O mundo de Kiki

Sai enfim no País premiada HQ que retrata vida de musa inspiradora de Foujita, Léger e outros artistas

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Grosso modo, a modelo Kiki de Montparnasse (1901-1953) significou para a arte que se fazia nas décadas de 20 e 30 mais ou menos o que Kate Moss representou para a moda dos anos 90. Fonte de inspiração para os grandes nomes da Escola de Paris -gente como Modigliani, Foujita e Soutine

-, a francesa, assim como a inglesa Kate, também frequentou o noticiário por atividades menos nobres que posar para telas e fotos, em manchetes que alardeavam sua vida noturna e o abuso de drogas. A diferença fundamental é que Kiki protagonizou tais histórias quando elas eram de fato transgressoras.

Embora sua imagem tenha sido eternizada em obras como a fotografia O Violino de Ingres (1924), de Man Ray, e o quadro Nu Deitado com Tecido de Jouy (1922), de Tsugouharu Foujita, a modelo acabou quase esquecida em seu próprio país. Foi assim pelo menos até 1998, quando Billy Klüver e Julie Martin lançaram a biografia Kiki et Montparnasse - 1900/1930.

Quase dez anos depois, em 2007, outra dupla voltou a jogar luzes sobre a vida da francesa, desta vez numa HQ. José-Louis Bocquet e Catel Muller assinam, respectivamente, roteiro e desenho de Kiki de Montparnasse, graphic novel que lhes rendeu diversos prêmios, inclusive no prestigioso festival francês de Angoulême, e que sai só agora por aqui, pelo selo Galera Record.

Uma série de fatores levou Kiki a se destacar entre a infinidade de modelos de nu artístico da época - ou, nas palavras de José-Louis Bocquet, em entrevista por e-mail ao Estado, "tornar-se a exceção que permanece na memória". "Nos anos 20 e 30, em termos de glamour e fantasia coletiva, as modelos de pintores foram equivalentes às top models de hoje, de fama enorme e efêmera", avalia o roteirista. "Mas Kiki foi além, virou cantora em voga em cabarés de Montparnasse, e suas fotografias feitas por Man Ray (com quem ela viveu por muitos anos) foram difundidas no mundo todo. O Violino de Ingres é um dos cartões postais mais vendido no planeta."

Exótica. O livro detalha a vida da francesa, nascida Alice Prin e criada pela avó, desde a infância pobre na vila de Châtillon-sur-Seine até a morte, mais uma vez sem dinheiro e vivendo às custas de amigos. No ínterim, descreve a ascensão da musa de corpo roliço e beleza exótica que, ainda adolescente, começou a posar nua para escultores. E passa pelos anos em que conviveu com nomes como Picasso e Jean Cocteau, destacando-se não só como modelo, cantora e atriz de filmes experimentais - de René Clair e Fernand Léger, entre outros -, mas também como, ela própria, pintora e desenhista.

Foi o hoje pouco conhecido trabalho artístico dela, aliás, que primeiro chamou a atenção de Catel. A desenhista e o roteirista haviam marcado um encontro para discutir outro projeto quando esbarraram na reedição do livro de Klüver e Martin. "Ao descobrir os desenhos de Kiki, senti uma forte proximidade gráfica com o meu trabalho. Uma mistura de espontaneidade, liberdade e expressividade. Entendi o caráter de Kiki vendo seus desenhos", diz Catel. A dupla então abandonou o projeto pelo qual havia se reunido e se propôs a retratar a efervescência cultural da Paris pré-2ª Guerra a partir de Kiki.

Embora seja mais lembrada pelos registros que dela foram feitos, Kiki é, segundo Catel, uma "verdadeira representante artística da Escola de Paris". Como lembra Bocquet, "hoje, seus desenhos e pinturas são raros no mercado de arte e muito procurados por colecionadores de pintores daquele momento artístico". Em 1927, uma exposição com retratos, autorretratos e paisagens assinados pela modelo teve todos os quadros vendidos.

As situações revividas na HQ incluem diálogos reais e imaginados a partir de entrevistas e biografias. Uma das principais fontes foi a autobiografia Kiki Memoirs, que, lançada em 1929 com prefácio de Ernest Hemingway (um dos únicos que o americano fez para outros autores), chegou a ser banida nos Estados Unidos.

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