Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O nome da serpente

Na sua peça The Coast of Utopia, a Costa da Utopia, Tom Stoppard põe na boca de Michael Bakunin um pensamento sobre a queda que condenou o Homem à infelicidade. “Uma vez”, diz Bakunin, “há muito tempo, no começo da História, éramos todos livres. O Homem integrava-se com a natureza e vivia em harmonia com o mundo, e, portanto, era bom. E então uma serpente entrou neste paraíso”.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 02h00

*

Para o anarquista Bakunin, o nome da serpente era “Ordem”. Matéria e espírito se separavam. O Homem não era mais inteiro, mas impelido por ambição, cobiça, ciúmes, medo. O conflito tornou-se a condição da sua vida – o indivíduo contra seu vizinho, contra a sociedade, contra si mesmo – e a Idade de Ouro acabou, segundo Bakunin. A serpente trouxera a desordem. O Homem só poderia criar uma nova Idade de Ouro e tornar-se livre outra vez destruindo o que tinha destruído seu paraíso. A ordem.

*

Para um socialista, ao contrário, ordem – ou organização social – é o que salva o Homem da sua pior natureza. Evita conflitos e traz a harmonia, portanto não é um bom nome para a serpente. Já para um fascista, só a submissão a uma ideia e a uma autoridade integradoras traz a felicidade, ou a ordem no bom sentido. Como elogio, não como nome de serpente. E para um liberal, se a serpente nos tirou do paraíso, mas inaugurou o homem competitivo, então viva ela, seja qual for o seu nome.

*

Que nome merece a serpente? Acho que um bom nome seria “Precisão”. Foi quando desenvolveu o dedão opositor e se tornou capaz de, primeiro, catar pulgas com mais eficiência e, eventualmente, esgoelar o próximo e fabricar e empunhar instrumentos sem deixar cair – enfim, quando se tornou preciso –, que o Homem começou a sair do paraíso. Acabou a Idade de Ouro da inabilidade digital, que nos igualava aos outros animais e nos impedia gestos especulativos, como o de segurar um cristal contra o Sol e ficar filosofando sobre a luz decomposta em vez de se integrar com a Natureza como um bom bicho.

*

O dedão opositor está nas origens do arco e flecha, daí para o zíper e as centrais nucleares foi um pulo – no abismo. A nossa queda começou pelo polegar.

*

Na mesma peça, o Bakunin de Stoppard consola um amigo, desesperado com as seguidas derrotas do seu ideal socialista pelo reacionarismo. “A reação é apenas a ilusão ótica do rio que parece correr para trás, quando o rio corre sempre para o mar, que é a liberdade ilimitada e indivisível!” Um consolo para desesperados de todas as épocas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.