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Ignácio de Loyola Brandão
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O mundo ao qual o tio não voltaria

Estremeci. Um choque. Eu conhecia esse edifício. Mexia comigo, alegria, tristeza

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2017 | 03h00

“Hora da comida do tio”, dizia minha mãe, no final de tarde, com um farnelzinho nas mãos. Meu irmão Luiz e eu apanhávamos e corríamos, adorávamos a tarefa. Chegávamos lépidos à pequena empresa algodoeira em frente da estação ferroviária. No enorme galpão, mal iluminado, meu tio cuidava da máquina que comprimia o algodão em fardos. Assim que terminava de comer, ele gritava: “Podem pular!” e ficava a nos vigiar. Luiz e eu mergulhávamos de cabeça na massa de algodão macio no fundo de imensa caixa quadrada. Como se nos atirássemos ao mar. Subíamos e nos jogávamos várias vezes. Uma aventura.

Bento, irmão mais novo de mamãe, também dirigia a baratinha Ford, conversível, do dono da empresa. De repente, ele passava em casa, nos colocava no banco traseiro e rodávamos a cidade por ruas longínquas, ou estradas de terra, até a noite baixar. Nunca me esqueço dos faróis iluminando sombras e mistérios. No carnaval, festa do demônio para minha mãe, ele nos trazia confetes e serpentinas. Outras vezes, saíamos a caçar içás. Tio Bento, pura alegria, iluminava tudo. Casou-se com tia Wanda, teve uma filha, Ana Maria. Vez ou outra os dois provocavam encantamento, me levando para jantar na casa deles. Eu, garoto pixulé, tratado como gente grande. 

A vida correu, até o dia em que tio Bento desapareceu, ninguém mais falava nele. Uma vizinha, certa vez, gritou comigo: “Não brinque mais com meu filho, seu tio é tuberculoso”. Meu pai teve de me dizer a verdade, ele era e estava internado em São José dos Campos. As conversas eram veladas, a doença, um tabu, tudo revelado em sussurros. Em que lugar ele estaria, como seria? Divertia-se ou sofria? Até que chegou um postal colorido, de onde tio Bento morava. Era um prédio longo, rodeado por árvores. Um castelo na floresta? Como seria a vida dele ali? Então, de repente, alvoroço. Tio Bento tinha morrido, meu pai ia buscar o corpo. Dia estranho, a casa ainda escura, meu pai partindo, as mulheres chorando. Do funeral, nenhuma lembrança.

Passaram os anos. Tio Bento tornou-se imagem nebulosa. Duas semanas atrás, fui a São José dos Campos a fim de participar de uma mesa literária na Flim, Festa Literomusical. Conversaria com Maria Eduarda Raymundo e Luis Felipe Santos Nascimento, de 16 anos. Os leitores interrogando os autores, ideia de Patrícia Ioco e Marcelino Freire, os curadores. Um homem de 81 anos, um livro com 42 e dois estudantes com 16. A conversa rolou até o momento que os jovens levaram o tema para a relação complexa de José, o personagem do romance, com sua mãe, a religião, a questão do fanatismo católico em minha infância, Deus, pecado, exageros. 

Em 42 anos de vida, Zero foi assunto de centenas de ensaios, críticas, teses, nacionais e estrangeiras. Nenhum jamais tocou no assunto religião, fixados que estavam na política, violência da ditadura, prisões, mortes, tortura. De repente, numa tarde quente, dois garotos de 16 anos me fizeram voltar. Ou seja, ali estava uma nova geração a descobrir Zero, e um tempo de Brasil que precisa ser mostrado, para não ser reativado, como querem alguns desordenados. O silêncio dominou a plateia enquanto eu me abria e trazia aquele instante da infância em que temi a Deus por ter vomitado a hóstia que acabara de comungar. Olhei para a mediadora Adriana Couto, que, emocionada, me piscou. Naquele momento me senti livre e a Flim se justificou. Para isso são esses festivais, abrir almas, atrair gerações, contar a história do Brasil, formar leitores. 

Ainda impressionado com aquela breve sabatina dos jovens, saí para comer. Não podia imaginar que o passado se cristalizaria de repente. Conduzido para um restaurante em uma cadeira de rodas (estava com um pé avariado por violenta torção), atravessei o Parque Vicentina Aranha, 80 mil metros quadrados de área verde. Então, gelei, ao ver de frente o longo edifício projetado por Ramos de Azevedo em 1914, a pedido de dona Vicentina, mulher do senador Olavo Egydio de Souza Aranha. Estremeci. Um choque. Eu conhecia esse edifício. Seria o déjà vu? Tinha estado aqui. Era familiar, mexia comigo, alegria, tristeza. Essas árvores, essa luz de fim de tarde. Sim, era o cartão-postal que tio Bento enviou à família tantos anos atrás. Aqui, me disseram Claudia e Marco voluntários da Flim, foi o sanatório para tuberculosos, em que ricos pagavam, pobres não. Para construí-lo dona Vicentina tinha se empenhado com todas as forças. Ela foi mãe de Francisca Egydio, que se casou com o advogado e romancista Paulo Setúbal, pai de Olavo Setúbal. Uma parte era para tuberculosos que vinham da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que ajudava a manter o sanatório. A partir do início dos anos 1940, com o advento dos antibióticos, a doença começou a desaparecer, o sanatório foi até os anos 1980.

Mais tarde, tombado, virou centro cultural. Então entendi. Meu pai, ferroviário da Araraquarense, tinha conseguido internar meu tio gratuitamente. Fiquei um tempo olhando, indagando em que quarto aquele homem alegre e cheio de vida tinha ficado separado, isolado. De que janela olhava as árvores, pensava em tua Wanda, Ana, as serpentinas e carnavais, os passeios na baratinha e via o muro que o distanciava do mundo ao qual nunca mais voltaria. A noite começava, ouvi minha mãe chamar: “Levem a comida do tio”.

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