O novo anormal

“A guerra não é para ser vencida, é para ser contínua.” (George Orwell)

Lúcia Guimarães / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 03h00

 

A Coreia do Norte é o abacaxi mais perigoso de política externa para Washington descascar? Ou será a baixa audiência de Arnold Schwarzenegger em Celebrity Apprentice? Como o atual ocupante da Casa Branca parece mais preocupado com o ex-halterofilista austríaco, ex-governador da Califórnia e estrela de cinema que agora o sucede no mencionado reality show, ficamos sabendo dos riscos assustadores das opções para enfrentar o belicismo do ditador Kim Jong-un pela primeira página do New York Times de domingo. Ou melhor, enquanto o presidente tuíta de um smartphone Android hackeável, especialistas do Pentágono, esnobados no Salão Oval e falando em off, tentam capturar sua atenção pela manchete de um dos primeiros jornais que ele lê de manhã cedo, quando assiste a pelo menos duas horas de TV.

O verbo normalizar tem sido usado com enorme frequência nos EUA, mas não no sentido de restabelecer a normalidade, e sim de criar tolerância à exceção. Membros da oposição democrata no Congresso são instados a não normalizar o novo governo. Reitores de faculdades predominantemente negras foram esculachados por alunos depois de posar com o presidente. Nicole Kidman sofreu uma enxurrada de abuso online por sugerir que os americanos devem se conformar com o resultado da eleição. Mas o espetáculo diário de tuítes, declarações radicais desmentidas pelo gabinete, ataques à liberdade de imprensa, ao Poder Judiciário constitui o novo anormal.

O país parece sofrer de uma forma coletiva de Síndrome de Estocolmo. As expectativas de normalidade baixaram tanto que, não só comentaristas à esquerda, como três quartos do público consultado numa pesquisa instantânea consideraram um sucesso o primeiro discurso do presidente a uma sessão conjunta do Congresso, na terça-feira passada. O fato de um estadista conseguir ler o teleprompter pausadamente, num discurso recheado da mesma retórica nacionalista divisiva e marcado por imprecisões factuais foi visto como progresso.

O balão de otimismo foi imediatamente furado pelo nascente escândalo envolvendo o secretário de Justiça Jeff Sessions, acusado de mentir sobre seus contatos com o embaixador russo, escândalo que, por sua vez, foi ofuscado por outra manobra de distração, envolvendo uma acusação grave, pelo Twitter, a de que Barack Obama teria mandado espionar a sede da campanha republicana, na torre da 5.ª Avenida. Não importa que Obama tenha desmentido e que o presidente não possa decidir, por capricho, grampear um candidato de oposição. O frenesi estava criado e, enquanto você lê estas palavras, é possível que tenha sido sucedido por outro, nesta segunda-feira.

Como bem argumentou o autor e acadêmico Tim Wu, no Times, o presidente não sai derrotado quando inventa moinhos de vento a combater, como a inexistente explosão de crime nas cidades. Ele triunfa ao ocupar todo o território de atenção disponível e manter o país num estado permanente de conflagração. A energia que a imprensa poderia devotar a relatar e explicar as consequências do desmonte da política ambiental se esvai em cobertura do teatro de absurdo que é o chefe de estado de um poder nuclear, no espaço de uma hora, acusar Obama de espionagem e acusar Arnold Schwarzenegger de não atrair audiência.

O que acontece se uma crítica de Meryl Streep azedar o humor do presidente quando a inteligência militar descobrir que Kim Jong-un adquiriu a capacidade de atingir o oeste dos Estados Unidos?

Nenhum político americano consumiu tanta atenção, mas atenção não é credibilidade. Quem disse, no fim de semana, que “enfrentamos uma crise de confiança do público que testa a civilização?”. Ben Sasse, senador do Partido Republicano.

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