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O mundo de Schaeffer

Em junho de 1953, em Paris, por iniciativa do Grupo de Pesquisas de Musica Concreta da Radio-Televisão Francesa, e sob a direção de Pierre Schaeffer, realizou-se a "Primeira Decada Internacional de Musica Experimental". A esse acontecimento "La Revue Musicale" dedicou um numero especial, aparecido em maio do corrente ano. A razão desse atraso de quatro anos na publicação da revista é explicada pelo seu diretor, Albert Richard, que confessa ter sido assaltado por duvidas e uma certa inquietação. Temia ele que seu lançamento no mundo internacional da musica desencadeasse um "desvio" de certos valores por parte dos jovens musicos, demasiadamente sedentos de novidade e de aventura mecanica. Pois o numero fazia "uma proposta das mais tentadoras a todos os jovens, um convite por demais insistente no sentido das musicas eletronicas", sugerindo uma especie de "poema da aventura, a oferta de um país estranho e de continentes novos abertos á curiosidade dos exploradores". Atualmente (com ou sem razão, o que agora não vem ao caso), a Revista considera o perigo superado, acreditando que os moços não mais correm o risco de perder-se nesse fabuloso país da Pesquisa. E assim veio á luz um documento interessantíssimo, apresentando exatamente a mesma materia e a mesma redação que deveriam ter sugerido quatro anos atrás. De maneira prudente, a Revista conservou a advertencia inicial aos leitores: "Ousamos esperar que todos os amigos da musica compreenderão a importancia extrema deste numero especial. Seu conteudo indica, no conjunto, uma das fases mais agudas da musica do seculo XX. Sem tomar posição quanto aos problemas que ele coloca, a Revista Musical se devia a si mesma um tal documento, o primeiro a precisar o sentido de uma experiencia, e digamos, talvez de descobertas, cujos limites e futuro são ainda impossiveis de determinar... Pensamos não exagerar ao dizer que ele encerra a mensagem mais perturbadora para a musica de hoje... Nossa neutralidade de opinião é total, mas não subestimamos de modo algum a importancia dos valores debatidos".

Alberto Soares de Almeida,

05 de março de 2011 | 07h00

 

É dificil ao leitor desprevenido, e ainda impregnado dos conceitos e da experiencia da musica tradicional, dar-se conta desde logo da significação e do alcance das pesquisas ai relatadas, que se prendem a um mundo aparentemente sem nexo com a realidade a que nos habituaram cinco seculos de pratica musical no Ocidente. A leitura terá um sabor de viagem através de nem sei quantas vinte mil leguas submarinas. Mas a aventura vale a pena, ainda que nada se conclua, ainda que não se chegue a resultado algum, ainda que a paisagem imprecisa e alucinatoria dos sonhos mecanicistas não faça senão tornar mais confuso o panorama sonoro dos dias de hoje, malgrado o prematuro otimismo da "Revue Musicale" quanto á superação dos riscos de transviamento. Há um leve sabor de explosão atomica nesse pequeno numero da "Revue", cuja resenha se torna assim impossivel. Seus promotores quiseram historiar um movimento, transmitir um maximo de informações, e formular também algumas advertencias. Como o proprio grupo que tomou parte na "Decada" não tem homogeneidade, nem quanto ao material sonoro e sua tecnica de aproveitamento, nem quanto á sua capacidade de expressão - resultou do certame um cipoal de observações e de tendencias, variando segundo a personalidade de cada musico ou de cada tecnico. Somente a leitura integral do documento poderá sugerir de que se trata. Esta nota se limita assim, forçosamente, a algumas indicações, desordenadas elas também - "et pour cause".

 

Pierre Schaeffer comparece com dois trabalhos: uma carta á Direção da Revista e um ensaio, "Vers Une Musique Experimentale", que aliás dá o título a todo o numero. Schaeffer me parece - pelo menos dentro da incerteza de impressões iniciais tão suscetiveis de revisão - a figura mais interessante do grupo. Dificilmente se encontrará um revolucionario mais cauteloso e desconfiado, mais prudente, honesto e humilde em suas proposições, alimentando sua fé sem dogmatismo e cultivando a "duvida sistematica" como metodo de exercício critico. E tendo ao mesmo tempo uma confiança ultima e secreta na validade de suas pesquisas, por uma questão de instinto pessoal, o que o leva a dizer: "... Eu poderia me perguntar se o desenvolvimento de outras pesquisas, notadamente eletronicas (ele se refere aqui ao grupo alemão da Radio de Colonia), não iria rapidamente tornar obsoletas nossas manipulações empiricas sobre o objeto sonoro. Vendo á minha volta tão poucos adeptos, poderia perguntar-me se não estaria errado em ser o unico, ou quase, a defender uma causa perdida... Se a musica concreta, com efeito, não fez grande progresso nem revelou obra magistral, nem tampouco firmou sua doutrina, os eletronicos tiveram tempo (nestes ultimos quatro anos) de equipar-se e de exprimir-se. Confrontando os resultados, se eles me parecessem probantes, eu poderia por conseguinte retirar-me convencido de um fracasso. Nada disso acontece. Tanto por formação científica, como por inspiração pessoal, considero validas mais do que nunca as premissas da musica concreta. É mostrar, dir-me-eis vós, uma grande confiança! Essa confiança eu a tenho".

