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O outro lado

Há sinais de que ativistas estão usando o campus como campo de batalha

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2017 | 02h00

Se há um campus universitário que representa independência e rebeldia nos Estados Unidos é o de Berkeley, no norte da Califórnia. Mas Berkeley está pegando fogo e não é para defender a liberdade de expressão. Esta semana, Ann Coulter, uma provocadora de direita, convidada pelo diretório de estudantes republicanos, promete fazer uma palestra no campus. O convite tinha sido cancelado pela direção da escola por temor de se repetirem as cenas de violência de fevereiro, quando o extremista de direita Milos Yannopolous foi convidado para falar e recebido por um pequeno exército de ativistas de esquerda vestidos de preto, mascarados e armados de bastões.

Trata-se do mesmo campus onde nasceu, em 1964, o Movimento pela Livre Expressão, um marco do ativismo político no século 20. No último dia 15 de abril, eleitores de Donald Trump apareceram num previamente anunciado “Dia do Patriota”, no parque próximo à prefeitura de Berkeley. Durante as primeiras horas, os trumpistas e um grupo adversário gritaram slogans, separados pela polícia. Mas, no começo da tarde a animosidade explodiu numa pancadaria que só não fez mais vítimas além dos 11 feridos porque os policiais já haviam confiscado bastões, barras de ferro e facas. Uma repórter local, Frances Dinkelspiel, acredita que black blocs de esquerda começaram a violência e os manifestantes de direita revidaram à altura.

Há sinais de que ativistas de fora da universidade, que tem 36 mil alunos, estão usando o campus como campo de batalha. Dinkelspiel cobre manifestações em Berkeley desde 2009 e garante que nunca viu nada semelhante. Ela descreve os distúrbios deste ano como uma pequena guerra civil e não militância contra autoridades institucionais. São cidadãos lutando contra cidadãos, escreveu a jornalista.

A intolerância, é claro, precede a eleição de novembro, mas nenhuma corporação lucrou mais atiçando paixões da direita e patrulhando liberalismo do que a rede Fox de Rupert Murdoch. Ironicamente, ao posicionar a Fox como uma TV semi-estatal, Murdoch, que fala várias vezes por semana com o presidente, atraiu uma atenção que pode lhe custar caro. Na quarta-feira, foi convencido pelos dois filhos e herdeiros a demitir sua maior estrela, o âncora Bill O’Reilly, um porco assediador serial de funcionárias ao estilo do fundador e ex-presidente da Fox, Roger Ailes, demitido em julho passado.

Se Hillary Clinton fosse presidente, a Fox estaria tranquila, acusando a ex-Secretária de Estado de ser culpada de tudo, inclusive a Peste Negra do século 14. Mas se alinhar ao presidente mais impopular em início de mandato da história das pesquisas de opinião pode se revelar um mau negócio para o australiano que fez fortuna usando sua mídia para eleger e derrubar governos em três continentes.

Em mais um sintoma do momento político, o editor da seção de editoriais do Wall Street Journal, de Murdoch, a página de opinião mais conservadora entre os grandes jornais dos EUA, pulou este mês para o New York Times. Brett Stephens não revela, mas poucos duvidam do motivo: ele é um conservador extremamente crítico do atual presidente. O que Stephens talvez não esperasse foi a reação dos novos colegas. Trechos de suas antigas colunas no Journal foram postados pela redação num quadro. O chefe do bureau do Times em Beirute denunciou Stephens por ser anti-árabe no Twitter. Outros destacaram seu ceticismo sobre a gravidade das mudanças climáticas.

O centro continua a ser espremido pelos extremos. Roger Ailes, o homem que inventou a Fox, certa vez deu uma bronca numa jornalista e cobrou dela que fosse mais de direita no ar. Ela argumentou que era preciso dar voz ao outro lado de uma questão. “Não existe o outro lado,” ele respondeu. Agora, o outro lado parece concordar.

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