugir para a Dinamarca após a liberação da França, para onde voltou após ter sua sentença revogada. Céline comenta de passagem o episódio, mas diz que não se interessava nem um pouco por seus contemporâneos.

Publicadas em ordem cronológica, as entrevistas cobrem as décadas de 1960 (Jorge Luis Borges), 1970 (W.H. Auden), 1980 (Doris Lessing, Manuel Puig) e 1990 (Amós Oz). O século 21 está bem representado por escritores como o inglês Ian McEwan, o norte-americano Paul Auster e Javier Marías, hoje o principal autor espanhol.

A entrevista mais reveladora talvez seja a de Borges, que, em 1967, ano em que publicou O Livro dos Seres Imaginários, confessou ser "terrivelmente supersticioso", envergonhando-se de sua fixação em alguns números cuja ocorrência reiterada nos seus contos despertou a curiosidade do entrevistador. Em autodefesa, Borges diz que um autor não deve ser julgado por suas ideais ou opiniões políticas - três anos depois ele apoiaria a junta militar argentina. Segundo Borges, um autor deve ser julgado "pelo prazer que proporciona e pela emoção que se tem com ele".

De todos os entrevistados, o único não literato, Billy Wilder (1906-2002), fez uma carreira brilhante no cinema, aparecendo no livro na condição de roteirista. Ele assinou o roteiro de Quanto Mais Quente Melhor, que também dirigiu, e é sobre o filme a melhor resposta da entrevista. Wilder diz que teve a ideia do epílogo do filme - em que Joe Brown descobre que Jack Lemmon é um homem - quando ouviu a frase "ninguém é perfeito" no estúdio. Um acaso que virou histórico.

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