O mundo do circo em 40 imagens de Adi Leite expostas no MIS

Projeto iniciado há dez anos pode ser conferido a partir de terça, em ´Circenses´

Agencia Estado

26 Junho 2007 | 16h34

O circo sempre foi motivo de sonho, de mistérios, dos clichês, das imagens prontas e de preconceitos. O domador de leões, o atirador de facas, a tristeza do palhaço e a vontade de muitos adolescentes em seguir com o circo em busca de uma vida livre, cheia de encontros, e mais provavelmente de desencontros. O circo, que reúne os mais diversos tipos de personagens e personalidades. Foi atrás desses aspectos que o fotógrafo Adi Leite iniciou seu trabalho há dez anos. O projeto, na verdade, era outro. Para comemorar os 500 anos do Brasil, Adi pensou em sair pelo País retratando seu povo: "Mas, ao começar o trabalho, o circo foi tomando vida própria. As cores, os movimentos, os personagens, tudo no circo me instigava a tentar ultrapassar o limite do alcance dos meus olhos... algo como tentar me aprofundar num exercício estético que conseguisse traduzir o conceito ‘circense’", conta. São vários os circos, na sua maioria mambembes, fotografados em São Paulo, na Bahia, no Rio, na Amazônia, no Pará e Pernambuco. No fim, 10 mil fotos se amontoavam nos arquivos do fotógrafo. Destas, 40 foram editadas para a mostra do MIS. O projeto foi contemplado pelo PAC da Secretaria de Estado da Cultura. O diferencial nesse trabalho é que, ao contrário de muitas crianças, o circo nunca fez parte da vida de Adi, nem o sonho do circo. Ele não se lembra de ter freqüentado circos na infância: "O circo nunca fez parte do meu imaginário quando era criança." Talvez por isso a descoberta, tardia, traga um olhar do novo, da surpresa, como alguém que estivesse vendo o circo não da platéia, mas dos bastidores. Como as crianças que levantam a lona do circo para descobrir os mistérios: "O que me chamou mais atenção foi a maneira como as pessoas se organizam. Parece existir um pacto em nome do circo. Com muitos poucos recursos os artistas conseguem produzir espetáculos de uma pureza quase infantil, sempre carregados de muita alegria." Modo de vida Sair em busca de um rosto do País sempre atraiu fotógrafos do mundo todo. Trabalhos realizados nos EUA por Robert Frank, por exemplo, que culminou com o livro The Americans, ou mesmo no Brasil, quando Cristiano Mascaro saiu em busca, não da cara do Brasil, mas do Estado de São Paulo, retratado em seu livro São Paulo. Percorrer o País em busca de uma identidade. Trabalhos que culminam com um olhar documental, jornalístico. Não é isso que encontramos nas imagens de Adi Leite. Embora ele mesmo seja fotojornalista, sua descoberta do circo ultrapassa o registro documental. Ele alia uma estética que vem se firmando na fotografia contemporânea, que é juntar o artístico com o documental. Contar sua história, seu ponto de vista, sem o caráter testemunhal. Em seu trabalho, parece que Adi vai descobrindo o mundo circense na medida em que vai fotografando. Nas suas imagens de espetáculo como nos artistas que posam para ele, Adi vai nos apresentando o circo, não como festa, mas como um modo de vida: "Na verdade, usei o circo para criar uma forma de expressão, no caso a fotografia. Assim não considero o trabalho documental. Ele é uma reflexão estética do que chamo circense. Circense como um conceito, um mundo carregado de cores, formas, hábitos." E consegue. São vários circos que se transformam em um, no olhar das crianças, no atirador de facas, no palhaço que se equilibra de maneira tosca numa corda. Um equilíbrio entre forma e conteúdo, em que a estética não é vazia, nem superficial. Um trabalho delicado, imagens que não gritam e que pedem do espectador um minuto de tempo e reflexão - hábito que também falta à arte fotográfica de hoje. Um projeto elaborado e bem realizado: "Há tempo tento ultrapassar os limites do alcance do meu olhar", relata Adi. É como um exercício do olhar que ele define seu ensaio: "Meu trabalho é uma tentativa de ultrapassar os limites do alcance dos meus olhos." E talvez dos nossos também. Circenses. MIS. Av. Europa, 158, tel. 3062-9197. 3.ª a dom., 10 h às 18 h. Grátis. Até 29/7

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