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O novo romance de Houellebecq

Ele confirma seu talento de apresentar antes os problemas que afligirão a sociedade moderna

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2019 | 02h00

O sétimo romance de Michel Houellebecq leva o engraçado título de Sérotonine. Serotonina, como sabemos, é o hormônio responsável pela alegria que experimentamos geralmente à tarde ou no fim do dia.

O livro foi lançado no dia 4 e só estará nas livrarias a partir do dia 9. Pouco importa: ele já domina todas as seções literárias dos jornais e promete ser um best-seller. Nesse sentido, Houellebecq confirma um de seus talentos: como se possuísse um radar invisível, ele consegue apresentar antes de todos os problemas que vão afligir a sociedade moderna. 

Esse fenômeno já ocorreu com seu livro anterior, Submissão, ambientado numa França invadida pelas pregações e pregadores jihadistas. Submissão foi lançado em 2015, poucos dias antes de um comando jihadista chacinar em Paris grande parte dos redatores e chargistas do jornal satírico Charlie Hebdo.

Sérotonine também contém sua carga profética. A ação transcorre numa França rural abandonada, povoada por camponeses que assistem ao naufrágio de sua nobre ocupação nas ondas da modernidade inflexível. De passagem, Houellebecq aproveita para louvar seu novo ídolo, Donald Trump, exaltar o protecionismo e vomitar um de seus ódios preferidos – o ódio à União Europeia. 

Difícil não pensar no que ocorre há um mês na França – a revolta daqueles que chamam a si mesmos de “coletes amarelos”, homens e mulheres de um campo enlutado que trabalham de sol a sol e morrem suavemente às luzes declinantes de seu antigo esplendor. Trata-se de um belo e doloroso tema, que permite a Houellebecq, em geral tão impassível que beira o cinismo, ecoar sons que se assemelham ao pulsar de um coração ferido. Um romance de nostalgia, disse o crítico Bernard Pivot, notando que esse sétimo livro contém belas páginas sobre a felicidade. 

Como em outras vezes, o lançamento de um romance de Houellebecq é, antes, um evento sociológico, ou mesmo político, que literário. O deste ano não fugiu à regra, com o livro sendo lançado ao fim de uma temporada literária que, se escapou do medíocre, também não teve surpresas de tirar o fôlego ou rugidos de admiração. A editora de Houellebecq, Flammarion, e todo o mercado livreiro, mais que nunca depositam suas esperanças no novo romance. 

Sem ter podido ler o livro, que só chega às livrarias na próxima semana, cito aqui quatro reações que um mesmo jornal, Le Monde, registrou ante o lançamento.

Catherine Millet, escritora notável, intitulou assim sua nota: “O autor que enaltece nossa vulgaridade”. 

Bruno Viard, universitário: “Houellebecq, um romancista ambíguo”. 

Tiphaine Samoyau pergunta-se por que Houellebecq leva a estranha fama de “o escritor mundial da França”. 

Por último, Antoine Compagnon, catedrático de literatura no prestigiado Collêge de France, não precisou de muitas palavras: “Uma linguagem rasa e instrumental”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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