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O olho que lê

Pensamento positivo não salva uma pessoa de uma agressão racista

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 03h00

Para que serve a leitura? Já foi dito que para aumentar vocabulário, para passar o tempo, matar o tédio ou para fazer provas. Poderia ser mais poético e dizer que lemos para viajar por épocas, terras e personagens diferentes. Todas as respostas são válidas. 

Eu gosto de ler para tentar melhorar. Dito assim, parece aquele tipo de avaliação de final de encontro de grupo de jovens em colégio de freiras: “O encontro foi bom para a gente crescer no nosso compromisso com a comunidade”. Em outras palavras, nada, ou quase nada...

O mundo tem problemas concretos enormes. Exemplos? Há desigualdade social, violência contra mulheres, racismo, homofobia, danos ecológicos crescentes e fanatismos de toda espécie. São coisas fortes e impossíveis de ser ignoradas. São problemas complexos, logo, não permitem enfoque rápido ou linear. Como enfrentá-los? Claro, com ações. Pensamento positivo não salva uma pessoa de uma agressão racista. Todavia, a ação precisa de alguma reflexão. 

Aqui está o meu ponto. A delimitação do problema, os conceitos principais, o que já foi feito e o que poderia ser construído como solução existem, entre outras fontes, na leitura. Vou me deter naquilo que identifiquei, entre tantas questões graves: o racismo. O problema é nosso, independente da pele ou da posição social. Vou sugerir um guia introdutório para falar de leitura e de mudança de mundo.



Podemos começar de muitos lugares. Eu recomendo o livro O Olho Mais Azul, da norte-americana Toni Morrison (Cia das Letras). Aqui, em obra ficcional, começamos a pensar a questão da beleza, um dos muitos aspectos do racismo. Ela ganhou o prêmio Nobel. O livro tem mais de 50 anos e continua forte. Afinal, o texto servirá para que todos possamos pensar o motivo de significar olho claro sempre que alguém elogia o olho de uma criança. 

O romance terá feito, por meio da ficção, uma sensibilização ficcional sobre o problema. Passemos a algo atual e direto: Então Você Quer Conversar Sobre Raça (2020, Ijeoma Oluo, ed. BestSeller). O campo é outro: perguntas e situações concretas analisadas pela escritora nascida em 1980. Ijeoma pergunta sobre tocar no cabelo de pessoas negras, ter sido acusado de racismo por alguém, viés racial de professores e microagressões. A primeira autora indicada usa da imaginação para o objetivo; na segunda, porém, as situações são concretas e diretas. 

Vamos ao Brasil. Silvio Luiz Almeida lançou Racismo Estrutural, reforçando alguns conceitos desenvolvidos por Kwame Turu e Charles Hamilton. O racismo não é fruto de uma pessoa tosca, porém de um sistema complexo e amplo. O autor distingue racismo individualista, institucional e estrutural. A obra de Silvio de Almeida faz pensar em zonas de conforto que criamos com a naturalização de privilégios. Exemplos: o racismo é mais grave do que a exclusão por pobreza? O racismo seria herança apenas da escravidão? 

Leu um romance e duas análises contemporâneas? Começou uma jornada de conhecimento sobre um tema essencial? Sugiro que o quarto livro seja Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro. A autora é filósofa e tratou, em obra curta e clara, de como passar a uma atitude antirracista. Somos levados a analisar a negritude e os universais e quase invisibilizados privilégios da branquitude. Emergem racismos que podem, inclusive, ter sido internalizados pelo honesto leitor e a dedicada leitora. A autora tem outras obras, eu recomendaria começar por este best-seller. 

O tema é enorme. Quatro livros são um passo tímido para delimitar coisas. Há centenas de outros livros, documentários, filmes a analisar. Que eu tinha em mente? Se você dedicar alguns dias a cada obra, terá, em menos de um mês, revolucionado sua concepção. Quatro autores terão trazido questões novas, não necessariamente para sua concordância com todas, mas para um salto gigantesco de qualidade de informação. 

Somos um país com imensa proporção afrodescendente. Nossa história só pode ser contada passando pela realidade da revolta, exclusão e trabalho de milhões de seres humanos escravizados. A cultura brasileira existe inseparavelmente da contribuição e criatividade de populações negras. Uma parte expressiva de nossos problemas sociais e educacionais precisa ser repensada à luz do racismo. Em resumo, pensar o passado, o presente e o futuro do Brasil passa pelo racismo. Não é um deleite humanista de um grupo de suecos ou finlandeses comovidos com o terceiro mundo: é nossa realidade imediata.

Ao ler esses quatro livros, você terá ideias claras sobre temas que aparecem no seu grupo de WhatsApp, no bar, na escola e no escritório. Mais: atitudes concretas e transformadoras serão sugeridas. Você e seu núcleo imediato (família, amigos, trabalho e estudo) serão iluminados por muitas questões novas. Sairão do campo do “eu acho”, “minha opinião é que”, “eu tenho um amigo...” para o campo dos dados e pensamento complexo e solidificado por buscas científicas. Você questionará expressões, opiniões, dados, práticas e coisas do senso comum. 

Assim, ler é sair de um ponto confortável ditado pelo senso comum e reforçado pela superficialidade e entrar em outro mundo, o da formação de ideias pesquisadas e refinadas. A leitura melhora pessoas com olhos de todas as cores. Eu tenho sempre essa esperança. A propósito: a Lei Áurea está fazendo 133 anos. Ler permite duvidar: será que houve uma redentora? 


É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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