O Outro

Minha mulher não sabe pregar quadros na parede. Não consegue entender a técnica precisa para que um prego se fixe perpendicularmente numa parede de tijolos. Para ela, a Terceira Lei de Newton, o princípio da ação e reação (interação em forma de força que um corpo aplica sobre outro resulta numa força com mesma direção, intensidade e sentido oposto), não se aplica quando o corpo martelo interage com o corpo prego que ela segura.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2015 | 02h00

Como defendo que, num lar contemporâneo, as tarefas não devem ser divididas por gêneros (lavar louça, dar de mamar ao filho, fazer supermercado e consertos elétricos), sugeri dar um Google e aprender como se prega um prego. Não se falou mais nisso.

No dia seguinte, enquanto levava nosso filho para escola, ela viu parada num farol uma pequena van com o telefone de um serviço chamado Maridos de Aluguel. E anotou. Já tinha ouvido falar. Ligou na mesma tarde. Riu quando a atendente disse na maior naturalidade: “Maridos de aluguel, boa-tarde”.

Só na sexta-feira ela me anunciou que tinha agendado, e “seu” marido de aluguel viria sábado, às 10 h. Quem? Me explicou do que se tratava e perguntou se tudo bem começarem a martelar pela casa. Começarem, no plural?

Eu não podia insinuar nenhum sentimento de contrariedade, já que causara aquela traição. A ofensa foi trocada pelo incômodo de saber que eu seria acordado num sábado, justamente num sábado, pela presença de um desconhecido martelando pela casa, que poderia se gabar de ser mais atencioso com a minha mulher do que eu, o legítimo, segundo as leis do matrimônio. Se meu filho sorrisse pra ele, pegasse na sua mão e o levasse para ver seus brinquedos, como faz com todos que nos visitam, seria a humilhação completa, e só me restaria fazer as malas e ir embora como um marido ineficiente e incapaz, levando minha caixa de ferramentas. Ou lutar em defesa da minha família e arrancar aquele bárbaro invasor para fora.

Minha sorte é que sou gente boa com os porteiros. Sábado tocou o interfone, informando que eram proibidas reformas no prédio. Impediram a entrada do marido freelancer. Minha mulher ficou numa decepção, como a de uma mulher traída, que deu pena. Mas logo relaxou, quando foi avisada que o sujeito tinha a quarta-feira livre.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha. Queria ver onde aquilo ia dar. Queria ficar frente a frente com meu adversário. Se ele me olhasse com aquele ar “você não sabe o que tem em mãos, não valoriza, não é carinhoso...”, talvez eu o chamasse para um duelo. Mas pensei melhor. Usaria a técnica do falso corno manso. Violência só gera violência. Seduzirei o cara. Ficarei brother dele. Utilizarei todos os truques da confraria masculina de como conquistar uma nova amizade. O amante será meu melhor amigo. Iremos disputá-lo na quarta-feira.

Não chegou no horário marcado. Ha-ha-ha, me gabei. Mas, ao menos, ligou avisando antes que atrasaria. Que educado... Chegou, e meu filho já estava na escola. Um a zero. Não fui correndo atender. Fui blasé. Como se eu estivesse em casa.

Ouvi a barulheira sem sair do computador. Ouvi a voz da minha mulher levando-o pela casa, toda feliz. Quando decidi dar uma checada no meu inimigo, veja uma cena arrebatadora: ele furava a parede, com sua furadeira, ela limpava a sujeira com nosso aspirador. Para aumentar meu ódio, o cara me pergunta se eu tinha a ferramenta xis, que eu não sabia do que se tratava, e minha mulher me explicou com aquele ar de “perdão a ignorância dele”: a ferramenta que aperta a broca numa furadeira. Então o corno manso se pronunciou: “Usa a minha furadeira”.

O sujeito não estava de macacão jeans, sem camisa, com graxa e tinta nos braços, um martelo pendurado de um lado e uma enorme chave de fenda do outro. Mal assessorado, perdeu a chance de causar mais impacto com um figurino estiloso. Estava com uma camisa polo de listinhas. Bem cafona.

Foi com satisfação que só depois de uma hora minha mulher perguntou: “Como é mesmo seu nome?”. Mostrou um desprezo que me deixou apaixonado. E fez isso na minha frente. Eu sabia que ela me amava. Não tinha todas as ferramentas, e usou as minhas. Logo nos esquecemos de seu nome.

