Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

O nazismo abordado de forma inédita

'Meu Melhor Inimigo', de Wolfgang Murnberger, é obra desconcertante

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

Tem gente até agora se perguntando o que um filme como Meu Melhor Inimigo faz na seleção oficial da Berlinale? Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que, embora homônimo, não tem nada a ver com o documentário de Werner Herzog sobre sua parceria com o ator Klaus Kinski, pai da bela Nastassia. Meu Melhor Inimigo, Mein Bester Feind, passou fora de concurso. Foi saudado com aplausos. O desconcerto deve-se ao fato de se tratar de um filme de aventuras, bem-feito mas fantasioso. Não é o que se espera, ou que os críticos esperam num festival de cinema.

Dieter Kosslick, o diretor da Berlinale, deixou a cabeça do lado de fora. O filme começa com um grupo de partisans que derruba um avião. Moritz Bleibtreu sobrevive. Das ruínas da aeronave, ele tira outro sobrevivente, não sem antes bradar aos céus - Deus, que cruel ironia é essa de fazer com que ele tenha sobrevivido? Meu Melhor Inimigo propõe um singular jogo de troca de identidades. Um jovem judeu rico, filho de importantes galeristas, tem, esse amigo, filho da empregada. Os dois são inseparáveis, até que o outro, como Messala em Ben-Hur, traia o amigo.

O filho da doméstica vira oficial do Reich e, como tal, termina enviando a família dos antigos patrões para os campos de concentração. Esse é o quadro histórico. A trama refere-se à posse de um desenho original de Michelangelo que o Führer, lá pelas tantas, quer presentear ao Duce, como prova de união. O desenho some. O agora oficial dos SS resgata o antigo amigo e, como prisioneiro, o leva nesse voo de avião, para tentar recuperar o original.

Seguem-se duas horas de emoção ou nonsense, depende da sua adesão (ou não). O avião cai, o prisioneiro assume o lugar do oficial. Isso é inédito no cinema alemão, ou em qualquer cinematografia, quando se trata de abordar o nazismo. O diretor Wolfgang Murnberger diz que sempre o incomodou muito em A Lista de Schindler, apesar de todas as qualidades do filme de Steven Spielberg, o foco correto que faz com que os judeus sejam vítimas da história. Por uma vez, o judeu é o herói.

Meu Melhor Inimigo poderia se chamar O Judeu Que Enganou Hitler. A trama envolve honra e afeto, traição e ambição. Até o último minuto, depois da guerra, permanece a corrida pelo desenho. A obra permite múltiplas leituras. O judeu é um aristocrata esclarecido, membro de uma elite. O nazista é um arrivista, um proletário que, como diz o pai do herói, não poderia ter feito sua escalada social senão se juntando à escória (os nazistas).

Nada disso é frequente nem sequer plausível no cinema de aventuras, que joga muitas vezes com os clichês. Murnberger de alguma forma está sempre querendo subverter os clichês. Antes de Meu Melhor Inimigo, havia sido projetado o filme turco da competição. Our Grand Despair, de Seyfi Teoman, é muito interessante, mas também desconcerta. Logo no começo, uma garota é confiada pelo tio aos cuidados de dois amigos. Os pais da jovem morreram. Os amigos são solteirões que moram juntos. Sentem-se atraídos pela garota, mas a olham como a um impossível objeto de desejo. Ela engravida e aborta. Eles seguem solidários, mesmo se tristes.

Durante todo o tempo, há uma pergunta que não quer calar - os dois caras formam um par gay? O diretor e os atores juram que nunca pensaram nessa hipótese e a sensação é de que não entenderam o filme que fizeram. Independentemente disso, Our Grand Despair é simpático, envolvente e o elenco é ótimo. É mais do que se pode dizer de Um Mundo Misterioso, do argentino Rodrigo Moreno. É o diretor de El Custodio. Havia grande expectativa pelo filme. Desmoronou.

Um Mundo Misterioso começa na cama em que o protagonista leva o fora da namorada. Ela lhe pede um "tempo". Ele pergunta quanto? Durante todo o filme, ele corre atrás de outras mulheres, faz sexo com algumas, mas segue atado à primeira. O filme fecha um ciclo no fim. Um Mundo Misterioso versa sobre o quê? Alguma coisa a ver com a inutilidade - da vida? Do esforço? Dois filmes argentinos na Berlinale, o de Moreno e o mexicano-argentino de Paula Markovitch, El Premio. Esses dois sim, você chega ao fim sem saber por que estão na competição de um festival como Berlim.

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