O new look da Dior

Ao nomear o discreto Raf Simons seu diretor criativo, grife deixa para trás a conturbada era Galliano

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2012 | 03h09

Na era do fast fashion, em que a moda é tão volúvel e descartável quando velhos costumes, valores e padrões, não é de se estranhar que há muitos que definem esta como a Era do Fim das Grandes Maisons. Há quem diga que, entre as mais tradicionais, só sobraram Chanel e Dior. Esta última, aliás, enfrentou no último ano um furacão chamado John Galliano. E passou os últimos meses em busca de um nome que estivesse à altura de ser o quinto estilista à frente da grife fundada por Christian Dior em 19 47.

Era enorme a responsabilidade de encontrar um substituto para Galliano, que imprimiu sua extravagêcia à grife, mas foi demitido em fevereiro de 2011 após escandâlo em que foi acusado de anti-semitismo. Sem contar que antes, o trono foi ocupado por seu fundador, por Yves Saint Laurent (que substituiu Dior logo após sua morte precoce, aos 52 anos, vítima de um ataque cardíaco, em 1967), Marc Bohan (que assumiu em 1962, quando Saint-Laurent abriu sua própria Maison), Gianfranco Ferré (primeiro não francês a assumir o cargo em 1989) e, finalmente, o britânico Galliano.

A julgar pela fama histriônica de Galliano, era de se esperar que outro nome high profile surgiria. Marc Jacobs, da Louis Vuitton, era um dos mais cotados, ao lado de Alber Elbaz, da Lanvin, Riccardo Tisci, da Givenchy, entre outros.

A escolha de Raf Simons não poderia ter sido mais surpreendente. Discreto, com fama de low profile e tímido, aos 44 anos, Simons costumava atender ele próprio o ateliê de moda masculina que mantém na Antuérpia, além de ser o nome à frente da germânica Jil Sanders. Para completar, só começou a criar moda feminina em 2005. Detalhe: nunca havia se aventurado pelo binômico agulha e linha da couture (como a alta costura é chamada entre os fashionistas).

O que esperar então de seu primeiro desfile pela maison de luxo? Ainda que ele tenha levado a cor à sempre minimalista Jil Sanders (famosa por sua moda pragmática, perfeita para as executivas), seu estilo discreto estava anos luz da personalidade forte e extravagante que a maison construiu em seus 66 anos. Prova de que a Dior está mesmo querendo deixar para trás os anos de exageros de Galliano.

Na segunda passada, na plateia de seu primeiro desfile pela grife, durante a Semana de Alta Costura de Paris, os convidados estavam ansiosos. Emmanuele Alt, editora da Vogue francesa, afirmou ao New York Times que 'iria ver algo que nunca tinha visto antes." Nem ela, nem mesmo os Ceos da Dior, Bernard Arnault (diretor da Dior e do grupo LVMH Moët Hennessy • Louis Vuitton S.A, que detém ações da Dior) sabiam o que esperar. Muito menos os convidados ilustres, entre eles, Anna Wintour (editora da Vogue America), Ms. Versace, Marrion Cotillard, Pierre Cardin, entre outros.

Em uma passarela improvável, mas possível, de uma mansão parisiense de cinco andares, cada um decorado com papéis de parede de flores, o que se viu foi um desfile ultra feminino e contemporâneo. Dividido em quatro salas ultra coloridas em tons de delfinos azuis, amarelo mimosa, e branco orquídeas, o público assistiu a uma sucessão de looks cujas cores e formas contrastavam, e se complementavam, ao cenário. Dior dizia que criava moda para a 'mulher flor'. Simons sabe muito bem disso e busca nos ícones da grife para criar esta a primeira coleção do resto de sua vida, e da vida da marca. Ao voltar ao passado, propõe um futuro em que clássico e contemporâneo se encontram e formam um presente híbrido.

Basta pensar na combinação da cintura marcada dos vestidos de gala, que evocavam o clássico Tailleur Bar (criado por Dior no Pós-Guerra, que devolveu o direito de ser feminina às mulheres endurecidas pelos tempos de austeridade) com as formas arquitetônicas propostas por Simons. Impecável o casaco vermelho de cashmere com bolsos laterais. Dior adorava bolsos e achava que bem posicionados poderiam deixar quem os usasse mais longilíneos. Simons também sabe disso e trouxe o recurso até nos vestidos de noite, cujas saias godê midi também evocam o clássico New Look.

A atmosfera anos 50 dos vestidos de noite ganhava modernidade com versões tie-die e saia mais estruturada, em tule, lã e organza. Não faltaram combinações de tops tomaras-que-caia e peplum com calça cigarette, enquanto as transparências se equilibravam com saias bordadas. Impossível não encher os olhos com o meticuloso bordado, cujas milhares de miçangas, de longe, faziam com que um 'simples' casaco parecesse um casaco de pele.

Simons pode fazer o tipo low profile, mas sua estreia não poderia ter sido chamado mais atenção.

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