Mas minha humilhação voltou à tona quando perguntei se ele podia arrumar uma tomada minha. Perguntei para a minha mulher, afinal era dela o marido contratado por hora. Ela fez uma cara tipo vou pensar no assunto, me deu uma esnobada e, feliz da vida, ficou de ver se ele estaria disponível. Arrumou a minha tomada. Desisti de ser seu amigo.

Em vingança, tomei um banho e circulei pela casa enrolado numa toalha, exibindo meus braços torneados. Só faltou eu urinar pelos cantos, para demarcar território. Foram duas horas de disputa territorial. Completou o serviço. E a surpresa no final. Não aceitava cartões. Quem tinha cheque em casa? O corno manso fez um cheque. E não foi barato.

Ando pela cidade louco para encontrar uma van com os dizeres Esposa de Aluguel. Nestes tempos em que estamos, todos tão ocupados com nossas carreiras, terceirizar os papéis do casamento clássico é uma mina de ouro. Já bolaram um APP? “Ubernizaremos” as obrigações maritais.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha

SEGUNDA-FEIRA

LÚCIA GUIMARÃES

VANESSA BARBARA

TERÇA-FEIRA

HUMBERTO WERNECK

QUARTA-FEIRA

ROBERTO DAMATTA

QUINTA-FEIRA

LUIS FERNANDO

VERISSIMO

SEXTA-FEIRA

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

MILTON HATOUM

SÁBADO

MARCELO RUBENS PAIVA

SÉRGIO AUGUSTO

DOMINGO

VERISSIMO

FÁBIO PORCHAT

MARCELO

RUBENS PAIVA

Minha mulher não sabe pregar quadros na parede. Não consegue entender a técnica precisa para que um prego se fixe perpendicularmente numa parede de tijolos. Para ela, a Terceira Lei de Newton, o princípio da ação e reação (interação em forma de força que um corpo aplica sobre outro resulta numa força com mesma direção, intensidade e sentido oposto), não se aplica quando o corpo martelo interage com o corpo prego que ela segura.

Como defendo que, num lar contemporâneo, as tarefas não devem ser divididas por gêneros (lavar louça, dar de mamar ao filho, fazer supermercado e consertos elétricos), sugeri dar um Google e aprender como se prega um prego. Não se falou mais nisso.

No dia seguinte, enquanto levava nosso filho para escola, ela viu parada num farol uma pequena van com o telefone de um serviço chamado Maridos de Aluguel. E anotou. Já tinha ouvido falar. Ligou na mesma tarde. Riu quando a atendente disse na maior naturalidade: “Maridos de aluguel, boa-tarde”.

Só na sexta-feira ela me anunciou que tinha agendado, e “seu” marido de aluguel viria sábado, às 10 h. Quem? Me explicou do que se tratava e perguntou se tudo bem começarem a martelar pela casa. Começarem, no plural?

Eu não podia insinuar nenhum sentimento de contrariedade, já que causara aquela traição. A ofensa foi trocada pelo incômodo de saber que eu seria acordado num sábado, justamente num sábado, pela presença de um desconhecido martelando pela casa, que poderia se gabar de ser mais atencioso com a minha mulher do que eu, o legítimo, segundo as leis do matrimônio. Se meu filho sorrisse pra ele, pegasse na sua mão e o levasse para ver seus brinquedos, como faz com todos que nos visitam, seria a humilhação completa, e só me restaria fazer as malas e ir embora como um marido ineficiente e incapaz, levando minha caixa de ferramentas. Ou lutar em defesa da minha família e arrancar aquele bárbaro invasor para fora.

Minha sorte é que sou gente boa com os porteiros. Sábado tocou o interfone, informando que eram proibidas reformas no prédio. Impediram a entrada do marido freelancer. Minha mulher ficou numa decepção, como a de uma mulher traída, que deu pena. Mas logo relaxou, quando foi avisada que o sujeito tinha a quarta-feira livre.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha. Queria ver onde aquilo ia dar. Queria ficar frente a frente com meu adversário. Se ele me olhasse com aquele ar “você não sabe o que tem em mãos, não valoriza, não é carinhoso...”, talvez eu o chamasse para um duelo. Mas pensei melhor. Usaria a técnica do falso corno manso. Violência só gera violência. Seduzirei o cara. Ficarei brother dele. Utilizarei todos os truques da confraria masculina de como conquistar uma nova amizade. O amante será meu melhor amigo. Iremos disputá-lo na quarta-feira.

