Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

O outro lado de Elton

Biógrafo analisa a obra do cantor, convidado do Rock in Rio, e diz que ele já foi sério

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Elton John é um ídolo pop quase desconhecido do grande público. É esse paradoxo que tenta explicar o professor do Departamento de Estudos Americanos da Universidade de Munique, o inglês David Buckley, de 45 anos, em Elton John - A Biografia (tradução de Catharina Pinheiro). Sem ter conhecido pessoalmente o cantor e compositor mais popular da Inglaterra, com mais de 200 milhões de discos vendidos, Buckley leu tudo o que conseguiu sobre ele, ouviu com cuidado todos os seus discos, mas o resultado é um livro um tanto incompleto sobre os conflitos de personalidade de Reginald Kenneth Dwight, nascido em 1947 e rebatizado como Elton John em 1972, mesmo ano em que David Bowie anunciou para a revista Melody Maker que era gay sem ser e Elton, morando com seu empresário e parceiro John Reid, fingiu ser heterossexual.

Como toda biografia não autorizada, a de Buckley carece de maiores explicações para fatos como esse. Por que, afinal, Elton John ficou na moita e não se importou quando, na época, o coro de torcedores do time adversário do Watford começou a cantar em uníssono, parodiando o Messias, de Haendel: "Elton John"s homosexual" (Elton é homossexual)? Afinal, ele era o principal patrocinador do Watford F.C. e até convidou o parceiro Reid para fazer parte da banca de diretores do clube.

A discussão sobre a sexualidade de Elton parece impertinente depois que o cantor casou oficialmente com David Furnish em 2005 e assumiu o papel de pai (biológico) do bebê Zachary Jackson em janeiro último, mas, nos anos 1970, quando começou sua carreira, tal polêmica teria promovido outra leitura da proposta musical do compositor, menos superficial do que imaginavam os fãs. Buckley se encarrega da missão 41 anos depois do lançamento do segundo LP do cantor (Elton John, 1970). Ninguém imaginava que as letras de Bernie Taupin traziam mensagens cifradas ou que os arranjos de Paul Buckmaster faziam referências a compositores eruditos como o polonês Penderecki (no prelúdio de Sixty Years On), mas o fato é que Your Song não é nada inocente ou mesmo endereçada a uma garota.

O que o livro de Buckley tem de melhor é a análise da obra musical do ídolo. Buckley mostra que a derrocada artística de Elton John está estreitamente vinculada à transformação do compositor no fútil e consumista personagem que criou para driblar sua timidez - o que inclui principalmente o consumo de toneladas de cocaína e litros de álcool. Quem ouve álbuns conceituais como Tumbleweed Connection (1970) ou Madman Across the Water (1971) não aceita que ele seja o mesmo compositor de Don"t Go Breaking My Heart (1976). Houve uma involução musical na carreira do cantor e Buckley deixa isso claro, destacando sua passagem pela Royal Academy of Music (ao lado de Buckmaster e Michael Nyman) como prova de uma formação musical sólida.

O biógrafo trata, portanto, melhor o período inicial de Elton John, que não acompanhou por ser, na época, uma criança (ele tinha 4 anos quando o cantor gravou seu primeiro LP, Empty Sky, em 1969). Para isso, ele recorre aos arranjos sinfônicos de Paul Buckmaster e às letras ambiciosas de Bernie Taupin dos anos 1970, que falavam tanto do genocídio indígena no Velho Oeste americano (Indian Sunset) como dos confederados (My Father"s Gun) e veteranos de guerra (Talking Old Soldiers) no incomparável Tumbleweed Connection, seu terceiro LP e talvez o melhor trabalho de Elton John. Havia sinceridade, talento, emoção e, principalmente, vontade de tratar de temas contemporâneos sem a preocupação de conquistar um público de adolescentes impressionáveis - e isso durou mais ou menos até 1973, ano de Don"t Shoot Me I"m Only the Piano Player. Uma faixa desse disco, I"m Going to Be a Teenage Idol, já anunciava ao que tinha vindo Reginald Dwight: queria ganhar muito dinheiro, desbancar David Bowie e comprar roupas e óculos extravagantes.

Buckley garante que Elton não fazia o tipo transgressor quando começou. Vestia-se como um teddy boy, não fazia sexo (nem com meninas nem meninos) até os 23 anos, era gordinho e "tinha um complexo de inferioridade terrível", o que não impediu que virasse o crooner da banda Bluesology. Esta não decolou e o arrastou para a primeira das crises depressivas - e a uma tentativa de suicídio aos 21 anos, tentando inalar gás dentro do forno com a cabeça confortavelmente instalada no travesseiro. Nada parecido com Sylvia Plath, portanto, como lembra com ironia seu biógrafo.

Buckley tem humor, é culto e autoconfiante o suficiente para garantir que parte do êxito da primeira temporada americana de Elton se deve à familiaridade que seu parceiro Bernie Taupin tinha com o universo cultural dos EUA - e as letras de Tumbeweed Connection e Goodbye Yellow Brick Road dizem respeito quase que exclusivamente à história americana, e não à tradição inglesa. Sempre que Taupin se referiu a ela, como em Val-Hala, a faixa com cravo elisabetano de Empty Sky, foi um fiasco. Elton sobrevivia na época imitando de Mungo Jerry a Cat Stevens no Top of the Pops, programa da BBC que, desde 1964, divulgava os maiores êxitos da semana.

A história, de lá para cá, é mais ou menos conhecida. Elton lotou estádios, chegou a ser preso por porte de cocaína, gastou fortunas em roupas e obras de arte (deu um Rembrandt de presente para Rod Stewart) e só foi acordar em 1990, com a morte do garoto Ryan White, de aids. Ele se deu conta do estilo de vida que vinha levando. Largou as drogas, criou uma instituição para ajudar portadores do vírus e abriu o cofre. Foi aí que nasceu O Rei Leão e cresceu o seu apetite pelo kitsch desse humanista generoso que um dia levou a música a sério.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.