O 'novo' Brasil, por Spike Lee

Cineasta começa a rodar o documentário Go, Brazil, Go

RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h09

Em viagem pelo Brasil para dar início aos trabalhos do documentário Go, Brazil, Go (Vai, Brasil, Vai, em tradução livre), o cineasta norte-americano Spike Lee - uma das vozes mais ressonantes do cinema mundial, conhecido por abordar a classe média afro-americana em filmes marcados por engajamento político-social - cumpriu o roteiro de celebridades estrangeiras em terras tropicais: conheceu artistas e políticos, atiçou a curiosidade da imprensa, emplacou um encontro com a presidente Dilma Rousseff.

Por pouco, o tour não incluiu também uma apresentação direta ao banditismo nacional. Na quarta-feira, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) discutia a legalidade do sistema de cotas raciais nas universidades públicas, Spike aterrissou em Brasília, assistiu à parte do julgamento (no melhor jeitinho brasileiro, o STF flexibilizou as rígidas regras e autorizou a sua entrada, embora Lee estivesse sem gravata) e foi até o Palácio do Planalto se encontrar com Dilma Rousseff.

Com uma agenda apertadíssima na capital, onde ficou menos de dois dias, colheu depoimentos do deputado Romário (PSB-RJ), do ministro Joaquim Barbosa, do STF, e do senador Paulo Paim (PT-RS), com quem gravou durante duas horas. De volta a São Paulo, deve ficar no País até terça-feira. "Achei-o uma personalidade mundial com a humildade que só as grandes figuras têm. Porque tem muita gente que pensa que é o que não é. Ele é o que é e age com a simplicidade de um mortal", disse Paim ao Estado - o senador é fã particularmente de Malcolm X, que retrata a vida do ativista americano. "(Ele me) perguntou muito sobre a realidade brasileira, racismo, a invisibilidade do negro no Brasil. Você não vê negro na mídia, no governo, e ele disse que não conseguia entender isso."

De um cineasta como Spike Lee, não dá para esperar um documentário cartão-postal, ufanista, exaltando supostas virtudes do povo brasileiro e porcentagens do crescimento econômico. "Como outsider, documentarista, quero encontrar uma história, mostrar quais eventos ocorreram para transformar o Brasil numa superpotência. Estou impressionado apenas com as leituras que fiz, de como uma nova classe média foi formada. Será um processo de aprendizagem para mim", disse o diretor a jornalistas, após encontro com Dilma.

Spike Lee disse que não vai ouvir somente pessoas de esquerda ou direita, mas o "espectro total". Para isso, deve vir para cá repetidas vezes, coletando documentos em curtas temporadas pelo País - e lançar o documentário antes da Copa do Mundo. "Espero conseguir uma entrevista com a presidenta Dilma, nós acabamos de nos conhecer e ela me falou dos obstáculos e metas no seu trabalho", disse ele, que seguiu para uma conversa particular com o ex-presidente Lula. "Faço este projeto com mente, coração, olhos e ouvidos abertos. Se Deus quiser, farei justiça ao povo do Brasil, caso contrário não voltarei mais aqui", disse rindo. "É brincadeira, voltarei para a Copa do Mundo."

O tour pela cidade incluiu visita às obras do novo Mané Garrincha, uma das arenas do próximo Mundial. O cineasta estava com a camisa laranja (mesma cor utilizada pelos operários), pegou o capacete azul e, com a câmera em punho e sentado num caixote, filmou as estruturas da arquibancada. Falou pouco e observou muito.

O cineasta já passou pelo Brasil outras vezes, na mais recente, em 1995, filmou o videoclipe They Don't Care about Us, estrelado por Michael Jackson no Pelourinho e no Morro Santa Marta, no Rio. Agora, com Go, Brazil, Go, quer mostrar a realidade do "novo Brasil" - o escritor Fernando Morais está auxiliando-o na produção do filme.

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