Não chegou no horário marcado. Ha-ha-ha, me gabei. Mas, ao menos, ligou avisando antes que atrasaria. Que educado... Chegou, e meu filho já estava na escola. Um a zero. Não fui correndo atender. Fui blasé. Como se eu estivesse em casa.

Ouvi a barulheira sem sair do computador. Ouvi a voz da minha mulher levando-o pela casa, toda feliz. Quando decidi dar uma checada no meu inimigo, veja uma cena arrebatadora: ele furava a parede, com sua furadeira, ela limpava a sujeira com nosso aspirador. Para aumentar meu ódio, o cara me pergunta se eu tinha a ferramenta xis, que eu não sabia do que se tratava, e minha mulher me explicou com aquele ar de “perdão a ignorância dele”: a ferramenta que aperta a broca numa furadeira. Então o corno manso se pronunciou: “Usa a minha furadeira”.

O sujeito não estava de macacão jeans, sem camisa, com graxa e tinta nos braços, um martelo pendurado de um lado e uma enorme chave de fenda do outro. Mal assessorado, perdeu a chance de causar mais impacto com um figurino estiloso. Estava com uma camisa polo de listinhas. Bem cafona.

Foi com satisfação que só depois de uma hora minha mulher perguntou: “Como é mesmo seu nome?”. Mostrou um desprezo que me deixou apaixonado. E fez isso na minha frente. Eu sabia que ela me amava. Não tinha todas as ferramentas, e usou as minhas. Logo nos esquecemos de seu nome.

Mas minha humilhação voltou à tona quando perguntei se ele podia arrumar uma tomada minha. Perguntei para a minha mulher, afinal era dela o marido contratado por hora. Ela fez uma cara tipo vou pensar no assunto, me deu uma esnobada e, feliz da vida, ficou de ver se ele estaria disponível. Arrumou a minha tomada. Desisti de ser seu amigo.

Em vingança, tomei um banho e circulei pela casa enrolado numa toalha, exibindo meus braços torneados. Só faltou eu urinar pelos cantos, para demarcar território. Foram duas horas de disputa territorial. Completou o serviço. E a surpresa no final. Não aceitava cartões. Quem tinha cheque em casa? O corno manso fez um cheque. E não foi barato.

Ando pela cidade louco para encontrar uma van com os dizeres Esposa de Aluguel. Nestes tempos em que estamos, todos tão ocupados com nossas carreiras, terceirizar os papéis do casamento clássico é uma mina de ouro. Já bolaram um APP? “Ubernizaremos” as obrigações maritais.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha

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Minha mulher não sabe pregar quadros na parede. Não consegue entender a técnica precisa para que um prego se fixe perpendicularmente numa parede de tijolos. Para ela, a Terceira Lei de Newton, o princípio da ação e reação (interação em forma de força que um corpo aplica sobre outro resulta numa força com mesma direção, intensidade e sentido oposto), não se aplica quando o corpo martelo interage com o corpo prego que ela segura.

Como defendo que, num lar contemporâneo, as tarefas não devem ser divididas por gêneros (lavar louça, dar de mamar ao filho, fazer supermercado e consertos elétricos), sugeri dar um Google e aprender como se prega um prego. Não se falou mais nisso.

No dia seguinte, enquanto levava nosso filho para escola, ela viu parada num farol uma pequena van com o telefone de um serviço chamado Maridos de Aluguel. E anotou. Já tinha ouvido falar. Ligou na mesma tarde. Riu quando a atendente disse na maior naturalidade: “Maridos de aluguel, boa-tarde”.

Só na sexta-feira ela me anunciou que tinha agendado, e “seu” marido de aluguel viria sábado, às 10 h. Quem? Me explicou do que se tratava e perguntou se tudo bem começarem a martelar pela casa. Começarem, no plural?

Eu não podia insinuar nenhum sentimento de contrariedade, já que causara aquela traição. A ofensa foi trocada pelo incômodo de saber que eu seria acordado num sábado, justamente num sábado, pela presença de um desconhecido martelando pela casa, que poderia se gabar de ser mais atencioso com a minha mulher do que eu, o legítimo, segundo as leis do matrimônio. Se meu filho sorrisse pra ele, pegasse na sua mão e o levasse para ver seus brinquedos, como faz com todos que nos visitam, seria a humilhação completa, e só me restaria fazer as malas e ir embora como um marido ineficiente e incapaz, levando minha caixa de ferramentas. Ou lutar em defesa da minha família e arrancar aquele bárbaro invasor para fora.

