O mundo visto da janela

Em Cosmópolis, de Cronenberg, a vida passa dentro de uma limusine

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h10

Brad Pitt passou pela Croisette sem Angelina Jolie, que permaneceu em Hollywood - cuidando das crianças e filmando (quase no quintal de casa). Mesmo que os dois tivessem pisado juntos no tapete vermelho, o casal não teria feito o furor provocado por Robert Pattinson e sua 'Bella', Kristen Stewart. Ele foram separadamente à projeção de Na Estrada, On the Road. Ela entrou com a equipe do filme de Walter Salles. Trocaram um beijinho dentro do palais, quando ela se levantou de seu lugar e foi falar com ele, um pouco adiante. No YouTube, você vê os beijos mais calientes dos dois na festa do filme, no terraço do Cassino de Cannes.

Ontem foi a grande noite de Pattinson na Croisette. O tempo não ajudou - ventou, choveu. Ele fez a montée des marches com David Cronenberg. Cosmópolis era um dos filmes mais aguardados da seleção oficial. A adaptação do romance de Dom DeLillo decepcionou? De certa maneira, sim. O filme é muito frio e teatralizado e isso, que pode ser fascinante, também estabelece um limite. Mas a verdade é que, no contexto do festival, é um filme esclarecedor.

Diretor artístico da seleção oficial - o que significa que ele escolheu os filmes que competem pela Palma de Ouro e os da mostra Um Certain Regard -, Thiérry Frémaux selecionou obras que dialogam entre si. Robert Pattinson passa quase todo o tempo de Cosmópolis dentro de uma limusine branca. Há mesmo um momento em que ele se pergunta - aonde vão todos esses carros, à noite? A plateia do palais veio abaixo, rindo, porque a pergunta remete à cena final de Holy Motors, do francês Leos Carax, em que as limos são recolhidas a uma garagem e dialogam - sim, falam - entre si. A limo é a morada blindada de Eric e nela o golden boy das finanças come, faz sexo, planeja suas investidas para aumentar a fortuna e o poder.

Eric/Pattinson quase não sai de sua limo. O mundo é que entra nela, representado por um número de personagens aproximado aos de Carax. No universo de Cosmópolis, o rato está virando a moeda de troca do mundo, e isso provoca reações de manifestantes (como do mercado em geral).

São necessárias drásticas medidas para enfrentar as 'situação' e nisso Cosmópolis se aproxima de Cogan - Killing Them Softly, de Andrew Dominik, em que Brad Pitt é contratado para eliminar indesejáveis que estão causando tumulto nas finanças do submundo.

Tudo isso é bem interessante e é realçado por uma mise-en-scène que cola a câmera quase na cara de Robert Pattinson. Essa proximidade excessiva é para celebrar a qualidade de 'divo' do ator? Para distrair o público de suas limitações? Seja o que for, o recurso funciona, mas isso não impede que Pattinson seja devorado por Mathieu Amalric numa cena magistral, como você poderá confirmar quando a Imagem lançar o filme no País.

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