O mundo das HQs em romance de Chabon

Era uma vez dois garotos judeus que juntaram seus sonhos e os transformaram numa indústria rentável depois que publicaram uma história em quadrinhos numa revista chamada Action Comics. Jerry Siegel e Joe Shuster inventaram, em fins dos anos 30, um herói que usava uma malha colante e uma capa chamado o Super-Homem. Esta é parte da história que Michael Chabon conta em As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, romance de 670 páginas que ganhou o prêmio Pulitzer de 2001 e está sendo lançado no Brasil pela editora Record. Mas Chabon, neste seu terceiro livro (antes, Usina de Sonhos e Garotos Incríveis), não conta a história real dos criadores do Homem de Aço, que transformou as histórias em quadrinhos de tiras de jornais em uma grande indústria de entretenimento. Ele conta uma história ficcional, paralela, de dois garotos judeus que se juntam para criar um super-herói de sucesso chamado O Escapista, baseado nas fantásticas aventuras do mágico real Harry Houdini. Suas façanhas, sem superpoderes, eram sobretudo fugas sensacionais na Alemanha nazista. O Clay do título é na verdade Sam Klayman, um garoto filho de judeus, nascido em Nova York, que sonha ganhar muito dinheiro no reluzente mundo das HQs, um fenômeno pelo qual a América começava a se apaixonar. Sam encontra Joseph Kavalier em 1939, seu primo que veio de Praga. Kavalier fugiu da Checoslováquia ocupada dentro de um caixão que teoricamente carregaria o corpo do Golem, o gigante lendário feito de barro das tradições judaicas, que iria derrotar os alemães. Em Praga, Joseph Kavalier estudava na Escola de Belas Artes e tinha mania de estudar os métodos de "auto-libertação" de Houdini. Sam cuida dos argumentos e dos acertos para publicação e Joseph trata dos desenhos. Logo o Escapista começa a dar bom dinheiro, livrando-os da vida difícil da América de antes da Segunda Guerra. Michael Chabon usa os quadrinhos e sua história como um meio para contar as vidas dos dois heróis. Enquanto explica como os super-heróis satisfaziam uma necessidade da época de mostrar como o bem sempre vencia, coloca Joseph Kavalier numa posição dificílima como o sujeito que deixou a família para trás, como reféns do Holocausto. O romance é, de certa forma, uma história de duas cidades, Nova York e Praga. Entende-se, com o que Chabon conta do mundo judaico da capital checa, por que Joseph Kavalier renuncia ao sucesso e vai enfrentar o nazismo como soldado. Quem não gosta muito de quadrinhos poderá achar o livro um tanto comprido demais e que as histórias sobre a rivalidade dos heróis das HQ e das suas editoras atrapalham a narrativa. Mas Michael Chabon escreve bem (a tradução é de Roberto Muggiati), e é divertido no uso do humor judeu.

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