O mundo pós-moderno

Em Londres, a primeira grande mostra sobre o movimento que ajudou a sacudir o século 20

FLAVIA GUERRA / LONDRES, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h10

Tudo ao mesmo tempo agora. Um mundo em que a arquitetura rui em função de uma forma que não serve mais; a pintura tem sua sacralidade violada pela cópia xerox e pela bricolagem pura e simples; a moda que a tudo incorpora, digere e devolve em camadas de tecidos e ideias; a música que se apodera de melodias, tendências e recria um novo som; o cinema que a tudo absorve e a tudo espelha. Isso tudo é pós-moderno. E tudo, como definiu Karl Marx, é sólido mas desmancha no ar.

Assim foi, e é, o pós-modernismo. Ainda que seja quase impossível definir uma data, pode-se dizer que o movimento teve seu início com a destruição da Lassù Chair, por Alessandro Mendini, em 1974. O designer italiano queimou uma de suas mais puras criações, simbolizando o fim dos velhos conceitos para que novos renasçam das cinzas. Desde então, muito foi destruído e criado. Os anos 70 assistiram ao fim das chamadas grandes doutrinas, que tudo explicavam e rotulavam. As generalizações já não cabiam mais nesse caos criativo de um mundo em que tudo se cria, recria, copia e se cola. Gosto estético e ideologias à parte, é inegável que a forma como vivemos a arte e o mundo hoje é fruto desse movimento que ousou dessacralizar os cânones. E isso não só quando o assunto foi "tirar da arte formal" a forma, mas também dar forma de arte a objetos banais, fazendo do ordinário o extraordinário. De torradeiras a projetos arquitetônicos, de poltronas a capas de discos, de esculturas a figurinos de cinema e videoclipes.

Para quem não entendeu, nenhum motivo de preocupação. Nem seus protagonistas souberam até hoje catalogar um fenômeno artístico, arquitetônico, comportamental, filosófico inclassificável por sua própria natureza. Cabe aos herdeiros dessa corrente que renegou todas as "grandes narrativas" pré-existentes conhecer melhor o movimento. É para explicar (ou tentar) ao público de hoje o que o Vestido de Grávida Construtivista que Grace Jones desfilou em 1979 tem a ver com os figurinos de Lady Gaga que o Victoria & Albert Museum de Londres organizou a Postmodernism: Style and Subversion 1970-1990 (Pós-modernismo: Estilo e Subversão 1970-1990). Em cartaz na capital inglesa há alguns meses, é a primeira grande exposição já realizada sobre o movimento. "O pós-moderno tem muitas características, mas a principal é a reação à ortodoxia do modernismo, à visão única de mundo. É a celebração da diversidade, da arquitetura do prazer, colorida e até kitsch. Las Vegas, o néon, o exagero é um dos símbolos disso", explicava uma das curadoras da mostra, Jane Pavitt, à imprensa que visitava o V&A em um domingo movimentadíssimo de um dos museus mais tradicionais da Europa.

Levar a irreverência pós-moderna, iluminada pelo letreiro que grita em néon Postmodernism, a um templo da história da arte já é um ato pós-moderno. Houve críticas à curadoria de Pavitt e companhia. Alguns críticos não reconhecem no pós-moderno a arte em estado "sagrado". "Isso é arte?", provocava Brian Sewell, do ortodoxo Evening Standard diante de Sumpremely Black, de Haim Steinbach, que criou, em 1985, caixas de sabão em pó conceituais.

Claro, os pós-modernistas não inventaram o ready-made. Afinal, Marcel Duchamp já havia chocado e chacoalhado o mundo com sua Fonte décadas antes. Mas ninguém levou a ironia tão às últimas consequências como eles. O que dizer de uma poltrona que, forjada em fórmica e madeira em formas que desafiam a lógica dos móveis utilitários do futurismo, mais perturba do que "é útil"? "Muito pós-moderno!" Assim os visitantes reagiam à Bel Air Chair, criada por Peter Shire para a lendária Memphis, o coletivo italiano que, nos anos 80 revolucionou o conceito de "utensílios domésticos" e criou a arte para levar para casa.

Como disse a designer Carol McNicoll ao Guardian: "Quando era estudante de artes, a pior coisa era alguém classificar meu trabalho de decorativo. Mas percebi que gostava disso. E isso ocorreu com o pessoal da Memphis. Ele recriaram a ideia de design. Utilizavam objetos simples, copiavam e recriavam ideias, adicionavam outras novas. Eram coisas coloridas, como chaleiras. Era design comercial, sim, tinha um quê de cópia, mas era fabuloso."

Por falar em "copiar", essa é outra característica do pós-modernismo: bricolagem. Pode-se chamar de plágio. Há quem chame de canibalismo. Nossos modernistas de 22 talvez chamassem de antropofagia. A brincadeira com o valor da arte, de compra, de venda, do dinheiro e do consumismo também era uma das maiores fontes de inspiração e crítica pós-moderna. Aí é que entra o famoso Dollar Sign (cifrão) de Andy Warhol. É apenas uma brincadeira, mas poderia ser verdade. É tudo e nada. Ou tudo ao mesmo tempo. E agora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.