O mundo é alvo do olho

Ao ler os ensaios que compõem a antologia The Rey Chow Reader, organizada por Paul Bowman e publicada recentemente pela Columbia University Press, uma imagem não me saía da cabeça. A do intelectual e acadêmico carioca José Guilherme Merquior, prematuramente falecido em 1991. Ao ser esboçado pela imprensa, o perfil de Merquior vinha revestido por metáfora que explicitava sua atuação. Como crítico, era "verdadeira metralhadora giratória". Não deixava nada e ninguém de pé.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Rey Chow, nascida e educada em Hong Kong, com doutorado em Stanford e hoje professora na Duke University, não lhe fica atrás. É uma das mais participantes e controvertidas ensaístas na área de estudos pós-coloniais, desconstrução e cinema. Por sua origem e formação, está hoje entre as cabeças pensantes mais consultadas na área de estudos culturais com foco no Oriente. Sua originalidade primeira, confessa ela no ensaio Lições em Legitimação Cultural, reside no fato de ser, no Primeiro Mundo, uma estudiosa do pós-colonialismo com educação acadêmica em nação colonial. Durante as décadas de 1960 e 1970, fez o ginásio e a universidade na Hong Kong britânica. Em livros e ensaios soltos, Rey Chow tem ofertado ao especialista e ao leitor uma série de conceitos que, pela sua rentabilidade analítica e repercussão teórica, transcendem as fronteiras acadêmicas. Salientemos dois: visualidade e visibilidade.

Poderoso é o modo como a ensaísta retoma ideias já aprovadas e dispersas sobre a moderna relação entre visão humana e imagem do mundo. Retoma-as e as entrelaça criticamente no intuito de analisar o lançamento de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, ocorrência reconhecida pela foto da nuvem de cogumelo. Leiamos o ensaio A Era da Arma Mundial e acompanhemos seus passos.

Rey Chow parte de postulação complexa, desenvolvida em ensaio pouco lido de Martin Heidegger, A Era da Imagem Mundial. Neste, o filósofo alemão explicita o modo como a ciência moderna dinamita a noção estática de busca do conhecimento para reapresentá-la como atividade em constante progresso. O scholar é substituído pelo pesquisador e o exame erudito das fontes, pelo experimento. É também a ciência que leva o homem a representar e a compreender o mundo como imagem. Ao olhar especializado (e ao leigo, como se verá), o mundo se oferece como imagem estruturada, produzida pelo homem. A pesquisadora excede a postulação heideggeriana com as análises de Walter Benjamin sobre a obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Salienta-se ali o papel do cinema e da fotografia na concepção de imagem a que chegamos. Por serem passíveis de se reproduzir ao infinito, imagens são visualizadas em escala planetária. Chow enriquece as duas postulações filosóficas e as afina com as do pensador pós-modernista Paul Virilio, autor de Guerra e Cinema (Boitempo, 2005). Afirma este que o campo de batalha é o campo da percepção humana. Para os homens em guerra, a função da arma é função do olho, é função da câmara cinematográfica. Só pode ser destruído o alvo que se vê. O mundo é alvo do olho.

Bem alicerçada, Rey Chow se lança à leitura do raide atômico pela sua visualidade. A foto da nuvem de cogumelo, imagem do mundo, prevalece e desocupa (preempt) os efeitos da radiação e da devastação humanas. A imagem das cidades japonesas, que chega aos olhos e à mente do espectador, não é mera réplica mimética da realidade. Na infindável reprodutibilidade, ela adquiriu a qualidade de "signo de terror", do terror atômico que afeta a todos, indiscriminadamente. Ela prova o que já somos: sobrevivemos como alvo. O interesse de Chow é o de mostrar como, ao transformar tudo em representação e realidade virtual, a imagem em si (no caso, a foto de Hiroshima bombardeada) é um fato epistêmico na cultura global.

Por detrás do artefato atômico, está a insondável física moderna, que reapresenta a destruição atômica de maneira também elegante. Vale-se duma fórmula tão sucinta e legível quanto a foto: E=mc². Num breve e intenso clarão, o olho humano reconhece, na equivalência de massa-energia, a até então obscura teoria da relatividade, de onde procede a arma letal. A harmonia e a leveza formais da notável descoberta científica também encaminham o olhar para a magnitude do potencial destrutivo do homem. Chow conclui a análise: "Um avião mais uma bomba = menos uma cidade japonesa."

A visualidade da destruição atômica pela imagem da nuvem de cogumelo também autentica o processo de vitimação por que passou o povo japonês sob o poderio bélico ocidental. No entanto, a foto famosa obscurece a "visibilidade" do quadro de vitimação por que passou o outro do povo japonês, ou seja, o povo chinês. Refere-se Chow aos habitantes da região noroeste da China que, entre 1937 e 1945, sofreram horrores durante a ocupação japonesa. Para alguém como ela, que viveu entre os sobreviventes da Guerra dos oito anos de resistência aos japoneses (banian gangzhan), a imagem da devastação atômica escamoteia, em evidente obscurecimento da história, outro alvo do olho.

"Quando criança", escreve ela, "estava mais acostumada a ouvir falar das atrocidades japonesas contra homens e mulheres chineses que a ouvir falar das atrocidades cometidas pelos Estados Unidos." Enquanto a menina Rey Chow crescia e se educava sob a proteção da coroa britânica, os relatos orais da infância não persistiam na memória como subsídio para se chegar ao apuro histórico. As lembranças geravam, antes, "uma espécie de dissonância emocional". Fora de lugar, a imagem do mundo como alvo do olho ganha outra visibilidade. Escapa, então, às articulações semânticas automatizadas pela foto da nuvem de cogumelo e pela fórmula einsteiniana. Sobrepõe-se a elas outra imagem do mundo.

Xangai, 1937: a foto mostra uma criança chinesa que chora. Está abandonada no meio dos destroços da estação rodoviária da cidade, bombardeada por aviões japoneses.

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