O mundo está em decomposição em "Os Vermes"

Há algo de podre na Capital Federal mas o que ninguém esperava é que José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta contassem essa história a partir do ponto de vista dos vírus, bactérias e micróbios que habitam esse mundo em perpétua decomposição. Depois de aplicar um golpe nos primórdios da colonização portuguesa em Terra Papagalis, a dupla agora ataca a contemporaneidade, lançando Os Vermes.Se no livro anterior, Torero e Pimenta recorriam à sátira histórica, desta vez optaram por criar uma fábula, narrada em dois tempos. Um deles conta a história política de Arca, misterioso reino de um mundo desconhecido, em que todos estão engajados numa campanha presidencial. Nenhum personagem tem nome próprio - o condutor da história, um deputado federal de olho na presidência, é chamado apenas de Ele. Casado com Baleia, Ele torna-se amante de Cadela, humilha o assistente Zebra e faz negociatas com outros parlamentares chamados Beija-Flor, Hipópotamo, Saúva e Gafanhoto.O outro tempo narrativo é conduzido por Heri, um simpático e microscópico verme que entra no corpo do deputado Ele durante uma viagem aérea. São os passeios de Heri pelo organismo do político que fazem o livro avançar. É nessa hora que os narradores atingem seus melhores momentos de humor e criatividade. As conversas de Heri com Trepô, Gengi e Lulu são ótimas e ensinam como transformar uma grande pesquisa num texto saboroso.Até que tome ritmo, no entanto, o romance dá umas patinadas assustadoras. A princípio, pensa-se que vai ser mais um romance em linguagem figurada sobre os desmandos e despudores de Brasília. Não é à toa. A capital brasileira foi construída a partir de um plano que imitava um avião. Arca, a cidade fictícia é erguida sobre um mapa do corpo humano; nela, os bairros têm nomes de órgãos do nosso organismo, como Rim Direito, Pé Esquerdo e outros. As negociatas também não nos deixam muitas dúvidas: estamos na capital onde um bom lobista vale ouro.Enquanto parece ficar só na imitação política, o livro perde seu poder de fogo, a narrativa fica óbvia. Aos poucos, Torero e Pimenta tomam pé da situação e passam a controlar melhor o jogo. O livro cresce e prende a atenção do leitor - desde que ele não seja fraco e se sinta enojado a cada descrição escatológica que o livro contém. Mas, convenhamos: você vai à livraria, compra um livro chamado Os Vermes e espera, de coração, que ele não tenha passagens escatológicas?Excrementismo - Todos os movimentos naturais do organismo, com sons e odores, passam pela narração de Heri, o micróbio aventureiro, que aprende a surfar nas artérias do coração, a levitar nos brônquios pulmonares e a se alimentar de cera de ouvido e meleca. A cada capítulo, Heri aproxima-se mais do Excrementismo, a filosofia propagada por Ancião, o micróbio-mor do organismo em que eles vivem.O corpo do deputado Ele responde a todos os ataques e afagos que o político enfrenta no dia-a-dia. A paixão pela secretária Cadela, a reação à morte de Baleia, o ódio ao adversário Lobo, todos os encontros que Ele mantém acabam surtindo efeito no seu corpo. É engraçadíssimo, por exemplo, o apuro pelo qual Heri passa só porque o deputado resolveu trocar um beijo com sua amante.Transformar escatologia em humor não é difícil. O ensaísta russo Mikhail Bakhtin defende a teoria que o riso nasce das chamadas partes baixas do corpo e tudo o que está envolvido com elas. Portanto, fazer piadas usando como tema fezes, urina, sexo e comida sempre dá certo.O difícil é transformar essa fórmula em humor mesmo e não apenas num desfile insensato de palavras grosseiras e malcriadas. Usada com técnica e cuidado, a escatologia cumpre seu efeito de fazer rir e, ao mesmo tempo, de fazer pensar naquilo que as sociedades bem-educadas afastam para debaixo do tapete. Sempre que atinge esse ponto, narrando as aventuras do verme Heri, José Roberto Torero e Marcus Pimenta crescem como ficcionistas de humor inteligente. Quando se detêm no "político", o humor cai de diapasão - não há como superar o ridículo da realidade política brasileira.Serviço - Os Vermes, de José R. Torero e Marcus Aurelius Pimenta. Objetiva, 248 págs., R$ 21,90

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