O novo lar de Amis

Há seis meses, o escritor inglês se mudou para os Estados Unidos, de onde avalia o seu novo romance, Lionel Asbo

CHRISTINE KEARNEY, REUTERS / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h11

Os fãs do romancista britânico Martin Amis que esperam ansiosamente o seu comentário ficcional sobre o estado da América após sua mudança para as plagas americanas não devem prender a respiração. Vai levar tempo para o aclamado autor, que se mudou para os Estados Unidos há seis meses, penetrar na cultura local como fez no seu novo romance satírico, Lionel Asbo: State of England (Random House, 320 págs., R$ 77,70). Embora ele esteja certo de pelo menos uma coisa nestes tempos de austeridade fiscal: não entende por que alguns norte-americanos querem menos impostos para os ricos.

Lionel Asbo ilustra uma vez mais a percepção do autor sobre a Grã-Bretanha moderna ao explorar os cidadãos da classe trabalhadora de seu país, a estupidez dos tabloides e a moralidade em declínio refletida na cultura da celebridade. Ele foi escrito antes de o autor de Grana, Campos de Londres e outros romances célebres ter trocado Londres por um idílico refúgio de escritor no Brooklyn, e Amis disse que ainda precisa destilar seus pensamentos sobre a luta de classes e a obsessão por famosos nos EUA.

"Eles têm tipos diferentes de vulgaridade - o inglês mais sórdido, o americano mais exibicionista e cosmético, mais kitsch", julgou o escritor de 62 anos sob o pé-direito alto de seu novo lar. "Minha mulher insiste em que não é muito (diferente)..., mas eu não estou tão certo disso." O próprio Amis, amiúde considerado uma das vozes mais inovadoras de sua geração, esteve sob o escrutínio da mídia britânica.

Mais recentemente, alguns críticos observaram que sua decisão de abandonar Londres refletia antes despeito do que a sua razão publicamente declarada de ficar perto da mãe de sua mulher e de seu amigo Christopher Hitchens, autor inglês que morreu em 15 de dezembro do ano passado.

"Foi inventado que eu estava partindo cheio de rancor da Grã-Bretanha e em todas as oportunidades eu falei exatamente o contrário", garantiu ele, que é filho do também escritor e poeta Kingsley Amis (1922-1995).

A resposta imediata nos Estados Unidos a seu novo livro foi morna. O New York Times publicou que Lionel Asbo parece menos um grande romance sobre o "estado da Inglaterra" do que um cartão-postal menor enviado de lá alguns anos atrás". "Incrivelmente condescendente."

O 13.º romance do escritor gira em torno de um anti-herói agressivo, mas por surtos de ternura, Lionel Asbo, cujo último nome resulta de ter recebido, com 3 anos, a Ordem de Comportamento Antissocial (Asbo, na sigla em inglês), uma ordem civil criada na Inglaterra contra condutas que incluem coisas como mendicância, grafite e excesso de barulho. Ao contrário, o sobrinho de Lionel é descrito como um operário modelo em sua busca séria por educação e amor.

Quando Lionel ganha na loteria, recebendo de tabloides o apelido de "Lotto Lout" (algo como o "Matuto da Loteria"), e começa a sair com uma alpinista social, o romance passa a refletir o desejo nascente da sociedade de premiar as ações vulgares de pessoas como as que se encontram nos reality shows da televisão, alcançando alguma notoriedade e fortuna.

"É essa estranha democratização da fama", analisou Amis. "Visto que a celebridade é, A, a nova religião, e B, considerada um direito humano básico agora, você se sente incrivelmente privado se não a tem, não é? Esse é o estímulo para muitos desses atos terroristas, desses massacres." Sem recordar o tabloide exato, ele informou que a ideia para seu novo livro veio de dois recortes de jornal; um deles trazia uma nota sobre um menino tendo um affair com a sua avó.

"Foi provavelmente The Sun, ou pior, The Daily Sport", disse ele, tentando se lembrar do tabloide londrino antes de comparar suas manchetes excêntricas com as reportagem comparativamente mais comedidas de Nova York.

"Comparado ao The Sun, The New York Post é uma espécie de Critical Quarterly ou algo assim", brincou o escritor.

Refletindo sobre os dois países, afirmou que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estavam agora buscando "o terrível mal" da separação entre ricos e pobres, "voltando aos níveis do pós-Primeira Guerra Mundial".

Martin Amis, que se diz de esquerda em política, está indignado com o apoio político americano aos cortes de impostos para os ricos. "Qualquer um diria, espere aí, cortes de impostos para os ricos?" ressaltou ele.

Sua crença pessoal se reflete no slogan do Partido Trabalhista inglês, baseado em taxar os ricos e educar os pobres, e essa visão está presente em Lionel Asbo.

Desdenhou das críticas segundo as quais ele não deveria escrever sobre a classe operária e afirmou que esse tipo de comentário refletia certa ansiedade atual com relação às classes sociais. "Falam de um modo incrivelmente paternalista sobre as classes que pretendem defender."

Quanto aos comentários de que seu último livro, assim como seus mais recentes, não reflete a sua melhor escrita, Amis sente o contrário. Ele está feliz com seu novo romance e menos feliz com os anteriores, "todos eles".

A razão, garantiu ele, pode ser encontrada num ensaio sobre o autor de Lolita, Vladimir Nabokov, que afirma que todo escritor tem uma pontinha de gênio - "sua dádiva divina e aquela qualidade musical" - e talento - que "faz as coisas andarem sabendo com certeza onde cada coisa vai".

"Ocorre que sua genialidade diminui mas seu talento fica mais forte", afirmou o autor.

O próximo trabalho em sua nova base nos Estados Unidos, talvez não seja a obra que seus leitores esperam. Contrariando os conselhos de colegas escritores, avisou Amis, ele agora está "se divertindo" com a criação de um romance sobre o Holocausto. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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