Minha sorte é que sou gente boa com os porteiros. Sábado tocou o interfone, informando que eram proibidas reformas no prédio. Impediram a entrada do marido freelancer. Minha mulher ficou numa decepção, como a de uma mulher traída, que deu pena. Mas logo relaxou, quando foi avisada que o sujeito tinha a quarta-feira livre.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha. Queria ver onde aquilo ia dar. Queria ficar frente a frente com meu adversário. Se ele me olhasse com aquele ar “você não sabe o que tem em mãos, não valoriza, não é carinhoso...”, talvez eu o chamasse para um duelo. Mas pensei melhor. Usaria a técnica do falso corno manso. Violência só gera violência. Seduzirei o cara. Ficarei brother dele. Utilizarei todos os truques da confraria masculina de como conquistar uma nova amizade. O amante será meu melhor amigo. Iremos disputá-lo na quarta-feira.

Não chegou no horário marcado. Ha-ha-ha, me gabei. Mas, ao menos, ligou avisando antes que atrasaria. Que educado... Chegou, e meu filho já estava na escola. Um a zero. Não fui correndo atender. Fui blasé. Como se eu estivesse em casa.

Ouvi a barulheira sem sair do computador. Ouvi a voz da minha mulher levando-o pela casa, toda feliz. Quando decidi dar uma checada no meu inimigo, veja uma cena arrebatadora: ele furava a parede, com sua furadeira, ela limpava a sujeira com nosso aspirador. Para aumentar meu ódio, o cara me pergunta se eu tinha a ferramenta xis, que eu não sabia do que se tratava, e minha mulher me explicou com aquele ar de “perdão a ignorância dele”: a ferramenta que aperta a broca numa furadeira. Então o corno manso se pronunciou: “Usa a minha furadeira”.

O sujeito não estava de macacão jeans, sem camisa, com graxa e tinta nos braços, um martelo pendurado de um lado e uma enorme chave de fenda do outro. Mal assessorado, perdeu a chance de causar mais impacto com um figurino estiloso. Estava com uma camisa polo de listinhas. Bem cafona.

Foi com satisfação que só depois de uma hora minha mulher perguntou: “Como é mesmo seu nome?”. Mostrou um desprezo que me deixou apaixonado. E fez isso na minha frente. Eu sabia que ela me amava. Não tinha todas as ferramentas, e usou as minhas. Logo nos esquecemos de seu nome.

Mas minha humilhação voltou à tona quando perguntei se ele podia arrumar uma tomada minha. Perguntei para a minha mulher, afinal era dela o marido contratado por hora. Ela fez uma cara tipo vou pensar no assunto, me deu uma esnobada e, feliz da vida, ficou de ver se ele estaria disponível. Arrumou a minha tomada. Desisti de ser seu amigo.

Em vingança, tomei um banho e circulei pela casa enrolado numa toalha, exibindo meus braços torneados. Só faltou eu urinar pelos cantos, para demarcar território. Foram duas horas de disputa territorial. Completou o serviço. E a surpresa no final. Não aceitava cartões. Quem tinha cheque em casa? O corno manso fez um cheque. E não foi barato.

Ando pela cidade louco para encontrar uma van com os dizeres Esposa de Aluguel. Nestes tempos em que estamos, todos tão ocupados com nossas carreiras, terceirizar os papéis do casamento clássico é uma mina de ouro. Já bolaram um APP? “Ubernizaremos” as obrigações maritais.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha

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SÉRGIO AUGUSTO

DOMINGO

VERISSIMO

FÁBIO PORCHAT

MARCELO

RUBENS PAIVA

Minha mulher não sabe pregar quadros na parede. Não consegue entender a técnica precisa para que um prego se fixe perpendicularmente numa parede de tijolos. Para ela, a Terceira Lei de Newton, o princípio da ação e reação (interação em forma de força que um corpo aplica sobre outro resulta numa força com mesma direção, intensidade e sentido oposto), não se aplica quando o corpo martelo interage com o corpo prego que ela segura.

Como defendo que, num lar contemporâneo, as tarefas não devem ser divididas por gêneros (lavar louça, dar de mamar ao filho, fazer supermercado e consertos elétricos), sugeri dar um Google e aprender como se prega um prego. Não se falou mais nisso.

No dia seguinte, enquanto levava nosso filho para escola, ela viu parada num farol uma pequena van com o telefone de um serviço chamado Maridos de Aluguel. E anotou. Já tinha ouvido falar. Ligou na mesma tarde. Riu quando a atendente disse na maior naturalidade: “Maridos de aluguel, boa-tarde”.

