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O mundo vai acabar

O mundo passou dos mil, mas não passa dos 2 mil!

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2014 | 02h06

Ouvi isso aos 11 anos.

Não se falava em Antropoceno e aquecimento global. Éramos etnocêntricos e eu temi menos o fim do mundo apocalipse do que a minha idade no apocalipse. Com 62 anos, eu seria mais velho que papai!

Mas o futebol e o amor, fizeram-me esquecer o fim do mundo. Ele retorna novamente com o aquecimento global e a crise do capitalismo consumista. É imperioso descobrir o suficiente e direcionar ambições.

Não há lógica no roubo de bilhões feito nas encruzilhadas entre Estado e sociedade porque quem paga a conta é o Brasil. Afora isso, sei que o mundo vai acabar.

No século passado pensava-se em limites. Hoje, eu prefiro falar do meu passado (o qual, penso, conheço razoavelmente) do que do futuro do País o qual se já não se f..., a Deus pertence, como dizia minha avó.

Entrei no mundo por meio do futebol e no universo da individualidade quando descobri o sexo. Falava do meu time sem nenhuma delação premiada; mas o sexo era tão obscuro como a corrupção que assola o País.

- O que é sutiã?

Para achar a resposta, começamos a ver a empregada tomar banho. Vestir o sutiã sinalizava o fim do espetáculo e tivemos uma resposta. Mas a travessura vazou e a porta foi trocada. Acabaram com o show da empregada, mas começamos a espiar a mulher do vizinho, que mudava de roupa sem fechar a janela.

Entre o cinema e as histórias em quadrinho, vivíamos o sexo indo ao banheiro com uma revista debaixo do braço. Tal como hoje defecamos lendo a notícia malcheirosa de um Brasil que como aquele bloco do carnaval de João Ternura, de Aníbal Machado, dá um passo pra frente e três pra trás.

O banheiro era o único lugar da solidão. Nele surgia o cidadão moderno livre, totalmente inexistente debaixo da supervisão familística porque, "menino não tem vontade"; e Deus - onipresente - nos via em todo lugar, sobretudo no banheiro.

Éramos entidades infra-humanas: "meninos". O mundo tinha "gente grande" e "crianças". Fui muitas vezes expulso da varanda porque "a conversa não era para criança!". Como "meninos", não éramos filhos e netos mas "diabos" e "cornetas". Quando lembravam da travessura de espiar a empregada - virávamos patifes!

O mundo tinha pobres e ricos; brasileiros e estrangeiros (ingleses beberrões que gostavam de clubes). A oposição entre brancos e negros que viviam na casa, mas não eram parte da família, era tabu. Ninguém deveria ser assim chamado numa óbvia sobrevivência de uma escravidão embargada.

Os grandes eram, além de adultos, misteriosamente homens e mulheres. Como soubemos? Todos eram obrigados a comer numa mesma mesa, mas a dormir em camas separadas. Entretanto, pai e mãe e até mesmo vovó e o "velho Raul" dormiam em camas de casal. Por que a comunhão na mesa e nas camas dos casais, as quais correspondiam a quartos separados e com chave enquanto todos nós, "meninos" dormíamos sozinhos?

Pensei muito sobre a cama e a mesa quando morreu uma colega, a professora nos obrigou a ir ao velório e, pela primeira vez, vi a máscara de cera dos mortos no corpo da menina que jazia em cima da mesa, na sala de jantar.

A mesa era uma cama de pés altos onde os mortos não acordavam. A cama, era uma mesa de pés baixos na qual os vivos amavam, dormiam, o sonhavam e experimentavam um arremedo da morte. Estudava-se e comia-se na mesa. Nela eu vi minha mãe fazendo um copo girar, em volta de um alfabeto, formando mensagens enviadas pelo espírito de um tio morto. Mensagens que, logo descobri, eram desejos de minha mãe.

Os "grandes" tinham sexo. Nas casas com animais de estimação, a divisão surgia mais nitidamente. Num lar de amazonenses que queriam falar de tudo, menos de índios, selva e bichos, a identidade de gênero era encoberta pela de idade. E um dia, um de nós quis saber o que era uma mulher.

- Elas sangram mensalmente e usam Modess, disse alguém.

- E os homens usam Midess jurou um outro que "passava a mão" na prima e, como especialista, sabia que elas não tinham nada entre as pernas, exceto um vale ondulado e escorregadio como uma geleia.

Esses eram tempos em não havia limite para quem estava no poder. Hoje, evoluídos e cientes do fim do mundo, temos múltiplas escolhas. A liberdade e os direitos criaram a consciência do palco e dos privilégios e deveres dos papéis. Quando eu era juvenil, a paixão estava na política que dominava até mesmo o nosso erotismo. Do mundo de hoje, eu nada sei. Penso que ainda existe amor e paixão e muita insegurança e confusão. E se isso existe, então há esperança.

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