O ódio olímpico

‘Não é possível alguém desejar que você seja estuprada’, desabafou Joanna Maranhão

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2016 | 02h00

O que fazer com os lobos solitários da internet, os “haters”? Responder aos ataques dá a visibilidade que buscam. Muitos deles vivem na periferia social. Solitários, frustrados, vencidos. A rede surgiu como um alívio, uma catarse, um xarope que amplifica suas deturpações e preconceitos.

Ignorar e deixar sem reposta uma acusação insana é deixar livre um agressor. Sim, denuncie! Vem outro. Denuncie! Senão virá outro, outro, outro... Bloquear pode torná-lo invisível, levá-lo de volta à sua gaiola de loucos. Mas outro alvo sofrerá ataques da sua alcateia.

A judoca Rafaela Silva não dormiu depois de conquistar o ouro olímpico. Surpreendeu-se com a recepção nas ruas. Gente batendo palma, agradecendo, gritando seu nome. “O povo brasileiro está me acolhendo, demonstrando carinho por mim.” 

Por que a surpresa? Quatro anos antes, fora alvo de ataques em redes sociais, que a chamaram de “macaca”, depois de eliminada (injustamente, por sinal) por um erro da arbitragem na Olimpíada de Londres. 

Mulher, negra e da Cidade de Deus... Que alvo em potencial do ódio que se esconde num perfil de mentira, no anonimato, e que se alastra pelas redes sociais. Anonimato? Não, impunidade. Com investimento e paciência, e uma Justiça realmente interessada, chega-se aos criminosos virtuais. Hoje, há mecanismos no Marco Civil que identificam autores desses crimes.

No dia seguinte, foi a vez de Joanna Maranhão desabafar. A nadadora ficou de fora das semifinais dos 200 m borboleta, sua especialidade. O que doeu? As reações insanas e pervertidas em redes sociais.

“Não é possível alguém desejar que você seja estuprada ou que morra. Não precisa gostar de mim, mas é necessário ter respeito”, desabafou a atleta, na zona mista da piscina, chorando lágrimas de cloro e sal. 

Joanna denunciou, em fevereiro de 2008, o abuso que sofreu de um técnico, que a manipulava nos treinamentos, quando tinha 9 anos de idade. Foi molestada sexualmente e agredida por denunciar. 

A Câmara dos Deputados aprovou, em maio de 2012, a lei que alterou o Código Penal: o prazo da prescrição de abuso sexual de crianças e adolescentes passou a ser contado a partir da data em que a vítima completar 18 anos. Batizada de Lei Joanna Maranhão.

Hoje, casada, com 29 anos, depois de passar por altos e baixos, assumiu publicamente os períodos que entrou em depressão, e que já tentou suicídio duas vezes. Politicamente ligada à esquerda, sofre também um assédio ideológico.

“A minha formação e a minha história fizeram com que eu tivesse a necessidade de me posicionar politicamente. E eu não vou parar.” No site do Estadão, a prova de que a intolerância rege estava nos comentários dos “leitores”. Abaixo da notícia, o circo de horrores continuava.

Leitor 1: “As redes sociais não a perdoam porque ela é esquerdista e se declara a favor da Dillma!!! Fora Dillma!!! Fora Joana Maranhão!!!”.

Ricardo Amorim escrevera, três minutos antes: “Tadinha da tonta kkkkkk vai chorar na cama que é quentinho e seco kkkkk”.

Claudio SS, 11 minutos antes: “É sabido que a Joana gosta de se sentir vítima, então dá um tempo nas suas páginas...”.

Vitor Hugo Melo Azevedo escreveu: “Esta moça se posicionou politicamente e até ofendeu pessoas que pensam diferente dela, agora que as pessoas se manifestaram, dizendo que ela não os representa fica se fazendo de vítima pra chamar atenção da mídia! Nos poupe, né!”.

Já Marcelo Costa escreveu, antes: “Não. Você deveria ser simplesmente ignorada. Você e o lixo de seus comentários imbecis sobre política e sistemas de governo. São coisas que deveriam ser, simplesmente, ignoradas. Você não representa NINGUÉM nesse país”.

Não são anônimos. Têm conta e dados cadastrais. Como não são anônimos os que xingaram Letícia Sabatella pelas ruas de Curitiba. Um deles, de “puta”. O ato na capital paranaense fazia parte da mobilização organizada pelo Movimento Vem Pra Rua, em apoio ao impeachment de Dilma. Ironicamente, a cena da agressão foi gravada em frente ao Teatro Guaíra, na Praça Santos Andrade, cuja fachada aparecia no vídeo. 

Quando um homem quer agredir uma mulher, traz à tona a moral sexual: “Vaca, vagabunda, piranha, safada, ordinária e puta”.

O homem que a xingou foi filmado pela vítima e reconhecido: o empresário Gustavo Pereira Abagge, filho de Nicolau Elias Abagge, ex-presidente do Banestado, banco que, em 1998, foi denunciado por lavar dinheiro e enviar enormes quantias a paraísos fiscais, golpe que rendeu na CPI do Banestado; 14 ex-funcionários do banco foram acusados por evasão de divisas e formação de quadrilha; réus com seu papai foram condenados a penas de prisão que variaram de 4 a 12 anos.

Paradoxalmente, Gustavo apoia o juiz Sérgio Moro, condutor da investigação no Banestado, que disse que se trata “de processo relativo a um dos maiores crimes financeiros da história recente do Brasil”.

Escrevi na rede: “Chamam judoca de macaca. Dizem que nadadora deveria ter sido mais estuprada. O ódio nas redes sociais virou psicopatia coletiva”. Michelle Rizk respondeu, duas horas depois: “O ódio às mulheres, principalmente”.

Joanna vai longe. Um advogado coletou os nomes e CPFs daqueles que a agrediram virtualmente. Entra nesta semana com uma ação na Justiça. O ódio vai reverter, segundo ela, em boa causa: combate à pedofilia.

Os agressores responderão pelo crime de injúria. Segundo o Código Penal, pena de um a seis meses de detenção ou multa. Se envolver questões étnicas e raciais, a punição pode chegar a três anos de detenção. 

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