Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O off é mais barato do que o sale?

'Fique à vontade, olhe, escolha, se quer saber o preço chame 787, ofertas é no ramal 321'

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2017 | 02h00

Entro na loja de calçados. Chega o atendente: “O que o senhor deseja?”. A pergunta óbvia, exige a resposta óbvia: “Quero um sapato. O que mais poderia ser?”.

Sou impertinente. Clichês me enfurecem. Por exemplo, nada me causa repulsa maior do que aquela série de expressões sem originalidade, repetitiva dos implicados em processos de corrupção: sou inocente, são fantasias de mentes doidas, produtos da imaginação, delírios, suposições, conjeturas, hipóteses, premissas, especulações, vislumbres. Ou como diz nosso cambaleante presidente, ilações, ficções. Assim, diante do pobre moço que tenta ajudar, pergunto: “O que eu poderia querer aqui? Acaso vocês vendem pão, sorvete, cereais, iogurte, tecidos, guarda-chuvas, panelas, meias, granola, bateria para celular, arame, corda, roupas, remédio para dor de dente (falando nisso será que anda existe a Cera Doutor Lustosa?), controle remoto, abotoaduras?”.

O pobre jovem fica aturdido. Têm paciência os vendedores e a sorte deles é que nem sempre pegam pela frente um comprador como eu. Fico admirado quando veja uma pessoa pedir um sapato, recusar, e outro, e outro de outro número, outra cor, outro formato, e de outro modelo, e com cordão, sem cordão, salto alto, baixo, sem salto, chinelinhas. Sem decidir e o caixeiro (como se dizia antigamente) ou atendente (na linguagem das operadoras de serviço de atendimento ao cliente) vai e volta, abre caixa, sobe e desce escadas e sorri, e procura agradar. Ele é obrigado, tem o dono ou o gerente em cima a vigiar. Verdade que as boas lojas do ramo (ainda se usa esta arcaica expressão?) hoje possuem elevadores que mandam o produto direto do estoque (antes se dizia depósito).

Fico admirado quando uma freguesa (ou será cliente?) se levanta e tranquila, corajosa, diz que não vai levar nada, e deixa esparramado ao redor um monte de calçados desparelhados (assim se diz em Araraquara), 37 com 39, 40 com 36, e o funcionário leva um tempo para arrumar aquilo. Nada vende e ainda pode perder outro freguês impaciente, que não tem tempo ou paciência de esperar. Admiro profundamente esses bravos que entram na loja, descem tudo das prateleiras e, sem culpa nenhuma, abandonam mercadorias no balcão e não levam nem um lencinho.

Toda essa história por quê? Para confessar meu grande problema com lojas, comércio. Entro e sou atacado por um complexo de inferioridade. Não quero tomar o tempo de ninguém. Não gosto de incomodar. Por timidez, entro e quero sair o mais rápido. Coisa que me incomoda é entrar, o atendente se posicionar e gentilmente me questionar (pressionar): “Quer o quê?”. Se respondo, ele toma conta de mim, me domina, mostra isso, aquilo, insiste que este produto é o melhor, o mais moderno, o que está em moda (ou é a tendência), em uso, não nos dá tempo para pensar, raciocinar, escolher com calma. Não sai do lado, nossa cabeça ferve, os neurônios queimam. 

Assim, dezenas de vezes comprei um sapato que jamais usei, uma camisa que odeio, um cinto que é largo demais (ou os passantes é que são estreitos?), um objeto que nunca tive coragem de dar ao meu pior inimigo. Inimigo já é incômodo. Como classificar o melhor e o pior? 

Estamos em fase de liquidações. Ou sale. Ou descontos de até... Ou rebaja. Ou off. Ou discount. Entrei numa loja pedi um produto em off, não era o que eu pensava, me ofereceram outro, similar, ia comprando, mas aí o vendedor avisou que aquele não estava em off e sim em sale e o preço era diferente. Igual ao do off, não tem mais, avisou. Desse modo, a coisa varia e fui informado de que o melhor seria entrar numa “queima total”.

Compreendo o trabalho do vendedor. Ele precisa vender. Muitas vezes, além de um pequeno salário ganha comissão. Certo dia, um funcionário (atendente, caixeiro, servo, fâmulo, subordinado, o quê?) me confessou que, se não vendesse ao menos um produto por dia, no final do expediente estava despedido. Há anos, aprendi a entrar e quando alguém se aproxima e diz “posso ajudar”, saio correndo. Dependessem de mim, indústria e comércio iriam à falência, ou me pagariam um terapeuta. Não sei o que fazer. Tenho necessidade de tantas coisas, mas não ouso entrar para comprá-las. 

Vou adorar o dia em que entrando em um estabelecimento (há palavras que odeio, esta é uma) alguém passe por mim e cochiche: “Fique à vontade, o senhor tem todo o tempo, olhe, examine, pegue, escolha, prove, se precisar de mim ligue para 104, se precisar do gerente ligue para 112, se quer saber o preço chame 787, se preferir alguém de sua idade, chame 132, se quiser consultar ofertas, é o ramal 321”. Ficarei livre. Laços fora, gritarei. E acabo de perceber que nunca escrevi um texto com tantos parênteses. Pior se usasse colchetes.

Mais conteúdo sobre:
Ignácio de Loyola Brandão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.