O novo acadêmico e o futebol

Depois de eleito para a AcademiaBrasileira de Letras (ABL), Paulo Coelho disse: "Eu venho maisou menos como nossa seleção, que começou desacreditada, chegouàs finais e acabou vencendo." Não foi sua primeira metáforafutebolística: em 1994, discutindo o fenômeno da literaturaesotérica, afirmou: "O meu é o chamado estilo Parreira",alusão clara à seleção que venceu a Copa dos EUA. (Essa não é,aliás, a primeira vez que se misturam futebol e academia: em1970, ano do tricampeonato, o general e ensaísta Aurélio LyraTavares, que assinava na juventude poemas românticos com ocodinome de Adelita - A de Aurélio, li de Lyra e ta de Tavares - ganhou uma cadeira na ABL brandindo o cabo eleitoral dopresidente militar Médici e comentou que disputara a vaga"esportivamente".) O fato é que Paulo Coelho venceu. Mas venceu como o timedo técnico Carlos Alberto Parreira, em 1994: sem convencer.Parece ter colaborado a falta de jogo de cintura do adversário,o sociólogo Hélio Jaguaribe, que teria enviado cartas"exigindo" votos. Outro fato: a literatura de Paulo Coelho écapaz de mobilizar multidões. Mas, especialmente no Brasil,nunca foi tratada como obra de grande qualidade, embora tenhaarrancado alguns elogios pontuais: "Apesar dos muitos erros deportuguês, defeitos de redação e imperfeições no uso da línguaescrita (...), o texto é bonito, estimulante e oportuno",escreveu Luís Pellegrini para o Jornal da Tarde, a respeitode O Alquimista (Coelho, no entanto, não aceitou arecomendação de que os erros fossem corrigidos). O mesmo livro,lançado em 1988, rendeu comentários opostos de Marcos Barreto,que o resenhou para o Caderno 2, do jornal O Estado de S.Paulo. "Tentativa de ficção, ao contrário dos anteriores, elenão resiste ao rigor da mais simples análise literária. É linear, previsível, caduco." Sobre Na Margem do Rio Piedra Eu Senteie Chorei (1994), o crítico Geraldo Galvão Ferraz disse: "Oromance de ´um dos maiores escritores contemporâneos´ reúne umcoquetel mal-dosado de misticismo, religião e ficção medíocre,banhado por lugares-comuns em penca e habitado por personagensestereotipados." Apesar de falar de sentimentos nobres e de escrevercolunas de jornal calcadas na busca de "caminhos de luz",amizade e companheirismo, Coelho não é o escritor do coletivo,mas do indivíduo. Não de um indivíduo altruísta, como os doherói da 2.ª Guerra e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry,com quem foi comparado na França, mas de outro, preocupado com opróprio futuro e com a forma como é visto pelos outros. É algoque também pode ser percebido em seu mais recente romance, ODemônio e a Srta. Prym (2000). O livro, último de uma trilogia, narra uma semana na vida de um vilarejo que tem sua rotinatransformada com a chegada de um estrangeiro - que quer saber se, naquela pacata aldeia de 281 habitantes, honestos e cumpridoresde seus deveres, existe também o mal. Talvez essa seja a receita de seu sucesso: umaliteratura aparentemente atemporal, que lembra as narrativasorientais, mas que está, mais do que qualquer outra, conectada àideologia do mundo de hoje. Outro motivo talvez seja o fato deCoelho amealhar "leitores emergentes": a publicação francesaRéponse à Tout sugeriu: "Se você raramente lê um livro, sevocê tiver de ler um só livro no ano ou mesmo em toda a sua vida, vá comprar O Alquimista." Como explicar, então, que um escritor cujos livros sedestinam a leitores pouco experientes alcance uma cadeira da ABL_ supostamente guardiã de nossa língua e literatura? A resposta éque eleições "estranhas" fazem parte da história da academia.Em 1912, a eleição do engenheiro Lauro Müller, até então autorde um mísero soneto, desgostou o crítico José Veríssimo, um dosmais importantes fundadores da academia, que deixou defreqüentá-la. A eleição de Getúlio Vargas, em 1941, é outroexemplo da força do poder sobre a ABL. Também questionada, entretantas outras, foi a eleição do cirurgião plástico Ivo Pitanguy,mas também é verdade que médicos, religiosos e militaresintegram a instituição desde a sua fundação. Mais cômica detodas foi a demora em aceitar mulheres na instituição, uma brigaque começou nos anos 1950 e só foi terminar em 1977, com aeleição de Rachel de Queiroz. A resposta é que a ABL é, antes de tudo, um clubepolítico e literário e um clube de chá, cujos sócios têm amigose interesses, que ora escolhem gente de gabarito literário eintelectual inegável (Rachel, Ariano Suassuna, Lygia FagundesTelles, Raymundo Faoro, por exemplo), ora se movem por razõesmundanas. Paulo Coelho, sem dúvida, não está entre os pioresacadêmicos. Se não por outra razão, porque conhece as leis domarketing como nenhum outro escritor de nosso tempo, sabe criarfactóides (como lançar sua candidatura fazendo uma noite deautógrafos na ABL) e fatos e convenceu muito críticointernacional (ao contrário do que disseram alguns acadêmicos,não é o caso de levar isso a sério; Patrícia Melo acaba de sersaudada na Inglaterra como uma grande escritora por Inferno,que não passa pelo crivo de ninguém sério no Brasil). Nós, no entanto, que entendemos de futebol, sabemos queaquele time do Parreira, de 1994, não merecia admiração. Aocontrário do time do Corinthians que Parreira dirigiu neste ano,comandado por Ricardinho, que praticou um futebol previsível,porém corajoso e encantador, e não apenas pragmático. ComoCoelho vai continuar a escrever por muito tempo e como não ébobo, o que se espera é que ele um dia venha a "jogar bem" -para merecer todos os títulos que já conquistou.

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