Jonas Cunha/AE
Jonas Cunha/AE

O outro lado de Dercy

Minissérie de quatro capítulos deve quebrar preconceitos e revelar face mais careta da artista

ALLINE DAUROIZ, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h05

Dercy Gonçalves costumava dizer uma frase que mexia com seu brio e, hoje, acaba por resumir a proposta da minissérie de quatro capítulos Dercy de Verdade, prevista para ir ao ar na Globo no dia 10: "Eu posso ser escrachada, mas não sou bandalha". "Bandalha, para ela, era uma mulher de quinta, vulgar, uma prostituta. E ela não era isso mesmo, embora tenha levado esse estigma por muitos anos", explica a dramaturga Maria Adelaide Amaral, autora da minissérie baseada em seu livro Dercy de Cabo a Rabo. "Não queria que ela ficasse reduzida àquela velha que falava palavrão. Porque é essa a imagem que ficou pra muita gente. Só eu sei quanto preconceito essa mulher sofreu até depois de morrer."

O preconceito a que Maria Adelaide se refere, e a minissérie pretende reverter, foi medido pela própria autora e pela atriz Fafy Siqueira, quando elas tentavam levantar patrocínio para a peça Dercy por Fafy. Ideia de Dercy, a peça contaria a história da artista e seria encenada por Fafy, com texto de Adelaide e direção de Marília Pêra, mas não saiu do papel por falta de verba.

"Foram três anos de busca (de 2007 a 2010), mas ninguém quis dar dinheiro. As empresas diziam: 'Não queremos nosso nome ligado à Dercy Gonçalves. Ela fala muito palavrão'", lembra Fafy. Agora, enfim, a atriz de 57 anos viverá Dercy, dos 70 aos 101 anos, na minissérie.

Para Fafy, o preconceito que Dercy sofria desde o início da carreira se estende até hoje a todas as humoristas. "A mulher no humor sempre foi escada para o homem, a chacota, a feia, a piranha, a loira burra, a sapatão. E, hoje, são poucas as que têm oportunidade na TV", desabafa a atriz. "Na MTV, é um bando de homem e a Dani Calabresa (e a Tatá Werneck). No CQC, só a Mônica Iozzi. No Pânico, um monte de gostosas. No fim, é a Globo que dá mais espaço: foi ela que apostou na Regina Casé, na Cláudia Gimenez, na Heloísa Périssé, na Ingrid Guimarães, na Cláudia Rodrigues, na Fernanda Torres e em tantas outras."

E se é a Dercy artista, desbocada e debochada que ficou no imaginário popular, o público agora vai conhecer a Dercy pudica, careta e rígida na educação da única filha, Dercimar (que na trama será vivida por Samara Felippo).

"Dercy se surpreendeu em 1994 com a maneira digna com que a biografei. Mas eu a apresentei como eu a via. Ela foi uma das pessoas mais dignas que já conheci. Tinha um brio, um orgulho, uma integridade. É isso que quero mostrar para o Brasil."

Entre as faces desconhecidas da artista, Maria Adelaide lembra quando ela telefonou para questionar por que a autora havia se separado do marido. "Fiquei até brava com ela, porque ela falou: 'Separou por quê? Vai começar a dar?'", lembra Adelaide. "Ela zelava pelo casamento de todos, porque achava que mais importante do que o amor era a manutenção da família."

Na minissérie, a autora diz que vai mostrar a luta de Dercy para manter a filha longe da imagem negativa que carregava.

"Ela fez de tudo para que a filha não fosse apontada na rua, fosse uma mulher educada e casasse virgem. Aguentou o Diabo com o marido (Danilo Bastos que, na trama, mudou de nome para Augusto Duarte, vivido por Tuca Andrada) só para que Dercimar tivesse alguém que a conduzisse ao altar."

Longe de ser a mulher fogosa que interpretou muitas vezes no teatro e no cinema, Dercy quase nada falava de sexo e dizia não ser muito afeita à intimidade. Mas, talvez, essa não seja sua característica mais contraditória.

Para Maria Adelaide, a artista era "a pessoa mais triste que ela já conheceu". "Ela era solitária - não ficava sozinha, mas era só. Estou acostumada a lidar com personagens assim. Escrevi peças sobre Chiquinha Gonzaga e Coco Chanel. Elas são semelhantes. Pertencem à linhagem de mulheres transgressoras que tiveram de se fazer por si mesmas e lutar pelas conquistas, cada uma delas. Mulheres sofridas e discriminadas."

Sem censura. Dirigida por Jorge Fernando - que comandou Dercy nas novelas Que Rei Sou Eu? e Deus nos Acuda -, a minissérie contará a vida da artista, desde a infância, quando, ainda Dolores, foi abandonada aos 5 anos pela mãe e era espancada pelo pai. Nessa fase, a menina será interpretada por Luisa Périssé, de 12 anos, filha de Heloísa Périssé, que vive a Dery dos 17 aos 60.

"Quando soube que a Fafy faria uma peça sobre a Dercy, sugeri um outro projeto a ela e a Adelaide. E foi disso que nasceu a minissérie", lembra Heloísa. "Sempre tive o sonho de interpretar um personagem real", diz a atriz, conhecida na TV por seus personagens cômicos.

Para interpretar seu primeiro papel dramático, Heloísa disse ter contado com um elemento fundamental na comédia: a verdade. "Pensar naquela mulher sozinha com a filha sofrendo tudo o que ela sofreu me deu uma tristeza tão imensa que chorei de verdade nas cenas."

Na trama, também vão aparecer personalidades importantes na carreira de Dercy. Ficam de fora Hebe Camargo e Silvio Santos, mas ganham representação Boni (vivido por Bruno, filho caçula do empresário), Oscarito (interpretado por Carlos Loffler, neto do ator), Chico Anysio (vivido pelo filho do humorista, Nizo Netto), entre outras figuras famosas.

Permitido pela classificação indicativa do horário (após o Big Brother), o palavrão também está liberado. "Foi o palavrão que me uniu a Dercy", lembra a autora. "Nós nos conhecemos em 1993 na casa de Homero Kossak e logo ela falou: 'Você fala palavrão direitinho. Deve ter começado criança. Para quem sabe falar palavrão, ele é um som, quase uma pontuação e não uma ofensa'." Adelaide conta ainda que, dez minutos de conversa depois, Dercy a convidou para escrever sua biografia, "porque era intelectual, mas não metida a besta". "Por isso, achei indispensável o palavrão. E que hipocrisia é essa de dizer que as pessoas não falam palavrão?"

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