Tasso Marcelo/Estadão
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O mundo pós-pandemia

A História ensina que, dos medos atuais, podem emergir grandes pintores de um renascimento magnífico

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 03h00

Existe uma ideia, quase uma expectativa, sobre como será o mundo quando todos estiverem vacinados, seguros e a vida fluir sem o medo que ainda nos ronda. Buscando no senso comum, fazemos do passado uma referência. A História, no mesmo código, seria a “mestra da vida”, ideia com a qual concordava Cícero, quase todos os moralistas clássicos e, hoje, nenhum historiador. Vamos começar tentando pensar ciceronianamente. A Peste Negra atacou a Eurásia e Norte da África entre 1346 e 1353 (com registros anteriores na Índia e na China). No caso europeu, grande parte do problema se concentrou entre 1348 e 1350. O número de mortes é alvo de muitos debates. Ao menos um terço das populações urbanas e, em algumas áreas, até 60% de fatalidades. Para dar dimensão, imagine que a mortalidade do coronavírus estivesse no mesmo patamar do Yersinia pestis, o bacilo daquela praga. Ficando apenas no Brasil, o número de mortos oscilaria entre 70 milhões e até mais de 120 milhões de cidadãos do nosso país. Consegue ter ideia do tamanho do pânico?  Reforce-o com medos de fim do mundo, medicina científica inexistente no século 14, ondas de antijudaísmo devastadoras e um mundo de ponta-cabeça. Barbara Tuchman fez um panorama acessível no livro Um Espelho Distante – O Terrível Século 14 (José Olympio). Ela usa um nobre para acompanhar aqueles anos de peste e de guerras como a dos 100 anos: Enguerrand VII de Coucy (1340-1397), testemunha das catástrofes do Trecento.

Pestes e guerras vividas (e nunca encerradas de vez), temos o Renascimento. O século 15 foi de artes e revolução antropocêntrica. A ideia de que a Peste tinha provocado uma redução populacional acompanhada de uma forte crença posterior de alegria nos sobreviventes foi tão forte que serve de enredo para um best-seller: Inferno, de Dan Brown. O livro fala de um homem rico e versado em biologia e genética que desenvolve uma doença devastadora que vai acabar com grande parte da humanidade. Sua esperança? Que os sobreviventes, da mesma maneira que os homens depois da Peste Negra, façam um novo Renascimento.

Avancemos para o fim da Idade Moderna. O período do Terror na Revolução Francesa foi marcado pelo aumento no número de guilhotinados e por um banho de sangue na região da Vendeia. Os jacobinos perseguiram nobres, seu inimigos girondinos e todos os que parecessem suspeitos, de monjas carmelitas até o químico Lavoisier. Em julho de 1794, vendo o poder imenso concentrado em Robespierre, houve uma reação e guilhotinaram os líderes jacobinos. O período seguinte, o Diretório e parte do Consulado, foi de imenso alívio para uma parte da sociedade francesa. A chamada “Reação Termidoriana”. Reabriram teatros e surgiram muitos bailes. Grandes cozinheiros que perderam seus senhores na guilhotina inauguraram restaurantes em Paris. A moda voltou a ser um distintivo social. As roupas ficaram mais coloridas e extravagantes. As pessoas da elite do vestir, os “influencers” de então, eram chamadas de “Inacreditáveis e Maravilhosas” (Incroyables et Merveilleuses). Foram duramente ironizadas em charges, especialmente inglesas. Nos salões do líder político Barras ou de Madame Tallien, por exemplo, era de bom-tom evitar a pronúncia forte do R, considerado um som camponês. Há quem suponha que se trate de uma aversão à letra inicial do temido e recente conceito de Revolução. A moda seguia padrões mitológicos, com roupas que imitavam deusas gregas e romanas. Era uma nova elite querendo festas e uma vida luxuosa sem o risco de perder a cabeça.

Avancemos mais um pouco. Por volta de 1920, estava terminando a maior pandemia contemporânea: a gripe espanhola. Para piorar, ela tinha contaminado o mundo após o maior conflito até então: a Grande Guerra. Desgraças andam em pares. Talvez tenhamos chegado à cifra de 50 milhões de mortos, com um quarto da população mundial infectado. Para ver a epidemia no Brasil, recomendo muito o livro A Bailarina da Morte, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (Cia das Letras).

Após os horrores das trincheiras de 1914-1918, tivemos a pandemia do vírus fatal. A década de 1920 emergiu com a vontade dos sobreviventes de mostrar seu amor à vida. Os agitados anos 20 são chamados em inglês “the roaring twenties” e, do outro lado do Canal da Mancha, “années folles”.  Houve a ascensão do rádio, jazz ganhando o mundo, arranha-céus subindo, prosperidade do capitalismo, apogeu do cinema mudo e o surgimento do falado, vanguardas como surrealismo, art déco, Josephine Baker sensualizando nua, Hemingway fumando com Gertrude Stein em Paris e voto feminino dando passos no mundo.

A figura-símbolo da vida intensa e festiva era O Grande Gatsby, o romance de F. Scott Fitzgerald. As festas na casa do misterioso milionário em West Egg são aproveitadas por centenas de pessoas sem um convite claro ou sequer com a presença visível do anfitrião. É um bom exercício comparar três atores que encarnaram o tycoon no cinema: Allan Ladd (1949), Robert Redford (1974) e Leonardo DiCaprio (2013). São três maneiras de analisar a agitação social, o dinheiro e o contrabando de bebidas...

Em resumo, no mundo pós-pandemia, a mestra da vida, a História, ensina que, dos medos atuais, podem emergir grandes pintores de um renascimento magnífico, uma moda extravagante e gente frívola, milionários misteriosos com festas ou... mais gente vendo Big Brother. Boa semana e boa euforia no quase pós-pandemia.

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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