O outro lado da experiência sinistra de um sobrevivente

Narrativa engenhosa e com doses certas de humor fala de nazismo, que o autor enfrentou de forma anticonvencional

VINICIUS JATOBÁ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2013 | 02h08

A recente explosão editorial de Hans Keilson - dezenas de traduções, críticas laudatórias e entusiastas - é uma perfeita história de amor: um tradutor inglês encontra em um sebo um livro puído e todo rabiscado e se apaixona pela impressão imediata de que está diante de uma obra-prima. Isso acontece raramente, estar diante de uma obra-prima. Mas a sensação é forte e logo se torna uma obsessão. O livro: Comédia em Tom Menor. Damion Searls estava certo: ágil, irônica, inteligente, a história do casal holandês Wim e Marie, que pratica um ato de coragem sem medir as consequências, é uma pérola literária. Durante a ocupação dos Países Baixos na 2.ª Guerra, eles decidem se lançar em um ato de nobreza: abrigarem um judeu clandestino, o histriônico caixeiro-viajante Nico. O casal logo descobre que a generosidade demanda engenho, e, numa sinistra virada cômica, Keilson revela o que há de vicioso e vaidoso para além da mão que oferece acolhida. Comédia em tom menor é imperdível.

Chega agora às livrarias outro romance de Hans Keilson: A Morte do Inimigo. É completamente diferente de tom, apesar de investir também em uma narrativa engenhosa: ao estabelecer logo no início que aquilo que será lido é um manuscrito confiado a um advogado holandês antes que o autor fosse engolido pelo nazismo, Keilson estabelece um universo em que o narrador ainda não sabe a proporção violenta que essa situação política ocuparia na Europa. Ele entende isso ao longo da trama, e esse é o elemento mais original do romance: encena um relato de fascínio tanto do narrador judeu em relação ao líder B (inspirado em Hitler), como da população da pequena cidade em que vive pelas ideias desse homem. É um relato acerca de outra guerra, fundamental: de como no coração das pessoas o mal vai crescendo, até que se lança ao mundo violentamente.

O sentimento antissemita aumenta de um preconceito até um implacável desejo de aniquilamento, e a narrativa acompanha esse trajeto: do judeu como um problema cotidiano à certeza compartilhada de que ele deve ser assassinado.

Há apenas mais um livro inédito de Hans Keilson. Seus livros espelham sua vida - Keilson deve sua sobrevivência a um casal holandês que o abrigou por mais de um ano, como o narrador de A Morte do Inimigo foi complacente com o antissemitismo até que a morte de seus pais lhe acordou para a realidade -, mas seus dois romances estão à parte da biblioteca do Holocausto. Há neles um humor surpreendente, indireto e alusivo, buscando um outro lado dessa experiência sinistra de sobrevivente. O lado da esperança, da crença ingênua no outro, e, por isso, quando os golpes são desferidos, os laços desfeitos, o gosto na boca do leitor é mais amargo: pois ele sabe que a História vai atropelá-los e expô-los como troféu ao mundo.

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