O mundo numa parábola

Mercy, de Matthias Glasner, é ótima surpresa na reta final da mostra alemã

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / BERLIM , O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2012 | 03h09

De repente, não mais que de repente, na quadra final do festival, dois filmes exibidos em sequência fizeram repensar tudo. O teuto-norueguês Mercy, de Matthias Glasner, propõe uma espécie de parábola perturbadora sobre o mundo atual. Um casal de alemães muda-se com o filho para a Noruega. Um acidente de carro - a mulher atropela e mata uma menina - faz com que o casal seja devorado pela culpa, mas no final, como por milagre, a graça se manifesta. O que significa esse desfecho reparador? A remissão vista pelo olhar do menino?

Outro garoto. O menino de Just the Wind, do húngaro Bence Fliegauf, é ladrão como o pequeno protagonista de La Fille d'en Haut, da franco-suíça Ursula Meier. Ele pertence à minoria rom. De cara, um letreiro informa que, em 2008, uma série de atentados causou a morte ou ferimentos em uma centena de ciganos. Segue-se uma advertência - isto não é um documentário. Fliegauf cria uma ficção para tentar entender o que de fato aconteceu.

O menino entra na casa de uma família que foi chacinada. Vozes o fazem se esconder. São dois policiais, que discutem justamente os assassinatos. Um é recém-chegado a essa comunidade do interior. Ele ouve uma crítica do colega, que reprova o assassinato daquela família, em particular. O "estrangeiro" retruca - então, é certo matar, dependendo da vítima?

Fliegauf segue, desde a manhã, a família a que o menino pertence. O avô doente, a mãe trabalhadora, a irmã estudante e ele, o pequeno ladrão. Mas o menino não é mau, ninguém é. Fliegauf destila por gotas o ódio e o preconceito contra os ciganos. São pobres, mas não necessariamente malvados. Roubam, sim, mas que outra atitude tomar numa sociedade que os discrimina, quando não hostiliza?

No livro com a entrevista que concedeu a François Truffaut, Alfred Hitchcock analisa uma cena de Psicose e diz que grudar a câmera nas costas de Martin Balsam, na pele do policial que será morto, predispõe o espectador para o que vai ocorrer. Fliegauf cola a câmera em seus atores. Just the Wind narra a crônica de uma morte anunciada. A casa situa-se no meio do mato. Os personagens andam pelo meio de uma vegetação espessa. A morte pode vir a qualquer momento.

A inquietação domina o espectador. É curioso, mas num formato completamente diverso, Bence Fliegauf também esculpe o tempo, como fazia o grande húngaro Bela Tarr em seu O Cavalo de Turim, que foi uma das mais belas experiências da Berlinale de 2011, ganhando o prêmio da crítica. Just the Wind prossegue após a segunda chacina - o espectador não vê nenhuma das duas, apenas ouve os sons da segunda. Nessas cenas finais, há um enigma que permanece em aberto e que diz respeito justamente ao garoto. Just the Wind coloca questões intrigantes. Como mostrar e o que mostrar no cinema? Como comprometer o público?

A Berlinale de 2012 chega ao seu final. Hoje, serão exibidos os últimos filmes da competição. Amanhã, ocorrerá a cerimônia de premiação. Quem vai levar o Urso de Ouro deste ano? Os Irmãos Taviani, com seu rigoroso Cesare Deve Morire? Billy Bob Thornton, com Jayne Mansield's Car? E por que não o húngaro? Ou o alemão? Matthias Glasner é alemão. O prêmio da crítica vai para o português Miguel Gomes, de Tabu? São perguntas que não querem calar.

Houve ontem um momento especial. O próprio Dieter Gosslick, diretor-geral da Berlinale, apresentou a sessão em homenagem a Theo Angelopoulos, o grande diretor grego morto em 24 de janeiro. Vieram a viúva Phoebe Economopoulos, produtora de vários filmes do marido, e o roteirista Petros Markaris.

Passou o filme de 2004, Trilogy - The Weeping Meadow, que abre a trilogia de Helena, revisitando o mito grego do eterno feminino. The Weeping Meadow tem uma das mais belas cenas recentes do cinema. Retrata as consequências de um massacre - uma chacina em escala maior do que a de Just the Wind, mas a barbárie é a mesma. Angelopoulos filma um rio. Numa margem, o cadáver. Na outra, a mulher desesperada. No meio, a água que passa - o tempo que o autor grego gostava de capturar, por meios de longos planos sequências. O cinema esculpe-se no espaço e no tempo. Autores como Theo Angelopoulos nos lembram disso. Ele morreu, mas sua obra permanece.

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