Só na sexta-feira ela me anunciou que tinha agendado, e “seu” marido de aluguel viria sábado, às 10 h. Quem? Me explicou do que se tratava e perguntou se tudo bem começarem a martelar pela casa. Começarem, no plural?

Eu não podia insinuar nenhum sentimento de contrariedade, já que causara aquela traição. A ofensa foi trocada pelo incômodo de saber que eu seria acordado num sábado, justamente num sábado, pela presença de um desconhecido martelando pela casa, que poderia se gabar de ser mais atencioso com a minha mulher do que eu, o legítimo, segundo as leis do matrimônio. Se meu filho sorrisse pra ele, pegasse na sua mão e o levasse para ver seus brinquedos, como faz com todos que nos visitam, seria a humilhação completa, e só me restaria fazer as malas e ir embora como um marido ineficiente e incapaz, levando minha caixa de ferramentas. Ou lutar em defesa da minha família e arrancar aquele bárbaro invasor para fora.

Minha sorte é que sou gente boa com os porteiros. Sábado tocou o interfone, informando que eram proibidas reformas no prédio. Impediram a entrada do marido freelancer. Minha mulher ficou numa decepção, como a de uma mulher traída, que deu pena. Mas logo relaxou, quando foi avisada que o sujeito tinha a quarta-feira livre.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha. Queria ver onde aquilo ia dar. Queria ficar frente a frente com meu adversário. Se ele me olhasse com aquele ar “você não sabe o que tem em mãos, não valoriza, não é carinhoso...”, talvez eu o chamasse para um duelo. Mas pensei melhor. Usaria a técnica do falso corno manso. Violência só gera violência. Seduzirei o cara. Ficarei brother dele. Utilizarei todos os truques da confraria masculina de como conquistar uma nova amizade. O amante será meu melhor amigo. Iremos disputá-lo na quarta-feira.

Não chegou no horário marcado. Ha-ha-ha, me gabei. Mas, ao menos, ligou avisando antes que atrasaria. Que educado... Chegou, e meu filho já estava na escola. Um a zero. Não fui correndo atender. Fui blasé. Como se eu estivesse em casa.

Ouvi a barulheira sem sair do computador. Ouvi a voz da minha mulher levando-o pela casa, toda feliz. Quando decidi dar uma checada no meu inimigo, veja uma cena arrebatadora: ele furava a parede, com sua furadeira, ela limpava a sujeira com nosso aspirador. Para aumentar meu ódio, o cara me pergunta se eu tinha a ferramenta xis, que eu não sabia do que se tratava, e minha mulher me explicou com aquele ar de “perdão a ignorância dele”: a ferramenta que aperta a broca numa furadeira. Então o corno manso se pronunciou: “Usa a minha furadeira”.

O sujeito não estava de macacão jeans, sem camisa, com graxa e tinta nos braços, um martelo pendurado de um lado e uma enorme chave de fenda do outro. Mal assessorado, perdeu a chance de causar mais impacto com um figurino estiloso. Estava com uma camisa polo de listinhas. Bem cafona.

Foi com satisfação que só depois de uma hora minha mulher perguntou: “Como é mesmo seu nome?”. Mostrou um desprezo que me deixou apaixonado. E fez isso na minha frente. Eu sabia que ela me amava. Não tinha todas as ferramentas, e usou as minhas. Logo nos esquecemos de seu nome.

Mas minha humilhação voltou à tona quando perguntei se ele podia arrumar uma tomada minha. Perguntei para a minha mulher, afinal era dela o marido contratado por hora. Ela fez uma cara tipo vou pensar no assunto, me deu uma esnobada e, feliz da vida, ficou de ver se ele estaria disponível. Arrumou a minha tomada. Desisti de ser seu amigo.

Em vingança, tomei um banho e circulei pela casa enrolado numa toalha, exibindo meus braços torneados. Só faltou eu urinar pelos cantos, para demarcar território. Foram duas horas de disputa territorial. Completou o serviço. E a surpresa no final. Não aceitava cartões. Quem tinha cheque em casa? O corno manso fez um cheque. E não foi barato.

Ando pela cidade louco para encontrar uma van com os dizeres Esposa de Aluguel. Nestes tempos em que estamos, todos tão ocupados com nossas carreiras, terceirizar os papéis do casamento clássico é uma mina de ouro. Já bolaram um APP? “Ubernizaremos” as obrigações maritais.

A trama ganhava contornos de um romance da Jane Auster. Fiquei na minha

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