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O ódio magnético

Cuidado! A cadeira do poder queima. A glória política é a mais passageira de todas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 03h00

Há muitas maneiras de conceber. Posso supor que exista, entre duas pessoas que se enfrentam, um “magnetismo cármico”. Coisas acumuladas, asseveram alguns, em outras vidas. Viram, tornam a virar e reencontram quem detestam. Podemos supor, saindo do campo religioso, que seja um tipo específico de identidade. Ninguém ama ou odeia sem que exista alguma projeção. De forma quase matemática, também posso elaborar a teoria de que, se não gosto de alguém, cada vez que vejo a pessoa ela me incomoda. Assim, acabo imaginando que exista uma coincidência em constantes reencontros daquele ser em uma festa ou ao longo da vida. Talvez seja apenas o fato de que eu noto quando reencontro e suponho, de forma narcísica, que exista um plano acima de mim que me faz rever o rosto rejeitado. Deve ser como um farol vermelho: eu acho que pego muitos porque só noto o vermelho e considero o verde natural e adequado a minha impaciência. Por fim: seria apenas um acaso entre o bizarro e o poético?

Jürgen Stroop (1895-1952) foi um dos tantos canalhas nazistas que a guerra empoderou. Membro da SS, teve o trágico papel de reprimir o levante do Gueto de Varsóvia, em 1943. Não bastava matar os habitantes do gueto. Ele, pessoalmente, explodiu a Grande Sinagoga de Varsóvia a 16 de maio daquele ano. Ao apertar o botão dos explosivos, gritou Heil Hitler! A folha criminal do monstro cresceu: massacrou civis poloneses, foi repressor na Grécia e mandou executar prisioneiros norte-americanos. Esse humano infeliz e racista terminou preso após a guerra. Foi julgado no campo de Dachau e enviado para a Polônia, agora um país controlado pelo regime comunista que ele tanto odiou. Novo julgamento e abundantes provas do sadismo de Stroop. Neste momento, voltaremos ao primeiro parágrafo.

Com quem o monstruoso nazista dividiu cela? Kazimierz D. Moczarski (1907-1975) foi participante da resistência polonesa contra o nazismo. Tinha tentado matar Stroop mais de uma vez. Foram inimigos declarados nos anos da ocupação alemã. Enfim, estavam juntos, o nativo e o invasor.

O resultado dos meses de convívio na prisão Mokotów virou um livro: Conversas com um Carrasco (Conversations with an Executioner). Interessante comparar esse texto com a análise de Hannah Arendt sobre Eichmann.

Stroop foi dependurado em uma corda no dia 6 de março de 1952. Moczarski passou mais um tempo encarcerado e, depois da desestalinização, acabou sendo perdoado e solto. Os encontros dos dois foram publicados em uma revista e, depois da morte do polonês, surgiu o livro. Traduzido para o alemão, francês e inglês, virou um sucesso. Com o tempo, foi adaptado para a televisão polonesa, tornou-se documentário britânico e foi para o teatro dos EUA pela criação de Philip Boehm.

Stroop e Moczarski não se conheciam até a idade adulta. Durante a guerra, viraram inimigos absolutos. Se um dos dois tivesse conseguido, teria assassinado o outro com prazer. Ambos foram prisioneiros do mesmo regime polonês stalinista e conviveram por meses na mesma cela, na mesma prisão, na mesma cidade onde o ódio de um pelo outro tinha vicejado. No futuro, o polonês seria conhecido pela obra sobre o homem que mais tinha odiado e seu nome, per omnia saecula saeculorum, continuará associado ao do carrasco. Era a coincidência ou magnetismo cármico de que eu falei ao começo?

O encontro de dois inimigos em situação distinta magnetizou muitas narrativas. O cartaginês Aníbal e o romano Cipião travaram uma guerra acirrada por anos. Plutarco comparou as virtudes cívicas e militares de ambos. O ódio entre os dois generais parece tão impressionante que chegou a ter curso uma história apócrifa de que no final da vida, exilados, eles teriam compartilhado muitos momentos de conversas sobre os impérios que defenderam e que agora os rejeitavam.

Sabemos que o mundo político dá voltas surpreendentes e a ciranda dos holofotes é caprichosa. Quando um papa era coroado, alguém dizia ao recém-eleito que a glória do mundo era passageira (Pater Sancte, sic transit gloria mundi!). Algo similar era dito aos generais romanos em triunfo. Seria uma boa frase para todos que assumem cargos. Poderiam dizer algo mais desenvolvido ao que toma posse em qualquer cargo: “Você está no topo agora. O trono já pertenceu a gente que te combatia e em breve o poder voltará a ser dos teus inimigos. Cuidado! A cadeira do poder queima. Quem alto sobe alto cai. A glória política é a mais passageira de todas”.

As frases poderiam ser entendidas com dois sentidos. Um homem sábio, porventura, pensasse: “É verdade, preciso pensar que a impermanência domina tudo”. Se houvesse a remota hipótese de um menos consciente ser eleito ou indicado para um cargo, a reação poderia ser oposta: “Já que passa, vou aproveitar para enriquecer rápido e proteger minha família”. Qual pensamento teria ocorrido ao ex-poderoso Stroop ao ser enforcado? É preciso ter esperança e ela, geralmente, não está no poder. 


*É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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