O nascimento da história

Volume com clássicos da disciplina realiza mapeamento da fértil e variada produção historiográfica do século 19

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Descrições literárias fascinantes, sobriedade em frases cadenciadas e alguns esquetes deliciosamente pitorescos. Não, não estamos falando daqueles clássicos da literatura, estamos nos referindo ao estilo dos grandes historiadores oitocentistas: Michelet, Chateaubriand, Carlyle - que escreveram suas obras num século no qual as credenciais para se escrever história eram as mesmas exigidas se para produzir literatura. Nunca é demais repetir o clichê de que o século 19 foi o "século da História", sobretudo para lembrar que foi nessa época que a história nasceu como disciplina autônoma, rompendo com a literatura e com o ensaio filosófico, começando a voar com as próprias asas. No esforço para aproximar a história dos paradigmas científicos, os historiadores foram convocados para a missão de forjar a narrativa nacional, realinhar o passado dilacerado pela Revolução de 1789 e delinear o porvir das sociedades. A coisa toda só desandou lá pelo final do século, com as crises econômicas, as guerras coloniais e o fim do equilíbrio europeu que redundaria no cataclismo da Guerra de 1914. Seja como for, o leitor pode conferir tudo isso, agora pela voz dos próprios historiadores, no volume organizado por Jurandir Malerba, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, intitulado Lições de História: O Caminho da Ciência no Longo Século XIX. Trata-se de uma coletânea de feitio raro, quase diríamos - com o perdão da redundância - uma "edição antológica" de textos dos grandes historiadores do século 19, acompanhada de excelentes estudos introdutórios elaborados por historiadores brasileiros.

O único não-brasileiro presente no volume, mas já bastante conhecido por vários livros aqui publicados, é François Dosse, que escreve o capítulo de apresentação, realizando um mapeamento de toda a fértil e variada produção historiográfica do século 19. Depois disso é possível passear por uma amostragem quase completa de textos de 18 historiadores, cada um refletindo sobre o seu próprio ofício e esforçando-se por dizer ao leitor muito simplesmente o que é a história e como escrevê-la. E lá estão tanto historiadores mais conhecidos do leitor brasileiro, como Michelet (com acurada apresentação de Lilia Schwarcz), Carlyle (com detalhado estudo de Malerba), quanto historiadores pouco conhecidos e, não raro, inéditos em nossa língua, como Pierre Danou (traduzido e apresentado por Daniela Kern) Gabriel Monod (apresentado por Teresa Malatian) ou Henri Beer (apresentado por José Carlos Reis).

Do incrível vitalismo lírico e algo histriônico de Michelet e Chateaubriand, em contraste com o organicismo frio e metódico de Fustel de Coulanges e Ranke - é difícil resistir à tentação de comentar todos os textos sem incorrer em alguma injustiça. Mas lá encontramos o texto integral do famoso curso que Danou ministrou no Collège de France, entre 1819 e 1830. Famoso, sobretudo porque as regras enunciadas por Danou "para ser um bom historiador" acabaram parodiadas pelos mais diversos escritores. A mais conhecida dessas paródias é a de Flaubert em Bouvard e Pécuchet. Agraciados por uma providencial herança e cansados de serem humildes copistas dos eventos humanos, Bouvard e Pécuchet decidem-se a procurar um autêntico sentido para suas vidas tentando aprender sucessivamente os mais variados ofícios e profissões. No capítulo no qual decidem experimentar as tarefas do historiador, recorrem exatamente às regras para estudar os documentos, sugeridas pelo curso de Danou. Uma dessas regras é maculada pela paródia corrosiva de Flaubert: "O bom historiador deve levar em conta a esperteza dos falsários, o interesse dos apologistas e a maledicência dos caluniadores." O leitor pode conferir, no próprio texto de Danou, quanto a paródia flaubertiana passava longe da simplicidade encantadora, e não destituída de certa atualidade, do historiador: "A mais santa das obrigações que essa função nos impõe é pesquisar escrupulosamente a verdade e expô-la com franqueza. Ninguém é verídico, nem razoável, nem imparcial impunemente: e quando se tem medo de ser sincero, é preciso não se envolver na escrita da história, nem em seu ensino."

Na espinhosa e ingrata tarefa de organizar uma antologia, Malerba saiu-se muito bem, tornando acessíveis, tanto ao especialista quanto ao leitor textos de historiadores muito citados, pouco lidos e ainda menos entendidos. Mas, como sempre, haverá objeções. A opção de começar por Voltaire - mesmo este não sendo um autor cronologicamente oitocentista - está plenamente justificada. Mas aí, mesmo ao não especialista, vem a pergunta inevitável: por que Voltaire e não Edward Gibbon - considerado, por muitos, o fundador das notas de rodapé historiográficas - e que nos legou instigantes observações de método nas Memoirs of My Life and Writings?

De qualquer forma, a antologia é mais do que bem-vinda e, quiçá, possa temperar um pouco esta atual efervescência do público por história. Talvez para compensar um déficit coletivo de horizontes futuros, cada vez mais fechados ou imprevisíveis, o grande público se vê arrastado por uma espécie de compulsão por visitar e revisitar o passado e lê cada vez mais livros de história. Tanto melhor: com certeza, eles se revelam bem mais úteis que alguns inomináveis compêndios de autoajuda. Mas o tipo de história consumida pelo grande público tem muito pouco a ver com a prática dos historiadores do século 19. Eis um motivo a mais para que esta antologia tenha lugar de destaque nas estantes de história - e sirva como provocadora iniciação ou saboroso aperitivo para leitura dos clássicos.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS,

DE RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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