O nascimento de uma orquestra

Fazer música em conjunto implica, basicamente, que os instrumentistas se ouçam uns aos outros. Somente assim conseguirão construir um conjunto coeso ? e nesta tarefa, sem dúvida, é decisiva a contribuição do maestro. Mas quando falamos de orquestras de teatros de ópera, os músicos precisam ficar duplamente antenados, com um olho no maestro, outro no palco. A integração, portanto, deve ser ainda maior e envolve um grande número de variáveis.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2010 | 00h00

Antes disso, porém, a orquestra deve impor-se como elemento bem estruturado da chamada obra de arte total, que é a ópera. Os 54 integrantes da recém-criada Orquestra do Teatro São Pedro, corpo estável especificamente dedicado às montagens líricas, passaram, é verdade, por um processo de seleção. Foram mais de 700 candidatos, declarou Andrea Matarazzo, novo secretário de Cultura, sobre o concerto que marcou o nascimento da sinfônica.

Dos 54 músicos agora empregados com salário médio mensal de R$ 3.000, no entanto, mais da metade ? 30, segundo o regente titular Emiliano Patarra ? emigrou da Orquestra Jovem de Guarulhos (da qual Patarra também é regente). O que poderia ser uma vantagem não se demonstrou na estreia. Cordas inseguras, madeiras tímidas e desencontros frequentaram em quantidade além do razoável os trechos de óperas de Carlos Gomes que constituíram o programa do concerto inaugural. Sobretudo na "Protofonia" de Il Guarany, na abertura da Fosca e no prelúdio orquestral Alvorada de Lo Schiavo.

Apenas o início. O voto de confiança é fundamental neste momento. É natural e fundamental que o São Pedro monte suas óperas com a orquestra da casa. Anote-se ainda que foram apenas oito ensaios. E como, segundo Patarra, a orquestra vai ensaiar 3,5 horas de terça a sexta-feira, supõe-se que estes são problemas típicos do parto de uma orquestra. De igual modo, esperava-se mais do coral preparado por Mara Campos, cujos membros contam com ajuda de custo de R$ 300 mensais. Não teve nenhum brilho em suas participações. A insegurança da orquestra alastrou-se para o coral. Mas, de novo, foi apenas a estreia.

É preciso seguir de perto o coral e a sinfônica e aguardar o trabalho dos experientes maestro Roberto Duarte, diretor artístico, e Mara Campos, nas tarefas complexas de construir de fato conjuntos homogêneos de instrumentistas e cantores com DNA próprio, capazes de chegar um pouquinho mais próximo da qualidade superlativa do quarteto vocal, que brilhou de modo formidável.

A maravilhosa soprano paraense Adriana Queiroz, dona de belo e poderoso timbre e ótima afinação, começou bem na Marcha e Coro Nupcial da Fosca; e colocou o público a seus pés, com inteira justiça, na ária de Ilara "Oh, come splendido e bello Il sol... Come serenamente" e na cena "Inno della Libertà" fazendo a condessa de Boissy, ao lado do coro, de Lo Schiavo.

O notável barítono Lício Bruno não é surpresa para ninguém. Foi muitíssimo bem na ária de Colombo "Era un tramonto d"or". Tanto quanto o magnífico baixo Saulo Javan, que vai fazer Bartolo no Barbeiro de Sevilha na primeira montagem da Companhia Brasileira de Ópera. Seguro, Saulo foi irretocável na "Invocazione do Cacique: O Dio degli Aimorè", de Il Guarany. Competente também o tenor Sergio Weintraub, que, no entanto, não teve nenhuma ária isolada.

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