O olhar cinemotráfico de Grünewald

O jornalista e poeta José Lino Grünewald, que morreu em julho passado aos 68 anos, tinha os olhos da vanguarda para artes diversas - foi o primeiro estudioso a declarar que João Gilberto estava mais perto de Orlando Silva que de Mário Reis; como poeta, participou do núcleo inicial do concretismo; e, como tradutor, verteu para o português Os Cantos, fabulosa obra de Ezra Pound. Mas foi no cinema, como crítico, que Grünewald exercitou seu raciocínio avançado, atiçando a inteligência de um grande número de leitores, especialmente os do Correio da Manhã e do Jornal do Brasil, na década de 60. As resenhas mais representativas foram selecionadas pelo jornalista Ruy Castro e compõem o livro Um Filme É um Filme (Companhia das Letras, 287 págs., R$ 29 50), a ser lançado nesta semana."Grünewald percebia a evolução cinematográfica enquanto ela acontecia", observa Castro, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e um de seus discípulos confessos. "Em alguns casos, como nos filmes de Godard, ele até antecipava o próximo passo do cineasta francês." O que o diferenciava dos demais críticos, segundo Castro, era uma forma analítica que não se influenciava pela literatura ou sociologia - se o cinema se parecia com alguma outra arte, para Grünewald, era com as artes plásticas.Suas críticas começaram a ser publicadas em 1958, quando ganhou a página de cinema do Jornal de Letras, um mensário cultural carioca. Foi também naquele ano que Grünewald descobriu Cidadão Kane, de Orson Welles. Apesar de produzido em 1941, o filme só começou a ser reconhecido no final dos anos 50, quando uma legião de críticos (Grünewald entre eles) percebeu que sua linguagem era revolucionária. "Para ele, havia o cinema de antes de Kane e o de depois", observa Castro.Preocupado em descobrir filmes que traziam alguma contribuição para a linguagem do cinema, Grünewald começou a aplicar aos diretores a mesma classificação utilizada por Ezra Pound aos poetas. Assim, havia os "inventores", aqueles que inauguravam processos; os "mestres", que faziam um ótimo proveito das inovações trazidas pelos inventores; e os "diluidores", ou seja, os que pegavam carona nas inovações. Para ele, eram inventores Griffith, Einsenstein, Murneau, Welles De Sica e Max Ophüls. Entre os mestres, estavam Fritz Lang, John Ford, Billy Wilder, John Huston, Akira Kurosawa, Federico Fellini e Ingmar Bergman. E diluidores eram inúmeros outros, bons diretores, mas ainda sem as qualidades das outras duas categorias.A popularização de seus conceitos veio em 1962, quando foi convidado a escrever com regularidade sobre cinema no Correio da Manhã. Era a possibilidade de um grande número de leitores acompanhar a evolução de seu pensamento e, principalmente, a descoberta de filmes que revolucionavam a linguagem, como O Ano Passado em Marienbad (1962), de Alain Resnais, e 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.Para acompanhar a evolução do pensamento de Grünewald, Ruy Castro recomenda resistir à tentação de se abrir o livro em busca dos filmes favoritos e ler as críticas em seqüência. "Além do prazer da leitura, é possível observar o acompanhamento que ele fazia, por exemplo, dos filmes de Godard, desde os primeiros filmes até sua decisão de fazer o cinema interferir na realidade."É possível notar também que, ao final da década de 60, as inovações foram sucessivamente adotadas pelo cinema comercial. É nessa época também que Grünewald, depois de uma sucessão de inovações, revelou seu desencanto pelos filmes, observando que as revoluções agora se limitavam ao conteúdo e não mais de linguagem.

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