 

Dentro do plano dessas duas coordenadas - consciencia critica constante e severa, e ás vezes espirituosa, de um lado, e uma certa velada obstinação de visionario, de outro - é que se desenvolve o pensamento de Schaeffer. Suas idéias se revestem por vezes de uma simpatica força de sugestão, como, por exemplo, quando ele, muito habilmente, faz um balanço dos fatos que seria necessario negar, para que se pudesse concluir pela inexistencia de uma valida experimentação musical em curso. Eis pois, "por ordem de entrada em cena", algumas das negações que Schaeffer põe na boca de um eventual opositor:

 

1 - A produção de sons por via eletronica não tem qualquer interesse musical. Esses instrumentos, bons apenas para imitar os instrumentos classicos (e para que?), devem abster-se de levar suas possibilidades ao dominio onde os instrumentos acusticos se revelam impotentes: variações sistemáticas de timbres, controle absoluto da dinamica, extensão das tessituras.

 

2 - O recurso a instrumentos preparados ou exoticos, vindo acrescentar-se aos meios classicos de obtenção de sons ditos musicais, não tem interesse. Além do fato desses sons, de uma pureza duvida, incomodarem nossos habitos auditivos, estamos firmemente decididos a não compor e a não ouvir senão musica fabricada com o arsenal do Ocidente, cristalizado desde há um seculo, digamos desde Bach.

 

3 - Os meios de aceleração, retardamento, superposição, montagem, retrogradação - que os processos de gravação permitem - não têm qualquer interesse, como tampouco as filtragens ou reverberações artificiais: são apenas truques de engenheiros, bons somente para sonorizar desenhos animados.

 

4 - Não tem também qualquer interesse a produção de objetos sonoros complexos, obtidos a partir de sons ou ruidos, musicais ou não, pela combinação de todas as tecnicas precedentes, praticadas sistematicamente sob o nome de musica concreta e aperfeiçoadas graças a aparelhos especiais, como o fonógeno (cromatico ou continuo), o morfofone, o magnetofone multipista etc.

 

5 - Quanto á consideração do espaço sonoro a três dimensões, no qual se projeta, conscientemente ou não, toda musica (direta ou gravada), trata-se de um fenomeno menor que não deve ser tido como importante.

 

A essas observações sobre os meios de produzir os sons, combiná-los entre si e fazê-los entre si e fazê-los ouvir (das quais, a ultima, de sentido menos acessivel, será esclarecida mais adiante), Schaeffer entende dever ajuntar algumas outras, igualmente negativas. Assim:

 

6 - A musica, contida, por inteiro nos símbolos do solfejo deve excluir toda a consideração de sonoridades que, por demais complexas ou inaudiveis, escapariam a esse sistema de notação e, por isso mesmo, não poderiam ser convenientemente agenciadas numa partitura, acessivel aos musicos de formação tradicional e depositavel oficialmente na SACEM (Sociedade de direitos autorais...).

 

7 - O problema da composição musical não deve ser colocado senão em termos preconcebidos. O compositor é capaz de imaginar todos os sons possiveis, todas as combinações desejaveis, sem o recurso á experimentação sonora. Ele se responsabiliza pelos efeitos psicofisiologicos, mesmo fora de toda experiência sensorial.

 

8 - Em particular, é por um processo puramente teorico - e não por meio de sondagens experimentais - que o compositor pede formas novas aos instrumentos novos. O compositor moderno, escrevendo cada vez menos "para o instrumento", procura, com o socorro da eletronica, não mais se preocupar de todo com os meios de execução: não recebe deles nem ajuda nem constrangimento.

 

9 - Enfim (e aqui, como na quinta proposição, Schaeffer me parece menos claro, fortalecendo assim a posição do adversario hipotetico), a obra musical existe em si, como não ouvida, e o ouvinte deve ser considerado como não participante da sua genese, ou, ao menos, sua razão de ser. Ele é apenas a testemunha, limitado somente pela sua capacidade de adesão ou de recusa.

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