O mundo escuro e claro de Suzy Lee

No livro infantil Sombra, a experiência mais radical dessa artista sul-coreana, palavras não entram - só desenhos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

A sul-coreana Suzy Lee não é uma simples ilustradora de livros infantis, mas uma artista ambiciosa que revolucionou o gênero desde que publicou sua versão pessoal do clássico de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas (2002), hoje na coleção Livro de Artista da Tate Britain. Para cruzar a fronteira entre realidade e ilusão, Suzy usou fotografias em preto e branco e desenhos recortados, montados segundo uma cenografia surrealista. Sempre em busca de novas formas, Suzy, aos 37 anos, lança sua experiência mais radical, o livro Sombra, pela editora Cosac Naify, que já publicou outras duas obras da artista, Onda (em 2008) e Espelho (2009).

Onda foi considerado há dois anos o melhor livro ilustrado pelo jornal The New York Times e vendeu mais de 100 mil exemplares, fazendo de Suzy Lee um nome reconhecido no mercado internacional. Ganhou também, no ano passado, um prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. De crianças ela entende muito. Tem dois filhos pequenos e fez o sacrifício de transformar o estúdio no quarto do bebê mais novo, trabalhando hoje no seu. De Cingapura, onde mora, Suzy Lee concedeu uma entrevista ao Estado, em que falou de seus livros e dos artistas ocidentais que abriram seus olhos para a ilustração, como o clássico norte-americano Edward Gorey (1925-2000).

Gorey criou mais de uma centena de livros para crianças. Suzy, a exemplo dele, considera a palavra mero apêndice da imagem. Faz livros infantis apenas com desenhos e deixa as crianças livres para imaginar. ''Não há um jeito correto de ler um livro e, se não existem palavras para definir uma história num livro ilustrado, você pode ler do jeito que quiser'', justifica Suzy. Na era digital, em que crianças se acostumaram a lidar com gadgets eletrônicos, isso é verdade. Contudo, em se tratando de um livro físico, Sombra pode exigir dos pequenos leitores maior esforço de associação - a história parece concebida exclusivamente para a mídia impressa. Não dá para imaginar Sombra como livro digital, pois Suzy induz o leitor a virar o volume de cabeça para baixo e ver o que se passa no escuro sótão, no outro lado da dobra do papel, onde uma menina brinca com as sombras dos objetos lá guardados.

A única palavra do livro é um Click! sobre o fundo negro da primeira página, indicando a luz que se acende e vai provocar sombras. As mãos da menina viram um pássaro, uma botina velha se transforma num lobo e uma vassoura toma a forma de uma flor antediluviana. No final, o lobo persegue a garota. É o mundo das sombras ameaçando o real. Para os adultos, trata-se de uma metáfora assustadora - e, mais um a vez, entra a influência de Gorey, mestre da ilustração macabra. Suzy, porém, está certa que as crianças não identificarão nesse jogo de sombras a projeção do mal provocada pela luz. ''Criança não liga para filosofia'' - ainda mais cartesiana, faltou concluir. ''O mundo de cima e o mundo de baixo, separados pela dobra da folha de papel, é uma brincadeira tipicamente infantil''. E os jogos infantis não mudam, acrescenta a desenhista.

Os livros infantis, no entanto, evoluem. Suzy cita como outra influência o inglês John Burningham, de quem a Cosac Naify publicou dois livros (Hora de Sair da Banheira, Shirley! e Fique Longe da Água, Shirley!). Ambos são econômicos com palavras e ilustram as diferenças entre o mundo dos adultos e o das crianças por meio do confronto entre cores vivas e cores pálidas. Suzy é mais radical. Ela usa o carvão e prefere o monocromatismo. Lembra que é uma pintora por formação. E uma pintora que gosta de Magritte, Sol Lewitt e Saul Steinberg.

QUEM É SUZY LEE ILUSTRADORA E ARTISTA PLÁSTICA Nascida em Seul, em 1974, estudou pintura no seu país e se especializou em Londres, Seu livro infantil mais conhecido é Onda, sobre uma menina que brinca e desafia o mar. Suas histórias, de modo geral, rejeitam palavras.

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