O olhar impiedoso de um tratante

Almas Mortas, de Nikolai Gógol, reeditado com a segunda parte, deixada incompleta pelo autor, faz sátira à Rússia

Aurora F. Bernardini, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

Ler um romance como Almas Mortas do escritor russo-ucraniano Nikolai Gógol (1809-1852) - agora na nova edição da editora Perspectiva, com a impecável tradução de Tatiana Belinky e as excelentes ilustrações de Sergio Kon - é também renovar o prazer de voltar ao mundo rural russo de então, acompanhando as andanças do incorrigível tratante Pavel Ivánovitch Tchítchikov e seus embates com os pomiéschiki, os nobres que, a partir do século 13, haviam recebido do czar a concessão de terras com obrigações e tributos em dinheiro e in natura. São eles descritos com tanta graça e aparente espontaneidade que mesmo as sátiras mais ferinas aos desmandos dos seres e das instituições nos encantam pelos detalhes inesperados que os compõem e pelo prisma certeiro, embora subjetivo, pelo qual são vistos.

A trama, como é sabido, foi sugerida em 1835 a Gógol por Aleksandr Púchkin (1799-1837), por quem o escritor nutria a mais alta admiração, e se baseava em um fato curioso. Até 1861, ano em que foi abolida a servidão da gleba, os pomiéschiki podiam comprar, vender ou hipotecar os camponeses que eram chamados "almas". Os proprietários pagavam um imposto per capita anual (obrók) por eles, que eram recenseados a cada cinco anos, mesmo por aqueles que viessem a morrer no período compreendido entre um recenseamento e o seguinte. O plano de alguns espertalhões - e de Tchítchikov em particular - era o de adquirir a baixo custo um número considerável dessas "almas mortas" e hipotecá-las como almas vivas e úteis, o que elas eram nominalmente, de acordo com os documentos oficiais.

Muito acertadamente Boris Schnaiderman inicia sua apresentação a esta obra-prima de Gógol (as outras sendo O Inspetor Geral, O Capote e a coletânea de contos Arabescos) referindo-se a outra obra-prima: a biografia que dele escreveu Vladimir Nabókov (Nicolai Gógol - Uma Biografia, Ars Poética, 1994). "Algo novo", diz o biógrafo, em que "discordo do que a maioria dos críticos russos escreveu sobre Gógol e não utilizando outra fonte senão o próprio Gógol". De fato, as impressões de Nabókov, tão subjetivas como as de Gógol, não deixam de ser igualmente certeiras. Apesar de os grandes protagonistas das obras gogolianas refletirem e universalizarem admiravelmente certos traços da própria personalidade do autor, o verdadeiro reino do ucraniano - diz Nabókov - é o mundo das personagens secundárias. "Elas surgem repentinamente a cada passo da obra, irrompendo, por assim dizer, no fundo das cenas, e pavoneando por um instante sua existência real"... e criando tipos inesquecíveis, como o do cocheiro Selifan e do valete Petruchka de Tchítchikov, ou os dos proprietários Manílov e Sobakiévitch que, apesar de seu caráter tipicamente russo, têm sido comparados, no mundo anglo-saxão, ao Mr. Micawber e ao Scrooge de Dickens. "Se fôssemos usar como critério de avaliação tão somente a potência criativa, Gógol é o maior escritor que a Rússia teve, podendo, sem o menor constrangimento, ser colocado lado a lado, se não de um Shakespeare, com certeza de Rabelais." É esse o juízo de D.S. Mirsky, em sua História da Literatura Russa, a única mencionada com respeito por Nabókov. "O estilo de Gógol", explica o historiador, "é caracterizado antes de tudo e persistentemente por sua força de expressão verbal. Quando ele escrevia, ele pensava menos no efeito acústico produzido no ouvinte do que no efeito voluptuoso que ressentia o aparelho vocal do recitador (...) Isso tornava sua prosa intensa e saturada (jamais simples): uma retórica poética elevada e uma farsa grotesca".

Descrições e diálogos alternam-se vivamente valendo-se dos procedimentos que os críticos do formalismo russo, além de Nabókov, souberam tão bem individuar: a orgia de enumerações, as coisas e os animais se personificando, o discurso gerando figuras vivas, como no exemplo do jogo de baralho: "Por vezes, quando batiam com as cartas na mesa, escapavam-lhes expressões: "Ali! Se não tem outro, vai o de paus mesmo!" ou simplesmente exclamações assim: - Ouros! Ourinhos! Espadão! ou então; - Espadim! Espadachim! Espadíssimo! Ou mesmo, simplesmente: Espadote!" E ainda as generalizações ousadas e "politicamente incorretas", o absurdo servindo como explicação, a caricatura exagerando os traços mais salientes e reduzindo-os a construções geométricas e, por fim, a "declamação patética" alternando-se à fala corrente, como no final grandioso da primeira parte, em que Gógol salta do comezinho e se dirige diretamente à enaltecida mãe Rússia. Aqui terminam muitas edições da obra em outros idiomas.

A questão do segundo tomo do livro, do qual foram encontrados apenas quatro capítulos, de valor irregular (as mensagens espirituais "matam o texto", diz Nabókov) e um trecho desfalcado, incluídos na presente edição, tornou-se, ao longo dos anos, quase uma epopeia. É verdade, de acordo com os testemunhos das pessoas que frequentaram Gógol em seus últimos dias, que ele, tomado de exaltação religiosa, em profunda depressão e enfraquecido pelos jejuns que se impunha, queimou os capítulos corrigidos dessa parte, mas depois foram encontrados os rascunhos e, após pesquisas, confrontos e averiguações, especialistas como V. Voropáev e A. Peskov (Vopróssi Literatury, 1986) chegaram à conclusão de que o segundo volume jamais fora completado pelo escritor.

AURORA F. BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA NA USP

ALMAS MORTAS

Autor: Nikolai Gógol

Tradução: Tatiana Belinky

Editora: Perspectiva

(432 págs., R$ 65)

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