O negócio dos livros no mundo árabe

Feira de Abu Dabi atrai editores de vários países para comprar e vender títulos

MARIA FERNANDA RODRIGUES, ABU DABI, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h09

Um editor sírio que há um ano não consegue voltar para seu país em guerra, que está refugiado com a mulher e os filhos na Jordânia e não faz ideia do que aconteceu com os livros de sua editora Bright Fingers que ficaram em Damasco. Um escritor, também sírio, esperando convite para lecionar em alguma universidade, pois não voltará para casa agora. Uma agente literária alemã vendendo direitos autorais de títulos da brasileira Callis. Uma brasileira ensinado a preparar casquinha de siri. Esses são alguns personagens que circulam desde quarta na Feira do Livro de Abu Dabi.

Até segunda-feira, editores marroquinos, egípcios, tunisianos, libaneses, palestinos, líbios, argelinos, somalis, sauditas e de alguns países de fora do mundo árabe se reúnem na capital dos Emirados Árabes para vender livros, fazer contatos, atualizar-se - há uma série de palestras para profissionais, como na Feira de Frankfurt que, aliás, foi parceira do evento árabe até 2012 - e negociar direitos.

Há cinco anos, a organização teve a ideia de oferecer apoio financeiro a quem comprasse, na feira, os direitos de um livro estrangeiro para publicação em árabe ou o contrário. Deu tão certo que já foram concedidas 500 bolsas de edição no valor de US$ 1 mil cada uma.

"Em parte, queríamos incentivar as pessoas a virem à feira, mas também queríamos ensiná-los a comprar do jeito certo. Havia muita pirataria", conta Lynette Owen, diretora da Pearson e responsável pelo espaço.

O valor oferecido pode não ser alto, mas é de grande valia. Com a crise política nos países árabes, a situação econômica se complicou. Tanto que em 2012 os expositores da região tiveram 50% de desconto na compra dos espaços. "Este ano, resolvemos não cobrar dos sírios", explica Irum Fawad, gerente de Marketing da feira. Com exceção dos estandes institucionais, não há ostentação e são todos semelhantes.

Há similaridades com eventos do gênero no Brasil - não no quesito simplicidade de estande. Para entreter as crianças, pintura no rosto, trabalhos manuais, bexigas; às vezes, uma história. Nem todos os debates lotam, mas a participação do público é efusiva, seja nos comentários sobre os livros em discussão, seja quando se trata da Primavera Árabe. Ao contrário das bienais brasileiras, o silêncio é uma bênção. E o que causaria histeria, como a sessão de autógrafos com o capitão da seleção de futebol do país Ismail Matar, se transforma em furor contido. Mas há horas em que o silêncio é quebrado: na cozinha que abriga conversas sobre gastronomia e preparo de receitas.

A bibliotecária Latifa, que cuida do espaço, usa a música para atrair os visitantes. E ao som de Ivete Sangalo e Elba Ramalho, a plateia se prepara para um encontro com as "brazilian ladies", grupo de mulheres de funcionários da Odebrecht e familiares de jogadores de futebol e lutadores de jiu-jítsu. Adrianna Kezh, que vive há seis anos em Abu Dabi, ensinou a fazer casquinha de siri e contou que quer publicar um livro em inglês com receitas do Brasil. Também quer pedir para criarem uma sala de leitura na embaixada. "Não tem nada de literatura brasileira aqui. Vivemos trocando livros", comenta.

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