O mundo segundo Lagerfeld

"Moda é mudança. Expressão da alma de um momento. Ainda que seja muito importante, não é arte. É artesanato", diz

FLAVIA GUERRA / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h10

Durante a conversa com o Estado, Karl Lagerfeld falou da necessidade de sempre se reinventar e do que é moda e fashion hoje. E explicou: "Uso luvas porque são bacanas, divertidas. Tenho toneladas. Não é para esconder manchas na pele. Nem para aquecer a mão. E quando alguém me pergunta: Por que você está usando luvas? Eu respondo: 'Por que você usa sapatos?'"

Faço parte da geração anos 80, que cresceu usando sapatos de plástico, um produto para a classe média. Só décadas depois se tornou um artigo fashion. Como é associar seu nome algo que não remete à alta costura?

Ótimo. A Melissa se tornou fashion ao se reinventar. Esta é a melhor coisa que alguém pode fazer. Reinventar-se sempre. Temos sempre que repensar o que é nobre e do que não é.

Plástico é nobre ou fashion?

Os dois. Mas eles já haviam feito parcerias com nomes como Zara Hadid e Vivienne Westwood. Adorei trabalhar com o material. Desenhar os modelos foi fácil. Difíceis eram as questões técnicas. Diferente do couro, quando se trata de plástico, tudo muda.

Você é famoso por sua capacidade de se reinventar sempre.

É preciso. E não tinha nenhuma relação com o Brasil. Quando surgiu o convite, achei que seria interessante fazer algo em parceria com os brasileiros.

Os brasileiros não têm tradição e projeção mundial na moda.

Vocês estão fazendo bem. Têm que lutar com criatividade, inventando coisas novas.

Seu nome está ligado ao luxo. Mas sua marca, Karl Lagerfeld, unificou a linha cara e a popular para criar um meio termo. Não teme se associar ao popular?

Medo nenhum. Gosto da ideia de criar ou o "mais caro" ou o "menos caro", mas jamais o "barato". Pessoas são baratas, mas a moda tem que ser acessível. Sou muito bom na alta costura, mas isso não significa que não possa fazer o oposto.

O caro é melhor e mais fashion?

Não. Pelo contrário. A noção de que para estar na moda é preciso comprar coisas caras é antiga. O mesmo com design. Há móveis bons a preços populares.

A ideia do que é moda mudou?

Moda hoje é completamente diferente do que era há dez anos. O mundo mudou. É bom. As coisas não podem cristalizar. Um país que se apega demais ao passado não tem futuro.

Você foi o primeiro a criar para a H&M e causou revolução. Isso mudou sua forma de fazer moda?

Completamente. Sempre quis isso para a minha própria marca (Karl Lagerfeld). Se quisesse ser como Fendi ou Chanel, teria de gastar bilhões. Sempre quis que minhas criações fossem usadas pelo máximo de pessoas possível. Finalmente consegui.

Mas em geral estilistas querem o contrário, ter seu nome associado ao raro e exclusivo.

Sim. Mas um estilista que faz coleções populares ainda é um estilista. É o mesmo ofício. Não é porque é mais popular que tem de ser mal feito, sem graça ou feio. Esta ideia é ultrapassada.

No Brasil, ainda há a ideia de que o fashion é caro.

É passado. Não há razão para se gastar fortunas ou se vestir mal se você não tem muito dinheiro. É preciso que haja opções.

Você tem o mesmo prazer em criar para a Chanel, Fendi, sua própria marca e outras marcas mais populares?

Nunca comparo. Gosto de tudo. Adoro criar o luxo, mas também adoro criar produtos acessíveis. É estimulante e me faz feliz poder criar para diferentes públicos. Gosto de liberdade. Poderia ter ficado muito isolado se ficasse restrito ao mercado de luxo. Mas me renovo. É o único jeito de sobreviver. A mente está sempre atualizada. É preciso ser oportunista. E não há nada de mal nisso.

Moda é arte ou artesanato?

É mudança, sobre o que as pessoas usam e sobre o que expressa a alma do momento. Moda é artesanato. Ainda que seja muito importante, não é arte. E admiro as pessoas que têm paciência para costurar. Eu não tenho. Para mim é fácil ter ideias, mas alguém tem de executá-las. Alguns vestidos da alta costura levam até três mil horas para serem feitos. Já eu os imagino, desenho... É fácil. Mas o trabalho que está por trás chega a me assustar quando penso nele.

Você já comentou que, por ter crescido em uma cidade portuária (em Hamburgo, na Alemanha), sua mãe dizia que ali era a porta do mundo.

Sim. E segui seu conselho. Quando comecei na Chanel, diziam: "Não toque nisso. Está morto". Todos tinham tentando reviver a marca até e não haviam conseguido. O que mantém hoje a Chanel é meu trabalho. Não há receita. Escuto minha voz interior. E isso é tudo.

Você sabe costurar?

Sim, mas não costuro mais. Ainda assim, entendo muito. Posso explicar qualquer problema técnico que um vestido tenha. É importante. Para que um designer se considere alguém sério, deve saber de costura. De outra forma, como é possível saber o está errado e encontrar uma solução. Sou muito bom em encontrar soluções.

Isso é importante, nos dias de hoje, em que a moda é comandada por grandes corporações.

Exatamente. Sou a pessoa certa para o trabalho que faço. Trabalho duro e não crio problemas.

Como vê esta nova era?

É uma nova forma de se fazer e consumir o fashion. E a moda se modifica rápido. Não temos o privilégio de querer que o tempo se adapte aos nossos gostos. As pessoas têm de se adaptar. Caso contrário, seremos esquecidos.

O que é elegância para você?

A noção de elegância tem de ser reinventada. Os antigos standards não são mais válidos. Hoje, elegância é se sentir bem com o que você está vestindo. Se o que você veste tem a ver com você, seu estilo e seu espírito, perfeito. Não é se vestir para ser aceito por um grupo. Ninguém liga mais para isso. Todos os standards são de outra era. A elegância não desapareceu. Só tomou outro aspecto.

Neste fim de semana, ocorreu mais um protesto contra a união gay em Paris. Qual sua opinião?

A sociedade moderna é assim e temos de aceitar isso. Não podemos viver com os conceitos de outra era. Casais gays, com ou sem filhos, têm de ter os mesmos direitos civis que os outros. O estado tem de ser laico. Se quiserem se casar na igreja católica, protestante, na mesquita, na sinagoga, aí é outra história. Mas legalmente eles têm de ser protegidos. É muito egoísta da parte dos casais que se dizem normais não pensar nos direitos dos outros. Isso não é muito cristão, aliás.

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