O olhar feminino de Léa Pool

A obra da cineasta suíça Léa Pool é quase sempre apontada como tendo a forte marca de buscar a identidade feminina. Seja em histórias que revelam o cotidiano de um colégio interno para garotas ou de uma jovem mãe que busca um último alento para o filho que está morrendo de câncer, seus filmes sempre trazem o olhar da mulher sobre um universo complexo e, ao mesmo tempo, delicado. "Não acho que seja uma questão de feminismo, no sentido político. Sou uma diretora, mulher, e, portanto, é natural que meus filmes falem do meu universo, dos problemas porque passam as mulheres", comentou Léa ao Estado em sua passagem por São Paulo, onde esteve na semana passada para a abertura da mostra que o Centro Cultural Banco do Brasil dedica à sua obra que entra em cartaz amanhã em Brasília e no dia 3 de abril no Rio.

O Estado de S.Paulo

23 de março de 2012 | 03h10

É uma chance rara de assistir a 12 de seus principais filmes e entender melhor o universo por ela retratado em longas como A Dama do Hotel (que impressionou a crítica mundial em 1984), Assunto de Meninas (de 2001), A Borboleta Azul (2004), entre outros. "Questões masculinas também têm destaque nas histórias que dirigi, mas muitas vezes estão em foco sob o olhar de uma personagem feminina. Um diretor, por exemplo, quando faz um filme sobre um protagonista masculino, ninguém diz que ele é um diretor que trata da identidade masculina. É apenas um filme."

Mesmo recusando o rótulo, Léa, que é radicada em Quebec, de fato busca sempre investigar as principais questões do universo feminino em sua obra. Seu mais recente trabalho, o ainda inédito Pink Ribbons, Inc. (Laços Rosas, Inc.), investiga o que há por trás das campanhas mundiais contra o câncer de mama. "Fazia tempo que não me dedicava ao documentário, formato que também gosto muito. O filme questiona e vai em busca do que é feito com a verba levantada nas ações beneficentes para o combate ao câncer de mama", explica a diretora, que apresenta o filme no fim do mês em Londres. "Acho que será uma sessão polêmica, porque o filme levanta questões como o uso do dinheiro para as pesquisas contra a doença. Como não há um controle benfeito, muitos estudos se repetem, não chegam a conclusões, verbas não são bem aplicadas. Não questionamos o valor das campanhas, mas sim como são administrados os fundos depois", continua. "Se o dinheiro for melhor aplicado, o avanço será mais efetivo, mais mulheres poderão ser tratadas. Aprendi muito ao fazer esse documentário."

Por falar em documentário, Léa é um caso raro de diretor que não tem predileção pelo cinema ficcional ou real. "Cada tema pede seu próprio formato. Meu próximo filme, por exemplo, vai misturar os dois. Vou trabalhar tanto com atores, crianças principalmente, não profissionais, e suas relações com suas mães. E terá um pouco de ficção e de documental. É um novo desafio", contou ela, que já dirigiu atores como William Hurt (em A Borboleta Azul) e Mischa Barton (em Assunto de Meninas). Estes dois longas integram a mostra e marcam a transição da carreira de Léa para um cinema mais comercial. Outros títulos importantes compõem a mostra, que faz parte da Festa da Francofonia 2012, evento multicultural que ocorre este mês em São Paulo e prevê várias atividades sobre a cultura francófona.

"Estou contente de voltar ao Brasil após 15 anos. A primeira vez foi para fazer um documentário sobre a condição da mulher no mundo." De volta à questão feminina? "Sim. Sempre a questão feminina. Agora, vou passar muito menos dias no País, e só em São Paulo, mas já adianto que vi muita coisa diferente." A condição da mulher brasileira melhorou? "A princípio me parece que sim. Mas, seja no Brasil ou no mundo, vejo que as jovens de hoje ainda têm, sim, de lutar por direitos que minha geração lutou, que pareciam já estar estabelecidos. A luta não acaba nunca." / F.G.

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