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O outro

Na prática, construir quem é o Outro implica, quase sempre, determinar quem merece ou não ser ajudado

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 03h00

Pai, mãe e filho entram no avião. Por algum motivo que desconheço, os três lugares da família estão nas poltronas B, no meio das outras. Estão separados. Talvez uma viagem de emergência, talvez uma falta de planejamento, não sabemos.

O pai pede à comissária que os reúna. Quase todas as pessoas que sentam junto à janela e ao corredor preferem tais lugares ao meio. A poltrona B, por exemplo, é pressionada de dois lados, não tendo a graça e o isolamento da janela nem a praticidade de ir ao banheiro ou sair do assento de corredor. A poltrona B é o patinho feio por excelência. Em um voo internacional longo, é ainda mais torturante. A família é toda B. Situação incômoda, mas o voo é de 40 minutos e, suponho, a unidade familiar deve sobreviver até o fim. O filho deve ter uns 16 anos, imagino até que estar em uma poltrona sem genitores deva conter alguma alegria passageira naquela faixa etária.

A trupe se faz notar pela insistência em voz crescente. O pai demanda lugares unidos. Ninguém deseja abandonar sua escolha. O pedido paterno é ignorado ou recusado por todos. O homem insiste e vai até as poltronas finais do avião. Lá encontra alguém que está bem situado no corredor, no entanto acredita vantajoso sair da 26C para avançar até 3B. Sentará no meio, porém sairá do avião antes do que previra. As tratativas são longas e a habilidade diplomática do patriarca não garantiria uma carreira sólida em meio a negociações internacionais. Por fim, atrasando a partida de todos, reorganizando alguns assentos e reclamando muito, a família pode estar lado a lado. O jovem mergulha no seu celular, o pai liga um filme no tablet com fones de ouvido e a jovem mãe afunda na revista de bordo e olha, solitária, pela janela tão arduamente conquistada. Estão, enfim, reunidos e podem viajar sem trocar uma única palavra até o final. 

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'Não sou solidário e cuido apenas de mim' é prática muito popular no Brasil
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A descoberta do outro é um desafio. O europeu médio tem grande habilidade em considerar que o problema do outro é dele. A expressão “o que eu tenho com isso?” pode ser traduzida pelo clássico francófono: “Je suis désolé” ou, nas Ilhas, por “I’m so sorry”. Ambas querem dizer: “Morra e não encha meu saco!”. É uma espécie de sentimento duplo e contraditório: não falo ao celular no trem porque atrapalha os outros e não colaboro com o que não seja estritamente minha obrigação. 

Temos um jogo distinto na média da cultura brasileira. Meu problema deve ser o de todos e, muitas vezes, consideramos obrigação ajudar estranhos. Muitos acham que é um dever moral a solidariedade ou a compreensão de necessidades específicas. Outro detalhe: em décadas de uso intenso de aviões e aeroportos, eu jamais vi alguém se enganar sobre a fila de embarque indo para a mais demorada. Sempre, sem exceção, alguém promove um upgrade pessoal e ilegal. Pasmem, queridas leitoras e caros leitores, na maioria absoluta das vezes o “engano” funciona. 

O Outro é um conceito de Antropologia, aquele que define a diferença, a relação de alteridade. Na prática, construir quem é o Outro implica, quase sempre, determinar quem merece ou não ser ajudado, quem pode ser alvo da nossa compaixão. Quase sempre nossa solidariedade é dada pela nossa identidade. Nesse campo, haveria três categorias: a) sou solidário com toda a espécie humana; b) sou solidário com quem está próximo de mim pela situação (mãe, pai, gestante, idoso, etc.) ou pelo grupo (outro evangélico, um militante de alguma causa, alguém com a mesma deficiência minha ou de alguém da família); c) não sou solidário e cuido apenas de mim. Os itens A e B são narcísicos, baseados na identidade de si projetada sobre o outro, ainda que o A tenha amplitude mais desejável. Santos e humanos notáveis são adeptos do item A, por vezes ampliado para todo ser vivo.

Curiosamente, adeptos dos itens A e B são um pouco mais invasivos e zelam para que a compaixão seja norma, mesmo que incomodando alguém da categoria C. A categoria C é vivida de forma mais velada no Brasil, entretanto é muito popular. Temos antipatia pelos seres voltados a si, ainda que difiram de nós em menos coisas do que gostaríamos. A vasta categoria C é pouco social, ainda que igualmente menos invasiva. Seu “viva e deixe viver” confunde liberdade com indiferença, autonomia com egoísmo. É muito complexo identificar os casos nos quais devemos deixar o Outro viver por si ou quando devemos ajudar ou até impor alguma medida de compaixão. Suspeito que todos nós que somos obrigados a fazer coisas para ir ao encontro das necessidades alheias temos uma secreta inveja dos habitantes do item C.

Em toda família existe o irmão que cuida mais dos pais idosos e aquele que vive sua vida sem se importar se falta algo material ou afetivamente. Entender a tensa relação entre o filho pródigo que se vai entregue ao seu egoísmo e aquele que fica dedicado à família é entender como funcionamos como espécie. O mais curioso é que Jesus, no texto de Lucas 15, defende o que se vai livre e volta arrependido e não parece simpático ao que fica imerso nas virtudes familiares e rancoroso com a liberdade do que partiu. É preciso ter esperança e pensar no grupo A, pelo menos de vez em quando. 

 

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