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O novo normal

Para que colocar blazer em casa se o escritório fazia reuniões apenas pelo áudio?

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2020 | 03h00

Ana Paula leu a frase em Euclides da Cunha: “A vida normalizara-se naquela anormalidade”. Ela baixou o tablet onde estava lendo Os Sertões e ficou pensativa. Não era a tragédia de Canudos que a intrigava, nem a destreza narrativa do autor fluminense. Ao retirar os olhos da leitura, ela viu o marido no sofá, de pijama e coberto por alguns pacotes de salgadinhos semiconsumidos.

O termo pijama era um exagero retórico. Era uma camiseta esgarçada e lavada centenas de vezes. O calção fora, originalmente, parte de um conjunto de dormir. Agora, era uma peça perfurada e de cor duvidosa, com algumas manchas indeléveis. O conjunto era deplorável, quadro agravado pelo abdômen protuso daquele que Ana Paula, um dia, tinha chamado “meu gato de abdômen definido”.

Ela pensou sobre o novo normal do companheiro. Tinha começado na quarentena de coronavírus. Trabalhador incansável e com uma cultura familiar workaholic, Rodolfo ficou muito perdido no início do isolamento. Andava, inquieto, de um lado para outro da sala. A pandemia quebrara anos do hábito de se levantar cedo e ir para o escritório antes de todos os outros advogados. Começou a analisar os processos nos mesmos horários, arrumado e até com gravata. Fez um home office exemplar. Postou fotos fazendo atividades físicas, estudando italiano, cozinhando e limpando a casa. Suas redes sociais receberam milhares de likes! Era um marido exemplar e cidadão zeloso. As duas primeiras semanas do “novo normal” incrementaram o conhecimento, o companheirismo e até a vida lúdica-erótica do jovem casal.

Com o tempo passando, o efeito “dia da marmota” foi-se acentuando. Dos pães sovados com farinha orgânica de abril de 2020, pouco restou. Despontou a comida pedida da rua, prática, gostosa e opulenta em calorias. Para que colocar blazer se o escritório fazia reuniões apenas pelo áudio? Ele começou a trocar, de forma sutil, o dia pela noite. Sem a luz, tudo era mais silencioso. Rodolfo perdeu interesse em abastecer redes sociais. Metade do tempo acordado, ficava vendo séries a esmo na TV a cabo. A outra metade era consumida com processos. Nos dois momentos, pacotes ultraprocessados de algo com sabor bacon eram amolecidos com litros de refrigerante efervescente. “Pelo menos, eu não bebo”... defendia-se quando a mulher insistia em algo mais saudável. O marido elegante dava lugar a outro ser. Em junho, a proporção foi restabelecida. Não era mais apenas a barriga volumosa: braços, coxas e papada harmonizaram-se aptas ao pincel de Fernando Botero.

Ela evitava excesso de críticas. “Era um momento atípico”, pensava para si. O mundo se debatia em trágica agonia e ela ainda infernizaria a vida daquele homem em casa? Ana Paula assistiu, resignada, ao marido capitular diante de qualquer demanda estética – “Pelo menos, ele não bebe”, ela ecoava o mantra para encontrar algum consolo no quadro trágico que se repetia diariamente.

O dia chegou! O escritório reabriu! Rodolfo saiu de casa cedo. O terno ficara apertadíssimo. O último botão da camisa não podia ser abotoado. Todavia, Ana Paula deu um beijo sincero naquele homem que, enfim, voltaria ao mundo do olhar alheio. A alegria da esposa durou até o crepúsculo.

Rodolfo voltou com sorriso radioso. Os sócios tinham concordado! As análises de processos e os pareceres jurídicos despachados de casa eram extraordinários. Ele tinha demonstrado uma capacidade de análise que fez muita diferença para as demandas da firma. Não foi difícil negociar: o rotundo advogado poderia continuar em casa. Ana Paula controlou um grito de horror.

Ela havia suportado as intermináveis semanas da quarentena porque eram um Purgatório, jamais um Inferno. As almas imperfeitas que sofrem no primeiro lugar sabem que é passageiro. Tudo incomoda, porém haverá um upgrade para o Paraíso. O domínio do demônio é terrível porque eterno e, entrando nele, deixa-se “toda a esperança”, como a culta esposa tinha lido em Dante Alighieri. Ela fora puxada para um gorduroso, monótono, desagradável e repetitivo tártaro profundo. Houve choro e ranger de dentes. Era como ser reescravizada no entardecer do domingo da Lei Áurea.

Rodolfo pouco percebera a náusea horrorizada de Ana Paula. Comemorou pedindo três pizzas. O mesmo entregador de sempre trouxe os discos solicitados. Era de poucas letras, mas de sorriso largo. Quase bonito, cheirava a limpeza. Rodolfo, grosseiro, havia classificado o rapaz como um jumento muitas vezes. Ana Paula teve um breve diálogo com o rapaz na portaria. Pediu ao porteiro que entregasse o jantar calórico no apartamento. Ao receber a encomenda e estranhando a falta de sua mulher, o advogado foi até a sacada e a viu na garupa da moto do entregador. Agarrada e feliz ao torso do jovem, Ana Paula sorria e pensava: “Este sairá todos os dias para trabalhar, mesmo na epidemia”. Ela chegara à mesma conclusão de Inês Pereira na obra de Gil Vicente. É preciso ter esperança com cada novo normal da vida. 

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