Marcos de Paula/AE
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O novo leitor na mira dos imortais

Ana Maria Machado toma posse hoje e quer sua diretoria mais perto das UPPs

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2011 | 03h09

Ana Maria Machado é autora de mais de uma centena de livros para adultos e crianças e já perdeu as contas dos prêmios que ganhou - o Hans Christian Andersen, mais importante do mundo na área de literatura infantil e juvenil, foi um deles. Agora, ela corre para terminar um título juvenil antes que sua vida fique ainda mais atribulada. Secretária-geral da Academia Brasileira de Letras em 2011, ela assume hoje, em cerimônia no Petit Trianon, no Rio de Janeiro, às 17 horas, a presidência da entidade e se torna a segunda mulher a ocupar o cargo. A primeira foi Nélida Piñon, em 1997.

Sua eleição, vencida por unanimidade em 8 de dezembro, não chegou a ser uma surpresa, embora nunca tivesse sido planejada pela escritora, que virou imortal em 2003. "Eu não tinha o projeto de ser presidente, mas quando entrei na diretoria como secretária, esse seria um caminho natural porque tradicionalmente secretário-geral passa a ser presidente. Então, eu sabia que ia deslizar para este cargo, que é de muito sacrifício e trabalho."

Mas ela terá ainda alguns dias para se acostumar com a novidade. Amanhã, a ABL entra em recesso e só volta em janeiro, quando começará, de fato, o trabalho da nova diretoria. Ao lado dela estarão Geraldo Holanda Cavalcanti (secretário-geral), Domício Proença Filho (primeiro-secretário), Marco Lucchesi (segundo-secretário) e Evanildo Bechara (tesoureiro).

Conferências, shows de música popular e erudita, filmes, exposições e leituras dramáticas são algumas das atividades corriqueiras da ABL que devem continuar na agenda.

Três centenários, no entanto, vão marcar o ano. Jorge Amado e Evandro Lins e Silva serão lembrados nos 100 anos de nascimento e o Barão do Rio Branco, no de sua morte. "Queremos fazer uma revisão crítica da obra de Jorge Amado e abrir possibilidades para que outros também façam isso no Brasil e no exterior. Vamos ver como ele é recebido hoje", comenta.

Nos últimos anos a ABL tem tentado mudar sua imagem: quer mostrar que o espaço é aberto a toda a população e que seus imortais estão ligados em novas ideias e tecnologias. Tanto que no ano passado, cinco deles ganharam e-readers em sorteio. Um pouco antes, em 2007, os acadêmicos subiram os morros do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho para tomar chá com as crianças da comunidade. Além disso, a ABL tem perfil no Facebook e no Twitter.

Ana Maria considera a ABL um grande, e atuante, centro cultural e quer continuar no caminho da abertura, mas com algumas mudanças. "Minha gestão vai coincidir com o momento em que as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) serão implantadas e tenho muita vontade de ver se a gente desenvolve parcerias para ajudar a fazer com que a literatura brasileira esteja mais presente em áreas que não tiveram esse contato antes, mas isso não significa ir tomar chá na favela", diz. "Eu quero fazer um trabalho de formação de mediadores de leitura e contribuir para o aumento do número de novos leitores."

Ela conta que a diretoria ainda vai estudar todas as possibilidades de fazer uma gestão mais social, mas já diz que uma das ideias é usar algum imóvel herdado de seus membros como ponto de partida. "Temos a intenção de colaborar ao máximo com a implantação de centros culturais e de pontos de leitura, inclusive com a possibilidade de usar algum imóvel." Entretanto, diz que esta não é exatamente uma promessa, já que não há nada concreto.

O fato dela ser uma reconhecida autora de livros infantis e juvenis não vai mudar o andamento das atividades da ABL. "Não misturo os canais. Esta não é uma academia com adjetivo. O único adjetivo ali é o nacional", diz. Ela garante que o gênero já é coberto em debates e que crianças são sempre bem-vindas - mais de 5 mil estudantes foram lá este ano. Eles são recebidos por atores vestidos com roupa de época, que contam a história da Academia e dos acadêmicos. A presidente diz, no entanto, que é difícil ir além. "Não é possível fazer mais do que isso. Você não tem espaço nem tempo porque são duas sessões por dia às segundas, quartas e sextas-feiras."

Para conciliar a nova função ao trabalho de escritora, o único remédio é acordar mais cedo e esticar o dia, diz Ana Maria Machado, que completa 70 anos em 24 de dezembro, e que entrou pela primeira vez na ABL, ainda estudante, na companhia de Manuel Bandeira.

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