O mundo de Pessoa

Exposição no Museu da Língua Portuguesa apresenta a multiplicidade do poeta português, que foi capaz de se reinventar pelos heterônimos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

Segredos. Sons e imagens acompanham a exposição dos poemas, oferecendo pistas sobre a existência do grande poeta, que acreditava: "Viver não é necessário; o que é necessário é criar"          

 

 

 

 

 

O desafio era monumental - montar uma exposição que apresentasse a multiplicidade da obra de Fernando Pessoa e agradasse tanto ao leigo como ao leitor mais fanático. Diante de tantas possibilidades, o fio da meada surgiu a partir de um dos versos do grande poeta: "Sê plural como o universo." "É uma frase emblemática, que encontrei escrita em um de seus papéis, e que resume bem as intenções de Pessoa", conta o pesquisador americano Richard Zenith que, ao lado do professor Carlos Felipe Moisés, é responsável pela curadoria de Fernando Pessoa, Plural Como o Universo, rica mostra sobre a vida e a obra do poeta português que será aberta hoje para convidados no Museu da Língua Portuguesa - a partir de amanhã e até 30 de janeiro, estará liberada para o público.

Trata-se de uma exposição que busca mostrar toda a multiplicidade da obra de Pessoa, oferecendo ao visitante uma viagem sensorial pelo universo do poeta, permitindo que ele leia, veja, sinta e ouça a materialidade das palavras. São basicamente três módulos que, depois de percorridos, possibilitarão conhecer um artista que não apenas modificou as artes, mas a sociedade como um todo.

"A mostra oferece uma linguagem acessível para quem nunca ouviu falar de Pessoa e também uma chance de novas descobertas para aqueles que já estão familiarizados com seus versos", conta Moisés que, junto de Zenith, releu praticamente toda a obra do escritor para pinçar os elementos essenciais. "Pretendemos atiçar a curiosidade do visitante, que se sentirá motivado a pesquisar mais sobre Pessoa tão logo deixe o museu", aposta Zenith.

Para que a mostra não se resumisse a paredes recheadas de fotos e poesia ("O que pareceria uma sessão de necrofilia", brinca Zenith), os curadores convidaram Helio Eichbauer, conhecido pelo trabalho no teatro, para cuidar do projeto cenográfico. O resultado é deslumbrante, pois estimula todos os sentidos. Logo na entrada, por exemplo, o visitante se depara com seis cabines, cada uma identificada com os heterônimos de Pessoa, além de uma que carrega o próprio nome do poeta.

Ao entrar em uma delas, basta movimentar o braço no ar que um sensor vai exibir um poema característico daquele heterônimo. Assim, ali estão os versos de Alberto Caeiro, o "poeta da natureza"; Ricardo Reis, médico e discípulo de Caeiro; Álvaro de Campos, o engenheiro português que ganhou educação inglesa; Bernardo Soares, autor do Livro do Desassossego; e o próprio Pessoa, "Ele-mesmo", considerado pelo poeta um ortônimo, em tom de ironia.

Também na entrada, o visitante perceberá que o azul predomina na coloração das paredes. "Isso porque a identidade visual é o mar que faz lembrar do azul da água e do céu", explica Eichbauer. "É uma referência à época dos descobrimentos e das grandes conquistas de Portugal, inspirada no livro Mensagem. A ideia é sugerir viagens mentais e espirituais, em torno das ruas de Lisboa, das aventuras dos heterônimos e de Pessoa."

Não espere encontrar, no entanto, caminhos retos - a exposição foi desenhada como um agradável labirinto, que permite ao visitante se perder e descobrir que está novamente em um espaço já visitado. "Com isso, acreditamos que a obra de Pessoa possa ser mais bem assimilada", afirma Moisés.

 

 

FERNANDO PESSOA: PLURAL COMO O UNIVERSO

Museu da Língua Portuguesa. Praça da Luz, s/nº, Luz, 3326-0775. 10 h/17 h (fecha 2ª).

R$ 6. Até 30/1. Abertura hoje, para convidados.

A partir de amanhã, aberto para o público.

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