O mundo como teatro I

Shakespeare, uma alma peregrina que lançou um olhar original sobre a espécie humana

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2018 | 02h00

Faz mais de 400 anos que ele morreu e seu nome ainda causa comoção. No refeito Teatro Globe, aqui em Londres, os guias recitam trechos e explicam a estrutura do recinto aberto para um grupo acostumado com palcos italianos. Na abadia de Westminster, seu monumento funerário (sem seu corpo) é o que causa mais desejo de violar a norma de não fazer fotos no interior do espaço sagrado. Em Stratford-Upon-Avon, onde estive há poucos dias, tudo gira em torno da memória do autor. Estamos falando de William Shakespeare. 

Uma das coisas que mostram o poder e a longevidade de uma obra é quando o nome se descola da obra. Olhando para turistas comprando xícaras com o Bardo, bustos de resina, latinhas de chá com personagens e outros cacarecos, fico a supor se cada pessoa que adquire um item é um leitor contumaz ou um consumidor de “aura”. Sim, o poeta tem a luminescência que se transforma em valor de mercado. Como acontece com Nietzsche ou Freud, há mais citadores do que leitores. 

Não amanheci ranheta: acho válido todo afeto. Existem pessoas que amam William Shakespeare porque viram um bonito filme. Muitos comentam sobre as versões de Franco Zeffirelli para Romeu e Julieta (1968) ou Hamlet (1990), com Mel Gibson. Há os que viram Shakespeare Apaixonado (dir.: John Madden, 1998), uma fantasia bem elaborada sobre o autor. Existem os amantes de máximas: ser ou não ser (a frase mais difundida de toda a literatura) ou a que intitula a crônica, retirada da peça Como Queiras: “Todo mundo é um teatro”. Pílulas curtas de Shakespeare ainda têm sabor do gênio. 

Toda aproximação é válida. O homem de Stratford riria da sisudez dos especialistas. Justamente ele, feliz com sua sexualidade sem barreiras, capaz de conviver bem em tabernas daquele lado licencioso do Tâmisa no qual atuava e, igualmente, buscar apoio de nobres e da Corte. Um homem das massas, um namorado que engravidou a amada antes do casamento, um pai distante, um empresário de sucesso, anglicano porque assim era correto, mas simpático ao catolicismo dos avós, um autor de formação medíocre, pena talentosa, capaz de ressignificar enredos alheios e torná-los mais interessantes. Um criador de peças que dava pouca atenção ao que o grande Aristóteles preconizara. O Bardo nunca deve ter lido o Filósofo. Um inglês que nunca saiu de uma área bem restrita da Inglaterra e que era capaz de viajar pela Roma Antiga, pela Grécia, pela Itália, pela França e pelo mundo mágico de ilhas com duques exilados e fadas envolvidas com flores encantadas. Um homem que repetiu asneiras do seu tempo sobre os judeus e as mulheres e que, apesar de tudo, lançou um olhar original e inteligente sobre a espécie humana. Um ser livre, ambicioso financeiramente, misturado em todas as tradições e contradições do fim do século 16 e do início do 17. Uma alma peregrina capaz de conviver com a censura direta e indireta. Um signo aberto, polimorfo, defendendo para o mesmo público a sabedoria da autoridade e o valor da liberdade. 

William foi um artista capaz de fazer uma coisa que é quase tabu para criadores: aposentou-se e nada mais produziu. Enquanto Monet tentava pintar mesmo cego, Beethoven, já surdo, escrevia com fúria e Nietzsche usava as últimas fibras da razão que se perdia para filosofar, ele, o grande Shakespeare, interrompeu seu vulcão criativo e foi para sua cidade natal para um final feliz e tranquilo. 

Padre Vieira dedicou anos cotejando seus sermões para que sua palavra candente fosse submetida a um crivo rigoroso. Shakespeare jamais publicou, de próprio punho, o conjunto das suas peças revistas. Sobraram dúvidas sobre autoria, frases sem sentido e até a profana questão se ele era o autor da própria obra. Quando eu dava aulas no curso de tradução da Unibero, uma aluna perguntou: “Professor, como é que alguém que nunca esteve na universidade conseguia escrever tão bem?”. Eu respondia que era exatamente por causa disso: sua criatividade não foi atingida pela sistematização e pela autoridade canônica dos centros de formação. A academia não atrapalha, necessariamente, a inteligência, porém é raro que seja capaz de produzi-la onde antes não se notava um raio rútilo de genialidade. 

A faceta menos conhecida do autor para lusófonos está nos sonetos. Meu amigo Almiro Pisetta produziu uma nova versão do conjunto deles. Sairá neste ano, com o selo Martin Claret. Tive o privilégio de ser convidado para escrever um breve prefácio para a tradução dele. O texto de Almiro será uma enorme contribuição para profundar a lírica do inglês entre nós.

Estou escrevendo um texto sobre o Hamlet aqui na Inglaterra. Leio e tresleio a peça e penso que ela sempre tem algo novo a me dizer. Se você nunca leu, recomendo algo herético para os ortodoxos: veja primeiro uma versão em filme. Há várias, da clássica de Laurence Olivier (1948) à icônica produção russa (dir.: Grigori Kozintsev, 1964), da hollywoodiana citada com Mel Gibson até Kenneth Branagh (1996). Existe também uma versão de Michael Almereyda (2000) ambientada no mundo contemporâneo. Especialistas como Harold Bloom acham que ganhamos mais lendo do que vendo. Eu penso que Shakespeare fez teatro e gostava do mundo vivo da cena e da imagem. Depois, quando se sentir pronto, leia uma das muitas traduções, como a de Elvio Funk (editora Unisinos) ou a de Barbara Heliodora (Nova Fronteira). Mas se lembre de que Hamlet é um monumento e, como todo monumento, pressupõe certa maturidade para a leitura. 

Bom domingo para todos nós!

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