O novo equívoco de John Le Carré

Em A Delicate Truth, escritor abre mão da profundidade e acaba criando história sobre a luta do bem contra o mal

MICHIKO KAKUTANI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2013 | 02h08

O livro A Delicate Truth, o novo thriller do escritor britânico John Le Carré, é tudo menos delicado: argumentativo, conduzido com mão pesada, óbvio - tudo que os romances do início de sua carreira, que lidavam com ambiguidade moral e nuances psicológicas, não eram.

Apesar do autor ter triunfado com Our Kind of Traitor, de 2010, este novo romance se parece mais com Absolute Friends, de 2004, e A Most Wanted Man, de 2008, ou seja, está carregado de fervor ideológico- uma repulsa pela maneira como os EUA e a Inglaterra travaram a guerra contra o terror - que se torna rapidamente em uma história previsível sobre o bem contra o mal.

Como já fez anteriormente, Le Carré toma emprestado um truque de Hitchcock para dar início a seu enredo, jogando dois inocentes em um jogo mortal, no qual há muito a se considerar, que pode prejudicar suas vidas. Kit é um funcionário público britânico de meia-idade, retirado de seu serviço em uma repartição e enviado para uma missão secreta em nome de sua majestade. Toby Bell, de 31 anos, é uma estrela ascendente do Departamento do Exterior, e ocupa o posto de secretário privado do novo ministro da pasta.

Operation Wildlife, a missão que une os dois, se refere à captura de um suposto líder da Al-Qaeda, de codinome Punter. E, apenas para que o leitor entenda que esta é uma história sobre o neo-imperalismo, Le Carré acrescenta à mistura uma empresa privada de armamentos interessada no conflito. E este aspecto fica evidenciado em páginas e páginas de conversas nas quais os personagens falam de hipóteses em que a corrupção e a intriga governamental aparecem a todo instante.

O único elemento capaz de manter o interesse nesse thriller é a escrita atmosférica e cinematográfica de Le Carré, em especial em passagens como a abertura do livro, ambientada em um território britânico de Gibraltar - além, claro, da maneira como ele consegue construir os personagens Kit e Toby. Ao mesmo tempo, porém, tendo em vista as personalidades dos dois, e a voracidade de seus adversário, parece claro que estamos sempre indo em direção a um grande confronto final. E, é preciso dizer, isso não é suficiente para nos levar em direção ao fim dessa história tendenciosa.

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