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O mundo segundo duas irmãs

Em Melancolia, Lars Von Trier volta a abordar a família no mundo contemporâneo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2011 | 00h00

Todo cinéfilo sabe o que ocorreu com Lars Von Trier em Cannes. Mesmo assim, é bom recapitular. Embora o suposto nazismo do autor não tenha respaldo em sua obra, o resultado foi que o festival que deu projeção internacional e respaldou o grande diretor dinamarquês, terminou por bani-lo. Lars Von Trier foi proibido até mesmo de circular nas proximidades do Palais. Foi preciso entrevistá-lo num hotel distante, nas montanhas que circundam Cannes. Um lugar maravilhoso. Ele se desculpou, mais uma vez, por suas declarações. Foi preciso insistir para que o assunto voltasse a ser o filme, Melancolia. É um estado de espírito, mas também o nome do corpo celeste em rota de colisão com a Terra.

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Em seu filme precedente, Anticristo, Von Trier filmou a morte de uma criança e seu efeito devastador sobre um casal. A ação era situada numa cabana na floresta. Árvores misteriosas, animais, sons. O cenário era uma projeção do inconsciente dos personagens. Agora, é um palácio, cercado por um campo de golfe. O palácio pode ser uma reminiscência de Marienbad, de Alain Resnais. O campo de golfe vem de A Noite, de Michelangelo Antonioni. "Não tenho problemas em roubar não importa o quê, de não importa qual autor ou filme", diz Von Trier. "O campo de golfe me interessava porque há algo melancólico nessa extensão de grama cultivada. Se você tira os golfistas, e aqui não há nenhum, o que fica é só a paisagem deserta. Adoro campos de golfe e túmulos."

A inspiração de Melancolia veio - acredite - de Walt Disney, ele revela. "Você se lembra da canção de Jimmy Crickett no fim do especial de Natal de Disney? O cervo se aproxima lentamente para ouvir, com as orelhas em pé, e atrás dele um coelho descansa a cabeça. Meu filme nasceu ali. Desenrola-se nessa zona." Ele admite que Melancolia tem um lado de testamento muito forte. "Estou querendo dizer alguma coisa negativa sobre o estado atual das coisas no mundo. No limite, posso ter feito um filme do qual não gosto."

Estrela cadente. Tudo vai acabar, a vida, mas a família persiste, mesmo em crise. O casamento é uma instituição falida. No começo, o carrão que carrega os noivos nem consegue passar pelo caminho. É uma metáfora? "Oh, não, só achei que seria divertido usar uma daquelas limosines que a gente vê em filmes norte-americanos." Duas irmãs, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. Uma que parece mais fraca, outras mais forte, mas os papéis vão se inverter. E a estrela cadente se aproxima cada vez mais. Mais do que sobre o fim do mundo, diz o diretor, Melancolia é sobre pessoas reagindo sob pressão.

"Se a vida vai acabar, nada do que fizermos, de heroico nem de mesquinho, vai importar." Marcel Proust, em sua busca do tempo perdido, tem uma discussão de 30 páginas sobre a maior obra de arte de todos os tempos - Tristão e Isolda. "Fui convidado para dirigir o Anel em Bayreuth. Trouxe Wagner para o filme. Nunca usei tanta música desde O Elemento do Crime, quando foi, em 1984?" Wagner, o Anel. Volta o tema do nazismo. "Sempre tive um fraco pela estética do nazismo. O Spittfire inglês tem todas aquelas formas arredondadas e é um belo avião, mas o Stuka dos nazistas foi uma revelação. Muita coisa do design dos nazistas permanece insuperável e essa admiração não vai me levar a apoiar o Holocausto, que foi, naturalmente, horrível."

O mundo está acabando, a família, apesar de tudo, é o último abrigo. O que esperar agora de Lars Von Trier? "Queria fazer um filme de sexo explícito com Kirsten (Dunst). Estava quase conseguindo convencê-la. Agora, não sei, ela nem quer falar comigo depois do que aconteceu." O prêmio de melhor atriz para Kirsten recolocou o foco na qualidade do filme. Pode ser que Von Trier volte a Cannes. E que Kirsten também volte para ele.

PARA LEMBRAR

Cannes baniu o cineasta

Lars Von Trier sempre teve o gosto da provocação. Este ano, ele radicalizou. Na coletiva de Melancolia, ao falar sobre o romantismo alemão, ele manifestou sua admiração pela estética nazista. Sem medir as palavras, acrescentou que entendia Adolf Hitler e até simpatizava com ele. Foi forçado a pedir desculpas. Não adiantou. O festival o baniu. E Cannes ainda não disse quando Von Trier, seu queridinho, poderá voltar. Em conversa com o Estado, ele comparou sua declaração a um carro que derrapa na curva. "Eu reconhecia o perigo, mas não conseguia recuperar o controle das minhas palavras. Foi um desastre, eu sei."

MELANCOLIA

Título original: Melancholia.

Direção: Lars Von Trier.

Gênero: Drama (Dinamarca-Suécia-França-Itália-Alemanha/2011, 130 minutos).

Censura: 14 anos.

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LARS VON TRIER sobre seu novo filme.

 

 

Assista à entrevista com KIRSTEN DUNST - antes do episódio em Cannes

 

 

CHARLOTTE GAINSBOURG conta como foi o trabalho em Melancolia

 

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