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O outro lado da moeda

Boquiaberto, via meu pai derreter libras esterlinas para obturar meus dentes

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2016 | 03h00

Como esquecer do rosto do rei George VI da Grã-Bretanha se desfazendo sob um maçarico? Ou seria outro soberano inglês, quem sabe a Elizabeth II, filha dele, que àquela altura mal esquentara o trono? Pouco importa. Em segundos, sob meu olhar pasmado, a efígie dourada se decompunha, convertida em grossa gota rubra a tremelicar numa tigelinha de cerâmica.

Quem disparava o jato flamejante não era algum inimigo da monarquia britânica, era meu pai, cirurgião dentista que rimava com artista, empenhado em derreter 1 libra esterlina, para com seu ouro obturar um de meus molares de adolescente. Dava dó o sacrifício de moeda tão bela e valiosa, porém mais tarde descobri compensação: pela vida afora, vi mais de um colega do Dr. Hugo boquiabrir-se, que nem seus pacientes, ante a perfeição das peças metálicas por ele esculturadas, joias que as ambições estéticas da odontologia haveriam de proscrever, em favor de plebeias e menos duradouras restaurações em resina, cerâmica ou porcelana.

Estávamos longe deste tempo em que a recomposição dos nossos dentes já não depende apenas do dentista – do odontólogo, preferem alguns –, mas também de laboratórios incumbidos de executar as peças por eles rascunhadas. Voltei a me dar conta disso na manhã de hoje, ao receber a má notícia de que, já em ritmo de final de ano, os laboratórios começam a botar o pé no freio, o que remeterá para janeiro (se houver...) uma obra de reconstrução dentária da qual não escaparei.

Não vou dizer que nesse departamento o tempo passado foi melhor, como no poema de Jorge Manrique; venho da época em que os adolescentes, além de espinhas, tinham profusão de cáries. Mas não há como não sentir, também nesse particular, saudade da autossuficiência do Dr. Hugo Werneck, capaz de tocar ele mesmo todo o tratamento, inclusive no fascinante, faiscante capítulo das moedas de ouro que seu maçarico liquefazia para transformar em obturações vitalícias.

A matéria-prima era encomendada a casas especializadas, quase sempre a Dental Santiago, em cujo balcão por algum tempo atendeu um moço de óculos dado às letras, filho do proprietário, futuro escritor conhecido e reconhecido, de nome Silviano Santiago. O metal vinha sob a forma de lâminas, mas não era raro o Dr. Hugo pedir ao irmão Jayme que lhe trouxesse da Europa umas libras esterlinas, pois a liga usada na feitura daquelas moedas tinha a composição ideal para reparos em nossas mandíbulas.

De tanto ver meu pai nessa função, gravei cada passo do processo, da moldagem em cera azul na cavidade dentária ao polimento final da peça, realizado com motor de baixa rotação, com o cuidado de aparar numa bandeja de cristal o pó de ouro. (Um ladrão, certa noite, levou 9 frascos cheios daquela limalha dourada.)

O momento mais emocionante, para mim, era aquele em que uma centrífuga precipitava o metal derretido em direção a um pequeno tubo de aço cheio de gesso, em cujo interior a passagem por um forno fizera evaporar o molde em cera, deixando em seu lugar o vazio que o ouro líquido iria preencher.

Assisti àquela cena em ocasiões muitíssimo mais numerosas do que as minhas cáries, afinal nem tantas. O consultório do meu pai (ele preferia o termo antigo, gabinete) era também um desterro pedagógico a que volta e meia eram submetidos os filhos que tirassem notas baixas no colégio. Para mim, em mais de um sentido, era encarar o outro lado da moeda. Não creio que algum de meus 9 irmãos tenha sido condenado a estudar no consultório mais vezes do que eu, protagonista de 3 reprovações de ano e incontáveis segundas épocas.

Não aprendi grande coisa de matemática, ou de qualquer outra matéria do colégio, e eram 11, nas inacabáveis horas que vi pingarem na mesma bancada de marmorite da saleta onde meu pai derretia reis da Grã-Bretanha. Ficava num dos dois conjuntos de salas que ele teve no 6.º andar do Edifício Bom Destino, no centro de Belo Horizonte, a partir de 1958, e onde passou 35 dos 54 anos em que esteve no batente.

No caldeirão fervente da adolescência, eu tinha, mais que cáries, carências, tão imperiosas que, meio corpo e alma inteira para fora do janelão sobre o abismo da Rua Goitacazes, nem sei como não fiz besteira irremediável. Posso ter sido salvo, de tabela, por Santa Apolônia, padroeira dos dentistas e, por ter perdido os seus na mão de algozes, também dos que sofrem dor de dente. Da moldura, ela me espiava com um olhar compassivo que não combinava com o assustador alicate nas mãos.

Houve um fim de tarde em que, da rua, vi meu pai transpor, com suas pernas de campeão de basquete, de paletó e gravata e pasta na mão, a janela na qual eu pendurava minhas agonias, e, lentamente, baixar pela escada dos bombeiros, pondo-se a salvo do que ameaçava ser um grande incêndio, não sem a ajuda, creditemos, da prestimosa Santa Apolônia.

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